Uma carta cifrada por ordem de Napoleão ficou 217 anos por ler. A IA demorou 6 horas a fazê-lo

By | 12/10/2026

O GPT-6 Astra foi usado para decifrar um código com séculos, que servia para transmitir informação militar estratégica entre as tropas de Napoleão.

Um engenheiro recorreu a inteligência artificial para quebrar uma cifra até agora por resolver, que Napoleão Bonaparte usava para enviar mensagens secretas aos seus generais, o que nos permite ler pela primeira vez uma carta com 217 anos.

O anúncio entusiasmou os historiadores com o potencial da IA para se tornar uma “Pedra de Roseta” moderna, capaz de traduzir mensagens históricas cifradas.

Carter Church, engenheiro de IA na empresa de cibersegurança Sentinel One, expôs as conclusões numa publicação no X na quarta-feira (30 de setembro), explicando como deu ao GPT-6 Astra, o novo modelo da OpenAI, um único prompt e uma única imagem para decifrar o código com séculos.

Seis horas depois, a tarefa estava concluída.

“Ao início não acreditei”, disse Church à Live Science. “Toda a gente já viu um modelo afirmar algo absurdo, mas aqui a diferença é que a solução é testável de forma mecânica: é praticamente impossível que uma chave errada produza um resultado coerente e historicamente consistente”.

A carta foi enviada em 1809, a pedido de Napoleão, pelo seu enteado Eugène, vice-rei de Itália, ao marechal Auguste de Marmont, que estava destacado longe de quaisquer outras tropas francesas, na margem oriental do mar Adriático. Servia para informar Marmont da posição de todos os outros exércitos franceses e aliados espalhados pelo continente.

Mas, para não revelar segredos militares aos inimigos de França caso fosse intercetada, a mensagem foi escrita em código.

Church encontrou a carta depois de procurar um código adequado para quebrar e assim mostrar as capacidades do GPT-6 Astra. Publicou entretanto o resultado do trabalho no seu site pessoal.

“A parte mais difícil é mesmo verificar as soluções, muito mais difícil do que gerar soluções possíveis”, disse Church. “A responsabilidade não se pode automatizar”.

Segundo Church, a única imagem da carta disponível ao público era uma digitalização de baixa resolução publicada numa revista do exército francês em 1969. Tem 155 sinais diferentes, 1.300 no total, e o código é homofónico: as letras mais comuns têm vários símbolos que se podem trocar entre si.

Persée

Detalhe da carta cifrada de Napoleão

Mas esta digitalização de baixa resolução e um só prompt foi tudo o que o GPT-6 Astra precisou para transcrever o texto e encontrar uma tabela parcial do historiador da criptologia Daniel Tant, até aí sem ligação a esta carta, que registava o significado de 33 dos símbolos, cerca de um terço da carta.

“Foi o próprio Astra que fez esta ligação, através de pesquisa na Internet enquanto investigava”, disse Church.

“Pelo que percebi: Tant catalogou a tabela como ‘Code entre Eugène de Beauharnais et le Général Grammont‘, o que pode ter sido um erro no nome (Grammont em vez de Marmont?). Seja como for, o Astra identificou este exemplo e decidiu simplesmente tentar aplicá-lo a esta cifra… e resultou!”.

O GPT-6 usou com êxito a tabela parcial para determinar o que representava cada um dos outros símbolos e traduzir a mensagem.

“É um uso muito interessante da inteligência artificial, e sabe bem ver a IA a ser usada de forma produtiva para tentar dar uma solução credível a um mistério histórico”, disse Zack White, investigador de história na Universidade de Portsmouth e apresentador do Napoleonic Wars Podcast, à Live Science.

Michael Rowe, investigador de história europeia no King’s College de Londres, considera que os resultados são “impressionantes”.

Como temos acesso à correspondência original de Napoleão para o enteado, onde o imperador detalhou o que a mensagem cifrada devia conter, podemos confiar razoavelmente na tradução da carta de Eugène.

“É um bocado como uma espécie de Pedra de Roseta”, diz Rowe. “Se testarmos a IA nesta carta, em que sabemos mais ou menos qual seria o conteúdo porque é referido noutra carta, a IA faz o seu trabalho e reproduz, no essencial, aquilo que estávamos à espera de ver. Depois, se usarmos exatamente o mesmo tipo de ferramenta e de método em algo cujo conteúdo não conhecemos, é mais provável que confiemos no resultado”.

Isto também significa que a tradução da mensagem secreta de Eugène não surpreende muito os historiadores.

“A versão cifrada limitou-se a repetir uma boa parte do que está nessa carta original, por isso, de certa forma, não nos diz nada de novo, não revela nenhuma grande novidade”, disse Rowe.

Além das posições das tropas e dos seus comandantes, a mensagem de Eugène encoraja Marmont a não temer a oposição: “Quando receber a ordem de marchar, não se deixe intimidar por umas quantas tropas ou por um ajuntamento de populares“, lê-se na carta agora traduzida.

Segundo White, a tradução levanta mesmo “algumas perguntas curiosas sobre o estado de espírito de Napoleão nos dias que antecederam a campanha na Áustria, em 1809”.

“É importante que os historiadores situem agora o trabalho da IA num quadro mais amplo da história do período”, diz White. “Também será interessante ver se a chave que saiu deste trabalho da IA pode agora ser usada noutra correspondência”.

Usar a IA para quebrar estes códigos também pode dar a conhecer melhor a vida privada de figuras históricas. “As cifras eram muitas vezes usadas também na correspondência privada”, disse Rowe, por exemplo em cartas entre pessoas da elite envolvidas em casos extraconjugais.

A técnica também pode servir aos historiadores da Antiguidade, no estudo de documentos em línguas e escritas que ainda não compreendemos bem, ou escritos com uma caligrafia ilegível.

“Em todas as épocas, esta IA está a abrir portas”, conclui Rowe.

(ZAP)