Um pacote de Internet movido a pombo vai a leilão. Sim, um pacote TCP/IP

By | 18/10/2026

25 anos depois de levantar voo, um pacote sobrevivente da rede mais impraticável do mundo já atraiu uma licitação de 4.000 dólares.

Uma peça da história da internet que já viajou presa à pata de um pombo está em leilão na Christie’s, onde alguém já licitou 4.000 dólares (cerca de 3.600 euros) por aquele que talvez seja o ping mais caro do mundo.

O lote insólito é um pacote IP sobrevivente de uma experiência de 2001, em que entusiastas noruegueses do Linux decidiram descobrir se a internet podia, de facto, funcionar com pássaros.

A ideia remonta a 1 de abril de 1990, quando o engenheiro de redes americano David Waitzman publicou a RFC 1149, intitulada “A Standard for the Transmission of IP Datagrams on Avian Carriers“.

Escrita na linguagem maravilhosamente seca de um documento oficial de normas da internet, a proposta do Dia das Mentiras explicava como pombos-correio podiam transportar pacotes IP entre locais. Notava que os portadores aviários podiam oferecer grande largura de banda, embora a latência fosse outra conversa.

A maioria das pessoas achou piada e seguiu em frente. Mas o Bergen Linux User Group (BLUG) decidiu construí-la mesmo, conta o The Register.

A 28 de abril de 2001, o grupo pôs a RFC 1149 à prova com pombos de corrida, impressoras e scanners.

Os pacotes IP eram impressos como cadeias hexadecimais em tiras de papel, atados às patas das aves e transportados entre dois pombais a 5 km de distância.

Os resultados não foram propriamente um atestado de confiança às redes movidas a pombos. Foram enviados nove pacotes, mas só voltaram quatro respostas, o que deu à experiência uma taxa de perda de pacotes de cerca de 56%.

É uma taxa de “perda de pacotes” um pouco maior do que a que uma ligação TCP/IP normal deve ter: acima de 1%, já é inaceitável.

Por outro lado, segundo o relato da experiência publicado pelo BLUG, o ping demorou entre 53 minutos e quase duas horas. Não é gralha. Minutos, não milissegundos.

Mas e então, como funcionou o ping, neste caso?

Fácil: o computador enviou um ping (uma espécie de “estás aí?”), que foi impresso em papel, preso à pata de um pombo e transportado até ao destino. A resposta regressou pelo mesmo sistema.

Ainda assim, a rede funcionou, pelo menos no sentido mais lato possível da palavra. Pacotes IP a sério tinham viajado pelo ar, sem um único router, cabo de fibra ótica ou operadora de telecomunicações pelo meio.

Um desses pacotes reapareceu agora na leiloeira Christie’s, como parte do seu leilão Fine Printed Books & Manuscripts Including Americana and Science.

O objeto é um pequeno rolo de papel que mede apenas 41 mm por 210 mm, com vincos de ter sido enrolado e atado à pata do pombo. Está agora emoldurado, com uma inscrição no verso que o identifica como propriedade de Waitzman, a quem foi oferecido em 2002.

A Christie’s estimou inicialmente que o pacote renderia entre 2.000 e 3.000 dólares, mas a licitação já chegou aos 4.000.

O leilão encerra esta terça-feira.

A leiloeira descreve a experiência como um exemplo da tradição do “hack” habilidoso da internet, e celebra o engenho técnico e o sentido de humor da sua primeira comunidade.

Há, claro, algo de bastante apropriado num pacote de internet que levantou voo há 25 anos e vale agora milhares de dólares. A maioria dos pacotes desaparece no éter quando cumpre a sua função. Este acabou numa moldura e está à venda na Christie’s.

Nada mau para algo entregue por um pombo.

(ZAP)