IA: como manter-se inteligente, o pensamento crítico, o problema de “deixar de pensar”

By | 22/10/2026

Mais do que rejeitar as ferramentas de inteligência artificial, importa aprender a utilizá-las sem abdicar da autonomia intelectual.

A facilidade com que a inteligência artificial (IA) produz respostas e executa tarefas levanta questões sobre o pensamento crítico, a aprendizagem e a criatividade. Mais do que rejeitar estas ferramentas, importa aprender a utilizá-las sem abdicar da autonomia intelectual.

A IA promete tornar o trabalho mais rápido, simplificar tarefas e facilitar o acesso à informação. Mas, à medida que estas ferramentas ganham espaço na educação e na atividade profissional, cresce uma preocupação: até que ponto a delegação de tarefas às máquinas pode comprometer a capacidade humana de pensar, questionar e decidir?

Num artigo publicado na revista Nature, a jornalista científica Helen Pearson analisa a investigação sobre o pensamento crítico na era da inteligência artificial e os riscos de uma dependência excessiva destas tecnologias.

A reflexão converge com a ideia central de Soraia Pedroso, CEO, na Meios & Publicidade: o problema não está necessariamente em utilizar IA, mas em permitir que esta substitua o raciocínio que deve orientar o seu uso.

Na educação, os sinais de alerta são particularmente relevantes. Uma experiência relatada por Lixiang Yan, investigador e professor da Universidade Tsinghua, na China, demonstrou como um sistema de inteligência artificial pode executar autonomamente tarefas académicas, responder a perguntas e participar em discussões sem exigir um envolvimento intelectual significativo por parte dos estudantes.

O desempenho imediato, porém, não equivale necessariamente a aprendizagem. Um estudo de 2025 concluiu que estudantes do ensino secundário que utilizaram uma ferramenta de IA para resolver exercícios de matemática tiveram melhores resultados durante a sua utilização, mas apresentaram um desempenho inferior ao de alunos que não tinham recorrido à tecnologia quando deixaram de ter acesso à ferramenta.

Apesar destes resultados, a investigação ainda não permite estabelecer conclusões definitivas sobre o impacto da IA nas capacidades cognitivas. A diversidade de ferramentas, os resultados contraditórios e a escassez de estudos rigorosos e prolongados dificultam uma avaliação abrangente dos seus efeitos.

O desafio passa, por isso, por preservar as competências que permitem avaliar informação, comparar perspetivas, formular hipóteses e reconhecer a incerteza. Estas capacidades não surgem automaticamente: exigem conhecimento, prática e esforço intelectual. Se todas as etapas difíceis forem entregues a um sistema automatizado, corre-se o risco de obter respostas sem desenvolver a capacidade de compreender como se chegou até elas.

No mundo profissional, a questão assume outra dimensão, mas parte do mesmo princípio. Na comunicação e no marketing, a IA permite produzir conteúdos, gerar alternativas e acelerar processos. Contudo, a rapidez de execução não garante qualidade, relevância ou originalidade. Sem objetivos claros, pensamento estratégico e capacidade de julgamento, a tecnologia pode simplesmente multiplicar conteúdos sem valor acrescentado.

A solução não passa, necessariamente, por proibir a inteligência artificial ou ignorar as suas vantagens. Passa por definir limites, compreender as suas capacidades e verificar criticamente os resultados que apresenta. Na educação, isso implica ensinar os alunos a raciocinar com a tecnologia, em vez de os habituar a depender dela. Nas empresas, exige que as decisões continuem a assentar em critérios humanos, conhecimento e responsabilidade.

(ZAP)