Um estudo realizado pela HeraPrime a 57 empresas com atividade em Portugal, conclui que a digitalização avançou mais depressa do que a proteção. Três em cada dez não sabem quanto tempo ficariam paradas após uma falha total.
A inteligência artificial tornou-se na prioridade de investimento tecnológico de 60% das empresas inquiridas no Barómetro HeraPrime 2026, mas 76% das que a escolhem acabaram por não colocar a cibersegurança entre as suas prioridades. O estudo, da consultora HeraPrime, reuniu 57 respostas de empresas com atividade em Portugal entre julho e setembro. Os autores concluem que as empresas se digitalizaram mais depressa do que se protegeram: 75% têm a digitalização mais avançada do que a segurança e a continuidade do negócio.
A digitalização de base já está, mas isso não significa que o trabalho já esteja terminado. Apesar de 77% das empresas inquiridas já usarem um software de gestão (ERP), só 39% recebe informação de gestão de forma automática. O mesmo pode ser dito da IA, onde 68% das empresas inquiridas garante já usar inteligência artificial, mas só 14% a utilizam de forma regular e estruturada. Mais grave ainda, 44% afirmou “Não saber o que a IA pode fazer pelo negócio”.


Relativamente à cibersegurança, a situação é ainda mais grave, sendo esta considerada apenas como prioridade por 23% das empresas, e só 24% das empresas que apostam na IA escolhem também a segurança. No índice de maturidade criado pela HeraPrime, a componente digital tem, em média, 56 pontos em 100, e a de resiliência, que junta a segurança e a continuidade, 39. Entre os obstáculos ao investimento em tecnologia, 51% apontam a falta de tempo, à frente do custo, referido por 37% dos inquiridos.
Cópias sim, contas e planos nem tanto
Nas medidas de proteção, 88% garantem que já fazem cópias de segurança, 81% têm antivírus e 72% usam uma firewall gerida. Mas só 35% utilizam autenticação multifator, 21% dão formação periódica aos colaboradores e 12% têm um plano de resposta a incidentes. Nas empresas que usam o Microsoft 365, o Google Workspace ou ferramentas semelhantes, 56% não assinalaram o uso da autenticação multifator, que estas plataformas incluem sem custo adicional. Além disso, 56% dizem desconhecer a NIS2, o regime de cibersegurança em vigor desde abril do presente ano.




A falta de preparação para uma falha é o ponto mais crítico identificado no estudo. Três em cada dez empresas não sabem quanto tempo demorariam a retomar a atividade depois de uma paragem total dos sistemas. Só 12% têm um plano de continuidade documentado e testado, 44% não têm nenhum e 68% das que o concluíram nunca o testaram. Quanto a incidentes, 16% referem um nos últimos dois anos, de impacto limitado, mas 47% respondem “não que tenhamos conhecimento”, o que, notam os autores, não equivale a não ter sofrido nenhum.
Microempresas, recomendações e limites
A distância é maior nas empresas até 10 pessoas, com um índice de resiliência de 27 em 100, contra 48 nas de 11 a 250. Só 8% das microempresas apontam a cibersegurança como prioridade, contra 33% nas maiores, e 17% das microempresas usam autenticação multifator, face a 48% das empresas até 250 colaboradores. O principal obstáculo para o avanço nestas áreas também difere entre o tipo de empresa, sendo este a falta de tempo (58%) nas microempresas, sendo o custo (52%) o principal nas empresas maiores.
“As empresas fizeram a parte mais difícil, que foi digitalizar-se. O que falta é, muitas vezes, ligar proteções que já pagaram e testar o que acontece quando algo falha. Não é preciso um grande programa: é preciso começar por um processo e saber quanto tempo demora a voltar”, afirma Paulo Lobo, diretor comercial da HeraPrime.
Para equilibrar a aposta no digital e a resiliência das empresas, a consultora propõe três passos essenciais. O primeiro é a ativação de tudo o que já está pago, ou seja, para empresas que usam plataformas como o Microsoft 365, Google Workspace ou similar, deve-se aproveitar o que já vem incluído, como a autenticação de dois fatores. Esta deverá ser usada por todas as contas de utilizadores, incluindo as de administração.
O segundo passo é a inclusão da resiliência no orçamento dos projetos de IA, evitando tratar a questão da segurança como um projeto separado. Como tal, cada projeto de IA ou de automatização deverá passar a incluir, no seu âmbito e no seu custo, o controlo de quem acede aos dados que usa, e a forma de os recuperar se algo correr mal. Por fim, nas microempresas, é recomendável a contratação de serviços externos de gestão da segurança, de preferência com a realização de um teste anual de recuperação.
Para a realização deste estudo, foi realizado um inquérito online, de participação voluntária, divulgado na base de contactos da HeraPrime (clientes e não clientes). Das 70 respostas obtidas, apenas 57 foram consideradas por corresponderem ao âmbito do estudo, das quais 42% eram de empresas até 10 pessoas, 39% de 11 a 50 pessoas e 19% de 51 a 250. Das empresas participantes, 72% têm sede na Área Metropolitana de Lisboa, e 61% das empresas inquiridas, as respostas foram dadas por membros da administração ou da direção geral das mesmas.
Poderá consultar o estudo completo a partir do endereço heraprime.com/barometro2026.
(Teksapo)
