“Clonei o meu cão”. É o mesmo animal?

By | 24/09/2026

Clonar um cão ou um gato já não é ficção científica: há empresas que cobram 50 mil dólares para produzir uma cópia genética de um animal de estimação. Mas o resultado é, afinal, o mesmo animal?

Esse “novo, velho” animal, ao contrário do que se pode pensar, pode ter outro aspeto, outro temperamento e uma história completamente diferente.

O processo mudou muito desde o nascimento histórico da ovelha Dolly, em 1996.  Agora, tudo começa com uma célula somática, normalmente retirada da pele do animal que se pretende clonar. O núcleo dessa célula contém o ADN e é transferido para um óvulo ao qual foi previamente retirado o próprio núcleo. Hoje, cães, gatos ou cavalos podem ser clonados.

A técnica chama-se Transferência nuclear de células somáticas (TNCS). O óvulo passa assim a conter a informação genética do animal original. Depois recebe um impulso elétrico, começa a dividir-se e pode transformar-se num embrião. Esse embrião é colocado no útero de uma fêmea que funciona como barriga de aluguer. Se tudo correr bem, após a gestação, nasce o clone.

O IFLScience ‘martela’ no “se tudo correr bem”. Foram necessárias 277 tentativas para produzir Dolly, o primeiro mamífero clonado desta forma. Três décadas de investigação melhoraram a técnica, mas as taxas de sucesso continuam baixas e variam muito entre espécies. Segundo os dados citados pela revista, podem ir de apenas 0,1% a 16%, embora existam estimativas mais elevadas.

Um negócio

Mas a tecnologia conseguiu virar negócio, mesmo assim. O primeiro animal de estimação clonado foi uma gata chamada CC, nascida em 2001. O nome vinha de “Carbon Copy”, ou cópia em papel químico. A designação acabaria por ser particularmente enganadora.

Nos Estados Unidos, uma das principais empresas deste mercado é a ViaGen Pets & Equine. Por 50 mil dólares, aceita uma amostra de pele de cães ou gatos, vivos ou mortos há muito pouco tempo, e tenta produzir um clone. Entre os clientes conhecidos estão várias celebridades como Barbra Streisand, Paris Hilton e Tom Brady. A procura é suficiente para, segundo o artigo, a empresa ter uma lista de espera de cinco a sete meses.

É o mesmo animal?

O problema é que 50 mil dólares não compram aquilo que muitos donos podem imaginar: o regresso do mesmo animal.

O clone partilha grande parte da informação genética com o original, mas um animal é mais do que o seu ADN. O ambiente durante o desenvolvimento, as condições no útero, as primeiras semanas de vida e tudo aquilo que lhe acontece depois do nascimento também ajudam a definir características físicas e comportamentais.

Josh Milburn, professor de Filosofia Política na Loughborough University, resume a diferença: clonar um cão ou um gato não significa que esse animal “renasça”. O que nasce é outro cão ou outro gato, que pode nem sequer ser muito parecido com o original. A gata CC foi um exemplo claro disso. Apesar de ter sido clonada a partir de outra gata, as duas tinham padrões de pelagem diferentes. Nos gatos, as condições durante a gestação podem influenciar a cor e a distribuição das manchas no pelo.

E a personalidade?

Mesmo que dois animais tenham o mesmo património genético e acabem por se parecer muito, dificilmente terão exatamente o mesmo temperamento. Um clone pode crescer numa ninhada diferente, ser exposto a outros sons e experiências nas primeiras semanas de vida ou receber uma educação diferente do dono. Tudo isso altera o animal.

Jacqueline Boyd, professora de Ciência Animal na Nottingham Trent University, salienta que as experiências vividas também fazem parte daquilo que torna cada animal único. Reproduzir todas as condições da vida do primeiro animal seria praticamente impossível.

É aceitável?

A clonagem de animais de estimação levanta desde sempre várias questões éticas.

Uma sondagem da Gallup realizada em 2025 concluiu que 34% dos inquiridos consideravam moralmente aceitável clonar animais, enquanto 59% diziam que era moralmente errado. Em 2002, quando a clonagem comercial de animais de estimação ainda estava no início, 82% opunham-se à clonagem de cães, gatos ou outros animais de companhia.

Os animais vivem geralmente muito menos do que os seus donos e a sua morte pode causar um luto intenso. Para algumas pessoas, a clonagem parece oferecer a possibilidade de manter vivo um animal de que gostavam. É precisamente aí que começam alguns dos dilemas.

A recolha de tecido do animal original pode provocar dor ou desconforto, embora o procedimento possa ser comparável a outras intervenções veterinárias. As preocupações aumentam quando se olha para as fêmeas usadas para fornecer óvulos e para as barrigas de aluguer.

A obtenção dos óvulos e a transferência dos embriões podem exigir procedimentos invasivos e tratamentos hormonais. A fêmea que recebe o embrião enfrenta ainda os riscos normais de uma gestação e do parto.

Há também clones que nascem excessivamente grandes, o que pode criar problemas adicionais. E, apesar de animais clonados poderem envelhecer normalmente e ter uma vida saudável, a clonagem continua a ser, nas palavras de Milburn, uma ciência imperfeita.

Outra crítica tem pouco a ver com o laboratório e muito com aquilo que acontece fora dele. Milhares de cães e gatos vivem em abrigos à espera de adoção, e muitos acabam abatidos quando não encontram casa. O dinheiro gasto num clone poderia ser usado para ajudar esses animais.

Entretanto, a biotecnologia procura outra forma de responder ao mesmo medo que alimenta parte do interesse pela clonagem: perder demasiado cedo um animal de companhia. A empresa Loyal, por exemplo, está a desenvolver medicamentos destinados a prolongar a vida dos cães. Dois dos seus produtos, um para cães grandes e outro para animais idosos, já atingiram etapas importantes no processo que poderá levar à aprovação pela Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos.

Esta tecnologia, embora também questionável do ponto de vista ético, tenta prolongar a vida do animal que já existe, em vez de produzir outro com o mesmo ADN.

(ZAP)