A ciber resiliência passou a ser um tópico prioritário na agenda dos decisores e a NIS2 tornou a continuidade tecnológica uma dimensão de continuidade do negócio, destaca Vítor Medeiros.
Há uma pergunta que passou a ouvir-se cada vez mais nas reuniões com empresas e clientes. Durante anos, o que se queria saber era qual a próxima tecnologia a adotar ou como acelerar a transformação digital. Hoje, a questão é outra, mais desconfortável: quanto tempo é que a empresa aguentaria a funcionar se essa tecnologia, de repente, deixasse de responder?
Pensemos numa linha de produção que pára. Num sistema logístico que deixa de comunicar. Numa equipa comercial que fica sem acesso à informação de que precisa para trabalhar. Basta uma falha para perceber que o problema raramente fica contido no sistema afetado. Alastra às operações, às decisões, à relação com quem depende da empresa e m última análise à confiança. E é aí que deixa de ser um assunto do departamento de informática para passar a ser um assunto de quem gere o negócio.
É esta perceção, mais do que o aumento das ameaças digitais, que explica por que razão a ciber-resiliência passou a tópico prioritário na agenda dos decisores. A transformação digital acelerou as empresas mas o que começa agora a distingui-las é outra coisa: a capacidade de manter esse ritmo quando alguma coisa corre mal.
E alguma coisa vai correr mal. É talvez esta a mudança de mentalidade mais importante que observo. Durante muito tempo, pensámos a segurança como proteção: erguer barreiras, reduzir a probabilidade de existir um incidente, evitar que acontecesse. Esse trabalho continua a ser preciso, mas já não chega. Porque a pergunta deixou de ser “como evito que aconteça” e passou a ser “como continuo a trabalhar quando acontecer”. Parece uma diferença subtil, mas não é. Muda tudo na forma como uma empresa se prepara.
E os reflexos desta mudança já são visíveis em várias áreas do negócio. Nas decisões sobre inteligência artificial, gestão documental, automatização, integração de plataformas, a conversa continua a ser sobre inovar e crescer, mas tornou-se mais exigente. Já não basta perguntar o que é que uma nova capacidade acrescenta. Pergunta-se também o que acontece se ela falhar. Que informação fica em risco. Que processos ficam parados. Quanto tempo demora a recuperação.
Não é por acaso que a Diretiva NIS2 chega precisamente agora. A regulação não inventou este problema. Deu forma a uma realidade que muitas empresas já sentiam sem lhe saber dar nome: a continuidade tecnológica passou a ser uma dimensão da continuidade do próprio negócio e não uma responsabilidade que se possa despachar para a equipa técnica.
Na prática, estar preparado mede-se menos pelas ferramentas que se instalam e mais por um conjunto de decisões que são, no fundo, decisões de gestão. Saber quais são os processos que não podem parar, garantir que a informação se recupera, perceber como os sistemas dependem uns dos outros e preparar as pessoas para agirem sem improvisar no pior momento. É esta preparação que faz a diferença entre uma interrupção passageira e uma paragem que deixa marca.
Há ainda uma dimensão que ultrapassa o plano técnico e que noto cada vez mais em conversas com clientes e parceiros: a confiança tornou-se um critério de decisão. Avalia-se a forma como uma empresa protege a informação, como assegura o serviço, como responde quando algo corre mal. E aqui há uma assimetria que convém não esquecer. A recuperação técnica de um incidente resolve-se em horas ou dias. A recuperação da confiança de quem se sentiu desprotegido pode levar muito mais tempo.
A maturidade digital vai continuar a medir-se pela capacidade de inovar, automatizar e integrar tecnologia no negócio. Mas passa também a medir-se por algo menos visível: a forma como uma empresa se mantém de pé e continua a criar valor e a merecer confiança, quando o contexto deixa de correr como estava previsto. Num mercado em que a tecnologia acelera todos os dias, a vantagem competitiva pode já não estar em ganhar velocidade. Pode estar, simplesmente, em conseguir mantê-la.
Por Vítor Medeiros – Sales & Business Development Director da Konica Minolta Portugal
(Teksapo)
