A forma como levantamos dinheiro está a mudar. Com os pagamentos por telemóvel, relógio e até anel a ganharem terreno, os multibancos tradicionais são cada vez menos usados e os bancos começam a questionar se vale a pena mantê-los. Em França, quatro dos maiores bancos já decidiram: vão substituir milhares de caixas automáticas por um novo sistema. E em Portugal? Há novidades a caminho. Explicamos.
O que está a acontecer em França
Os grandes bancos franceses, BNP Paribas, Société Générale, Crédit Mutuel e CIC, uniram-se para criar uma rede comum de caixas partilhadas, chamada Cash Services. O plano é ambicioso: instalar cerca de 7.000 destes novos pontos até ao fim de 2026 e, ao mesmo tempo, retirar cerca de 3.000 caixas automáticas antigas, sobretudo nas cidades, onde havia máquinas a mais e o uso caiu.

Estas novas máquinas não se limitam a dar notas. São uma espécie de quiosque bancário multifunções: além de levantar dinheiro, permitem depositar numerário e cheques. Ao inserires o cartão, a máquina reconhece o teu banco e aplica as mesmas condições que terias numa caixa da tua rede, ou seja, sem comissões extra por usares uma máquina “de outro banco”.
A ideia dos bancos é clara: reduzir custos de manutenção (cada máquina é cara de manter) sem deixar as pessoas sem acesso a dinheiro físico. Mas a mudança gera polémica — há quem alerte para riscos de monopólio (com todos os bancos a partilhar a mesma rede) e para a dificuldade de adaptação de quem está menos à vontade com tecnologia, sobretudo os mais idosos.
E em Portugal? O cenário é diferente
Por cá, a realidade não é bem a mesma e tem um problema próprio. Ao contrário das cidades francesas (com máquinas a mais), Portugal sofre do problema inverso: a chamada “exclusão bancária”. Segundo o Banco de Portugal, mais de 40% das freguesias não têm um único multibanco uma situação que afeta sobretudo o interior e as populações mais envelhecidas, que mais dependem de dinheiro físico.
Por isso, a resposta portuguesa vai noutra direção: em vez de retirar máquinas, quer-se levar o acesso a dinheiro onde ele não existe. O Banco de Portugal prepara o “Multibanco Social”, um novo serviço que deverá arrancar em fase piloto ainda em 2026. Isto em cerca de 20 freguesias sem caixas automáticas. O objetivo é garantir que quem vive longe de um multibanco consegue, ainda assim, levantar dinheiro perto de casa.

Outras mudanças que aí vêm
Há ainda duas tendências europeias que vão chegar a Portugal:
- Levantar dinheiro em lojas: está em cima da mesa, a nível europeu, a possibilidade de levantares numerário diretamente em estabelecimentos comerciais (como já acontece em alguns países), mas ainda depende da aprovação final das novas regras europeias.
- Caixas mais acessíveis: as novas regras europeias de acessibilidade vão obrigar, com o tempo, a que os multibancos tenham funções como instruções por voz, para serem utilizáveis por pessoas com dificuldades visuais, motoras ou cognitivas.
O que fica igual (por agora)
Entretanto para não haver alarmismos: em Portugal, nada muda já no teu dia a dia. Continuas a levantar dinheiro no Multibanco como sempre, com os mesmos limites (tipicamente até 400€ por dia, conforme o banco e o cartão) e as mesmas condições. As máquinas atuais podem continuar em funcionamento durante muitos anos.
No fundo, o que se desenha é uma transformação lenta na forma como acedemos ao dinheiro físico. Mais digital, mais partilhada e, esperemos, mais acessível a quem hoje fica de fora. O dinheiro em notas não vai desaparecer amanhã, mas o velho multibanco, tal como o conhecemos, está a começar a mudar de forma por toda a Europa.
(Leak)
