Há mais empresas a preparar soluções de inteligência artificial e milhões de euros destinados à sua aplicação nas PME. Ainda assim, os custos, a falta de conhecimentos e as dificuldades de integração podem comprometer o salto da oferta para a utilização.
Portugal está a desenvolver novas soluções de inteligência artificial, a financiar projetos nas pequenas e médias empresas e a procurar profissionais especializados, mas a utilização da tecnologia continua abaixo da média europeia, num cenário em que os custos e a falta de conhecimentos dificultam a sua adoção.
O retrato traçado pelo “Radar sobre a utilização e oferta de IA em Portugal 2026”, da Via Analítica, revela uma diferença crescente entre a evolução nacional e a europeia. Em 2025, apenas 11,5% das empresas portuguesas com 10 ou mais trabalhadores usavam IA, contra 20% na União Europeia. Em 2023, a distância entre Portugal e a média comunitária era de apenas 0,2 pontos percentuais, tendo aumentado para 8,5 pontos percentuais em 2025.
A tendência contrasta com o uso individual de IA generativa. No mesmo ano, 38,7% dos portugueses entre os 16 e os 74 anos recorreram a estas ferramentas, acima dos 32,7% registados na UE.
Nas empresas a adoção varia significativamente entre sectores. Na área da informação e comunicação, que inclui as empresas tecnológicas, a taxa nacional atingiu 52,8%, ainda abaixo dos 62,5% europeus.
Entre as empresas portuguesas que ainda não recorrem à IA, mas ponderaram fazê-lo, 74% apontam a falta de conhecimentos como obstáculo e 60% referem os custos elevados. Na União Europeia, esta última barreira é mencionada por 38% das empresas. A falta de clareza legal e as preocupações com a proteção de dados e a privacidade também pesam na decisão.
Do lado do investimento, a linha de apoio “IA nas PME” já aprovou 2.847 projetos, num total de 435 milhões de euros. Cerca de 92% têm conclusão prevista para 2027 ou 2028. Marketing e vendas, gestão documental, tarefas administrativas e financeiras e atendimento ao cliente estão entre as áreas de aplicação mais frequentes. Muitos projetos combinam várias soluções, incluindo ferramentas como o ChatGPT e o Copilot.
A oferta nacional também está a crescer. Pelo menos 336 das 2.187 sociedades de tecnologias de informação e investigação e desenvolvimento constituídas entre janeiro e setembro de 2026 declaram no objeto social oferecer produtos ou serviços de IA. A proporção sobe para 20,4% na programação e edição de software. Estes dados refletem, contudo, a atividade declarada pelas empresas, não constituindo prova de que já tenham produtos no mercado ou clientes.
Portugal conta ainda com 486 startups de IA, responsáveis por 4.108 postos de trabalho em 2026. Entretanto, as competências de engenharia de IA representaram 4,1% dos anúncios de emprego publicados no LinkedIn em 2025, acima dos 2,5% apontados pela OCDE.
Para a Via Analítica, o desafio passa agora por transformar a capacidade criada em utilização efetiva e continuada. Sem conhecimentos, preparação dos dados e adaptação dos processos de trabalho, as empresas arriscam investir em mais soluções do que aquelas que conseguem integrar e aproveitar.
(Teksapo)
