Meomuru chegou a número 2 do Top 100. Mas não existe

By | 08/11/2026

Os fãs do novo projeto musical sul-coreano Meomuru demoraram a perceber. Alguns ainda não têm a certeza. Mas as músicas são todas geradas por IA. Não há um humano a cantar. E um dos seus singles chegou ao topo das tabelas de streaming do país.

Um projeto musical sul-coreano quase desconhecido subiu nas tabelas com um êxito viral que apanhou os ouvintes desprevenidos. Não pela popularidade súbita, mas porque a voz foi inteiramente gerada por inteligência artificial.

O single de Meomuru, ‘Have You Become the Adult You Dreamed of?’, chegou ao número 2 do Top 100 da Melon, a principal tabela de streaming do país, e transformou o projeto num dos mais comentados da Coreia do Sul.

Por trás de Meomuru está a dupla de produção Glorywave, que trabalha com artistas sul-coreanos há mais de uma década. Os dois criaram o conceito e escreveram a letra, mas foi a plataforma de IA generativa Suno que produziu a melodia, o arranjo e a voz.

O resto, a edição e a mistura, fizeram-no eles. E o resultado, diga-se, é bastante convincente.

Nas redes de Meomuru, cheias de imagens e vídeos também feitos por IA, uma pergunta domina os comentários: “Isto é IA?“.

As reações dividem-se por idades, conta o South China Morning Post.

Lee Sun-mi, de 41 anos, achou a canção familiar e o resto do repertório “genérico de mais”, e diz que não vai procurar música de IA.  Já Shin Ji-hye, estudante de 19 anos, não mudou de ideias ao saber que era IA: a música continuava “comovente e pegadiça”. Para ela, plataformas como a Suno baixam a barreira a quem quer compor mas não sabe cantar nem tem dinheiro para produzir.

O caso não é isolado. No K-pop já havia a boy band virtual Plave, embora aí sejam humanos a cantar e a dançar por trás das personagens animadas.

Nos Estados Unidos, a artista de R&B Xania Monet, com voz gerada pela Suno sobre letras de uma poetisa humana, assinou um contrato de milhões e entrou nas tabelas da Billboard, entre críticas de músicos que acusam estes projetos de roubar trabalho aos intérpretes de carne e osso.

A ascensão da música de IA traz atrás de si uma guerra de direitos de autor.

A Suno enfrenta nos EUA processos de grandes editoras, como a Universal e a Sony, por alegadamente ter treinado os modelos com gravações protegidas, sem autorização.

Entre os temas usados estariam canções de Psy e dos BTS. Na semana passada, a Anthropic foi processada por causa do catálogo de Elvis Presley.

O vazio legal é evidente.

Na Coreia do Sul, uma obra só tem proteção se mostrar contributo criativo humano, mas ninguém sabe ao certo onde acaba a máquina e começa a pessoa. Os Glorywave nem registaram a canção, nem recebem direitos por ela.

A associação de direitos musicais chegou a criar regras para música assistida por IA, em agosto, mas retirou-as 22 dias depois. Os deputados estudam agora obrigar a rotular a música feita por IA.

O professor Yoo Seung-chul acredita que a IA não substituirá os artistas ao vivo, mas abrirá um género próprio. O crítico Kim Sung-hwan insiste que o que decide tudo é a ideia original: se nasceu de um humano. E avisa: se o esforço humano for pouco, a música de IA arrisca-se a ser só produto mecânico, “criado apenas para fins comerciais”, em vez de obra de arte.

(ZAP)