Os primeiros “deepfakes” apareceram quase ao mesmo tempo que a Fotografia

By | 23/10/2026

William H. Mumler vendia fotografias de “fantasmas”. Foi julgado por fraude, mas ilibado: não se provou que existiam fantasmas, mas também ninguém sabia como o norte-americano punha mortos ao lado dos vivos nas imagens.

Recuemos, durante cerca de três minutos, a 1862. Estamos com William H. Mumler no seu estúdio em Boston, EUA, onde o gravador de joias e fotógrafo amador revela um autorretrato quando repara numa figura inesperada atrás de si.

Na fotografia aparecia uma jovem de vestido comprido, com o rosto desfocado, como um fantasma. Mumler corre para mostrar a imagem a um amigo. Até porque a mulher na imagem se parecia com uma prima sua, já falecida.

A fotografia começou a circular por Boston e depressa chegou aos círculos de quem acreditava em fantasmas. Finalmente: provas fotográficas da existência de espíritos.

Na verdade, a mulher na fotografia seria Hannah Frances Green, uma fotógrafa e médium que trabalhava por perto, e que viria a casar com William Mumler. O que se passou neste dia, naquele estúdio, foi que a chapa fotográfica não tinha sido bem limpa antes de voltar a ser usada, e nela ficaram bocados da fotografia anterior.

Mas, do acidente, o fotógrafo percebeu que podia lucrar. Começou a vender fotografias de pessoas acompanhadas pelos supostos espíritos dos seus familiares mortos, a dez dólares (cerca de 335 dólares, atualmente) por sessão. São muitas as provas deste trabalho de Mumler ainda disponíveis online.

O negócio dos mortos fotografados não podia vir mais a calhar, com os Estados Unidos mergulhados na Guerra Civil. Todos queriam eternizar de alguma forma os filhos, maridos, irmãos, primos mortos na guerra. Estabelecer contacto com o além também estava na moda, desde que as irmãs Fox afirmaram conseguir comunicar com os mortos através de pancadas nas paredes, lembra a National Geographic.

Ciente da oportunidade, Mumler aperfeiçoou os seus métodos, através de duplas exposições e outros truques de laboratório. Mas certa altura cometeu um erro: um cliente reconheceu a própria mulher numa das fotografias em que surgia como espírito. O problema? A mulher estava viva. A esposa do cliente tinha ido ao estúdio, viva e de boa saúde, e o marido, que sabia que a esposa tinha sido fotografada pelo mesmo homem, apareceu mais tarde para desacreditar todo o processo, recorda o MET. Mas a história não fica por aqui.

As suspeitas rapidamente traduziram-se em descrença e Mumler terá sido forçado a mudar-se para Nova Iorque para conseguir continuar a farsa. Abriu um estúdio, em Broadway. Mas em 1869, um investigador (Joseph Tooker), enviado pela própria Câmara de Nova Iorque, fez-se passar por cliente e o fotógrafo acabou em tribunal, acusado de fraude.

Seria o jornal The World, apoiado por cientistas e fotógrafos, o primeiro a contestar os seus métodos, de acordo com o livro The Strange Case of William Mumler, dedicado ao tema.

O artigo incluía o depoimento de P. V. Hickey, jornalista responsável pelos assuntos científicos do jornal, que denunciou as práticas de Mumler às autoridades nova-iorquinas. Estava em causa a confiança numa tecnologia que muitos consideravam, na altura, incapaz de mentir.

Durante as audiências, a acusação esforçou-se para provar como as imagens podiam ser — e eram — manipuladas. Mas não conseguiu provar exatamente como Mumler produzia os seus fantasmas.

O juiz decidiu assim libertar Mumler, por insuficiência de provas. Segundo a National Geographic, chegou mesmo a admitir que, por vezes, via espíritos na sala de audiências. Vitória para os espíritas, derrota para os mais céticos.

(Tomás Guimarães, ZAP)