A Rússia foi submetida a uma série de sanções comerciais pelos Estados Unidos e União Europeia, por conta da invasão à Ucrânia em fevereiro de 2022. Na teoria, o país não pode fazer negócios com quase nenhum país ou empresas externa, o acesso a bens, serviços, e componentes, críticos ou básicos, foi completamente cortado.
Na prática, assim como a China, o governo russo vem dando um balão nas sanções, e continua se abastecendo do que precisa, com foco em suprimentos para manter a guerra. Já é sabido que a entrada de componentes eletrônicos continua normal, incluindo chips de empresas proibidas de fazer negócios com Moscou, mas o caso envolvendo o S-70, um drone stealth de ataque que entrou em ação em 2023, escancarou a situação.
Um S-70 igual ao da foto foi derrubado pelos próprios russos após sair de controle, mas acabou recuperado por forças ucranianas, quase intacto (Crédito: Divulgação/Yandex)
Rússia continua abastecida com chips
O S-70 Okhotnik-B (“okthonik” significa “caçador” em russo, por isso algumas fontes o chamam de S-70 Hunter-B) é um veículo aéreo de combate não-tripulado (UVAC), resumindo, um drone de ataque como o Reaper americano, e o Bayraktar turco. Com envergadura de 20 m e pesando 65 t, ele é essencialmente um caça stealth, ao menos no papel, seu design de asa voadora chupa o bombardeiro B-2 Spirit, mas também teria sido baseado no RQ-170, um drone dos EUA que o Irã capturou em 2011.
Sim, os aiatolás também tentaram copiá-lo, sem muita sorte.
Desenvolvido pela Sukhoi com base em designs antigos da MiG, o S-70 foi proposto originalmente em 2010, mas russos sendo russos, o projeto atrasou por anos até ser finalmente implementado, o primeiro voo de reconhecimento teria sido realizado em 2023; no ano seguinte, as duas únicas unidades construídas entraram em ação, apenas para sondar o território inimigo, embora sejam capazes de transportar quase 1 t de munições.
O S-70 incorpora algumas soluções stealth do Su-57, e deveria ser “virtualmente invisível” em radares, segundo agências de propaganda da Rússia, mas a verdade é que o projeto não vem dando muito certo: em outubro de 2024, o comando russo perdeu o controle de uma unidade sobre o espaço aéreo da Ucrânia, e para evitar que caísse em mãos inimigas, o drone foi abatido por um caça aliado.
Infelizmente (para os russos, claro), o S-70 caiu 16 km para dentro da fronteira ucraniana, e praticamente intacto. Isso permitiu aos técnicos locais o destrincharem de alto a baixo, o que nos traz ao presente.
O site alemão Golem.de foi o primeiro a reportar que o Departamento Militar de Inteligência da Ucrânia (GUR) havia identificado uma série de chips no S-70 que ele não deveria de maneira alguma ter embarcado, ao menos, não pelos meios legais. Todos foram relacionados no portal War Sanctions, que rastreia o uso de componentes banidos aos russos.
Conforme o portal, o S-70 usa transístores da alemã Infineon, e microcircuitos da suíça STMicroeletronics, além de uma pancada de outros componentes de empresas norte-americanas, como Texas Instruments, Micron, Xilinx, e Fairchild, entre outras. Ao todo, a Ucrânia identificou 30 componentes sancionados diferentes, que não podem ser adquiridos pela Rússia legalmente.
O caso ilustra bem que o efeito das sanções dos EUA e UE contra os russos têm efeitos limitados para nulos, assim como as que os americanos impuseram à China, uma guerra comercial que deve escalar nos próximos meses. Aliás, Pequim é um aliado próximo do Kremlin na situação do conflito, e seria uma das rotas para o descaminho de componentes; Turquia (lembrando que Erdoğan, não raro, joga dos dois lados) e Irã seriam outras duas possíveis.
O GUR afirma que mais de 4.000 componentes ocidentais, barrados pelas sanções, já foram identificados em 147 equipamentos russos durante os quase três anos de conflito; as fabricantes juram que não venderam nada diretamente, e é provavelmente o caso, o camarada Putin apenas dá o seu jeito, com apoio dos amigos próximos, para não ficar sem suprimentos críticos.
No fim das contas, tanto o rolo com a China, quanto a guerra na Ucrânia, serviram para ilustrar que sanções hoje em dia não só são quase inúteis, como acabam tendo um efeito contrário ao desejado.
(meiobit)

