Chama-se Revivification e fica algures entre a música experimental, a biotecnologia e uma pergunta desconfortável: até onde pode continuar um artista depois da sua morte?
No centro de uma sala escura da Melbourne Town Hall, uma pequena estrutura de tecido neural fez soar placas de latão sem partitura nem músico. As células vieram do sangue de Alvin Lucier, compositor experimental norte-americano que morreu em 2021, aos 90 anos.
Chama-se Revivification. A instalação esteve em agosto no festival Now or Never, em Melbourne, mas a história começou anos antes. E uma versão precursora já passou por Lisboa.
Lucier sabia exatamente no que estava a participar. Em 2020, aos 89 anos, o compositor doou sangue para o projeto, que estava a desenvolver com os artistas Guy Ben-Ary, Nathan Thompson e Matt Gingold e o neurocientista Stuart Hodgetts, da University of Western Australia.
Os glóbulos brancos recolhidos foram enviados para a Harvard Medical School e reprogramados em células estaminais pluripotentes induzidas. A partir delas, a equipa cultivou organoides cerebrais, pequenas estruturas tridimensionais feitas de células semelhantes às que existem no cérebro.
São essas estruturas que estão vivas.
Na Revivification, um organoide cresce em contacto com uma malha ultrafina equipada com 64 elétrodos. Estes registam a atividade elétrica produzida pelas redes de neurónios e o sistema converte os sinais em ações mecânicas. À volta encontram-se 20 grandes placas de latão. Transdutores fazem-nas vibrar e pequenos mecanismos percutem-nas à medida que os neurónios disparam.
A música não acaba aí. Microfones captam os sons das placas e da própria sala e transformam-nos novamente em sinais elétricos enviados para o organoide. Forma-se assim um circuito de feedback: a atividade das células produz som e o som volta a estimular as células.
O resultado muda continuamente. Não há uma composição gravada escondida no sistema, nem um modelo de inteligência artificial treinado com as obras de Lucier a tentar imitar o compositor. Hodgetts descreve o conceito como “inteligência in vitro“: atividade de uma rede neuronal biológica fora do organismo.
Isso não significa que um pequeno Alvin Lucier esteja consciente dentro de uma caixa.
Os próprios investigadores fazem questão de travar essa leitura. Hodgetts rejeita até a designação popular de “mini-cérebro“. Estes organoides são estruturas muito rudimentares, sem sistema vascular e sem muitos dos tipos de células e organizações presentes num cérebro humano.
O consenso atual entre neurocientistas é que estruturas deste género estão muito longe de reunir as condições associadas à consciência. Também não há provas de que conservem memórias, personalidade ou intenção artística do compositor.
A pergunta sobre quem está afinal a compor fica, por isso, no campo da arte, ou da filosofia, se quisermos.
E é uma pergunta particularmente adequada a Lucier. Em 1965, o compositor criou Music for Solo Performer, uma obra em que elétrodos colocados na cabeça captavam as suas ondas alfa. Os sinais eram amplificados e enviados para altifalantes junto de instrumentos de percussão, que começavam a vibrar.
O cérebro do músico fazia parte física da execução, e, quase seis décadas depois, essa ideia regressou sem Lucier.
Mas antes dos organoides de Revivification, houve Music for Surrogate Performer. A obra estreou na Biennale Musica de Veneza, em outubro de 2023, e usava redes neuronais cultivadas a partir das células do compositor como um “intérprete substituto”, numa referência direta à experiência de 1965.
Lucier tinha aprovado o projeto em vida, e a família e o seu espólio continuaram a apoiá-lo.
Foi essa versão que chegou a Portugal.
Em setembro de 2024, foi apresentada no Ectopia Lab, em Lisboa. Guy Ben-Ary esteve na capital portuguesa para explicar o trabalho e apresentar a experiência. No dia seguinte, o mesmo espaço recebeu cellF, outro projeto de Ben-Ary com neurónios cultivados em laboratório, numa atuação com o guitarrista português Luís Lopes.
A peça apresentada em Lisboa ainda não era a atual Revivification. Em vez dos organoides cerebrais tridimensionais agora usados, recorria a redes neuronais de Lucier cultivadas numa interface em laboratório. Foi um passo intermédio para a instalação que estreou em 2025 na Art Gallery of Western Australia, em Perth.
Neste verão australiano, ou inverno no hemisfério sul, a obra voltou a aparecer. Em agosto, Revivification ocupou a Melbourne Town Hall durante o Now or Never, festival da cidade dedicado à intersecção entre arte e tecnologia. As células de Lucier voltaram a produzir uma paisagem sonora diferente a cada momento.
Em fevereiro deste ano, a experiência chegou também à literatura académica. Num artigo publicado na Technoetic Arts, o artista e investigador norte-americano G. Douglas Barrett analisa até que ponto a atividade dos organoides pode ser entendida como ação autónoma.
Onde acaba o automatismo? E onde começa a intervenção humana?
Alvin Lucier passou boa parte da carreira a retirar o músico do centro da música e a deixar que ondas cerebrais, objetos e as propriedades físicas do som fizessem o resto.
Por fim, retirou-se até a si próprio.
(ZAP)



