“Diz-me com quem andas e eu te direi quem tu és” é um provérbio popular que nos dá algumas lições intemporais.
A questão não é necessariamente sermos iguais às pessoas com quem convivemos. Mas antes, reconhecer que, sendo por natureza sociais e influenciáveis, somos sempre em alguma medida condicionados pelo meio onde estamos inseridos.
No caso dos ambientes digitais, como já salientei num texto que escrevi sobre Comunidades digitais: “A tecnologia influencia a forma como comunicamos, e a forma como comunicamos condiciona o que comunicamos.” (1). E este condicionamento funciona circularmente, “se os indivíduos modelam a comunidade que formam, também é verdade que a comunidade determina, e de forma ainda mais incisiva (e por vezes subliminar), os comportamentos dos seus membros” (1).
Em conclusão, na medida em que uma comunidade digital condiciona o nosso comportamento, nós tendemos a adotar diferentes estilos de comunicação em função da(s) comunidade(s) que frequentamos.
Acresce que, quanto mais tempo permanecemos e quanto mais participamos em determinada comunidade, maior é a probabilidade de interiorizamos os comportamentos adotados nessa comunidade e de os transportarmos para outros ambientes.
“Diz-me com quem andas e eu te direi quem tu és” significa então que a nossa opção por aderir a determinada comunidade importa um risco de, conscientemente ou não, adotarmos os comportamentos e valores da mesma.
A questão coloca-se hoje com grande acuidade na nossa opção sobre quais redes sociais digitais frequentar.
Na verdade, não podemos querer beneficiar da “publicidade” da imensa escala de seguidores alcançada por determinada rede social, sem contaminar o nosso discurso com o ambiente próprio dessa comunidade.
Isto vem a propósito da recente opção de vários órgãos de comunicação social e personalidades públicas decidirem abandonar a rede X (ex-Twitter).
Parece-me uma opção óbvia para todos aqueles que acusam a rede X de promover a desinformação. Para mim, esta atitude apenas peca por tardia. Há tanto tempo que fazem estas acusações e só agora se lembraram de sair?
Para todos aqueles que há muito acusam a rede X de promover discursos agressivos e desinformação generalizada, não me parece coerente que persistam em permanecer “agarrados” à mesma.
Até porque o poder de uma rede social é proporcional ao número e relevância dos seus membros. Quantas mais entidades publicas, órgãos de comunicação social ou personalidades relevantes participam em determinada rede mais poder esta tem.
Pergunto-me quando é que os políticos que enchem o peito com promessas de combate à desinformação vão também abandonar as redes sociais que eles próprios designam de “corrosivas”? Ou a atração eleitoralista destes megafones digitais é mais forte e continuarão a emprestar-lhe a sua credibilidade? (2)
Notas:
(2) Para que conste, por diferentes motivos que não necessariamente os expostos nos recentes movimentos anti-X, nunca tive Twitter nem X, e desisti de todas as demais redes sociais em que participei com exceção do LinkedIn. Estar num rede social deve ser uma opção consciente.
