Fernando Jardim pega nos números de financiamento de startups e criação de emprego para destacar a consulta pública da Estratégia Nacional para o Empreendedorismo 2030 e alinhar os seis fatores que fazem “apertar o funil” .
O dinheiro já está no país. Está parado.
Portugal detém 262,75 mil milhões de euros em riqueza financeira líquida das famílias, a saber: depósitos, fundos de investimento, ações cotadas e dívida de retalho. Não é imobiliário, não são pensões bloqueadas por regulação. É capital disponível, hoje, a render pouco ou nada.
Se desviássemos 0,3% desse valor, cerca de 800 milhões de euros, financiaríamos aproximadamente 1.600 novos financiamentos a startups, sustentaríamos cerca de 8.800 empregos qualificados e chegaríamos perto de 8% do PIB ao fim de uma década.
Zero vírgula três por cento. É esse o tamanho da decisão.
Por isso mesmo, a consulta pública da Estratégia Nacional para o Empreendedorismo 2030, promovida pela Startup Portugal, pesa mais do que parece.

De onde vem a conta
A conta não é um exercício de otimismo. Vem do trabalho da Capital Taskforce da 351 Associação Portuguesa de Startups onde diversos players foram escutados. Segundo o Ecosystem Report 2025 da Startup Portugal, as nossas 5.091 startups faturam 2.856 milhões de euros e empregam cerca de 28 mil pessoas, o que dá uma média de 561 mil euros e 5,5 empregos por empresa. É essa produtividade, aplicada a 800 milhões, que dá os 1.600 financiamentos e os 8.800 empregos. Para o PIB, o estudo da Investors Portugal com a Nova SBE aponta 1,01% por cada 100 milhões de euros de capital de risco investido.
É um cenário montado a partir da produtividade atual do ecossistema, não uma previsão. Mas a ordem de grandeza chega para o essencial: o problema português não é falta de dinheiro. É falta de infraestrutura para o mobilizar.
Onde o funil se parte
O funil se parte em seis grandes tópicos:
Primeiro: constituir empresa aqui continua a ser mais difícil do que lá fora.
No Founder Institute Portugal, que lidero, há fundadores que fazem o programa inteiro cá e depois incorporam noutra jurisdição, e isso fere o ecossistema português. As razões são concretas: um cidadão de fora da UE precisa de representante fiscal residente para obter NIF; a constituição totalmente online exige autenticação digital portuguesa; a contabilidade organizada é obrigatória desde o primeiro dia – o que gere custos mensais ao fundador; e também há encargos mensais de gerência antes da primeira fatura. A isto soma-se o IRC, que se paga por antecipação, em julho, setembro e dezembro, sobre o imposto do ano anterior, o que retira tesouraria no momento exato em que a empresa mais precisa de reinvestir.
Neste sentido, ao se começar em Portugal, o fundador tem custos mensais de cerca de 400 euros por mês – mesmo sem faturamento, o que não acontece em outros sítios, como Delaware.
Segundo: não estamos a criar fundadores suficientes.
Portugal tem cerca de 480 startups por milhão de habitantes. A Estónia tem mais de 1.000, quatro vezes a média europeia, e atrai 1.056 dólares de investimento por habitante, contra 140 dólares de média europeia. As definições de “startup” variam entre países, mas a ordem de grandeza é inequívoca: um país com um oitavo da nossa população tem mais do dobro da nossa densidade empreendedora. Não é uma diferença de talento. É uma diferença no número de pessoas que são empurradas a tentar.
Terceiro: temos mais incubadoras do que fundadores para elas.
A Rede Nacional de Incubadoras integra mais de uma centena, na esmagadora maioria agnósticas e sustentadas por dinheiro público. Competem entre si pelos mesmos fundadores, não investem neles e, sem participação no resultado, não têm incentivo estrutural para os acompanhar até à tração.
A Alemanha fez a escolha oposta. Em julho de 2025 selecionou dez “Startup Factories” de entre quinze finalistas, e apenas dez. Cada uma recebe até 10 milhões de euros federais, condicionados a angariar montante igual em capital privado: 144 parceiros empresariais comprometeram cerca de 110 milhões, ao lado de 126 instituições científicas. Cada uma tem foco definido: a GOe FUTURE dedica-se exclusivamente a ciências da vida, a FUTURY construiu um ecossistema industrial com a meta de mil novas empresas até 2030.
Oito vezes a nossa população, dez estruturas especializadas. Nós temos mais de cem, genéricas. Não é uma questão de escala. É uma questão de escolha. A alternativa passa por especializar regiões: mar em Sines ou Peniche, agroalimentar no Alentejo, materiais em Aveiro, saúde no Porto. Ecossistemas genéricos não atraem ninguém. Ecossistemas que são os melhores do mundo em alguma coisa, sim.
Quarto: os incentivos estão desenhados ao contrário, e chegam tarde.
O SIFIDE (incentivo que será terminado) canaliza capital para fundos que, por sua vez, só podem investir em empresas com selo de inovação da agência nacional. Como há poucas empresas com esse selo e obtê-lo é exigente, há capital disponível de um lado e impossibilidade de o aplicar do outro. A aplicação limita-se a I&D, quando uma empresa precisa de muito mais para crescer, como por exemplo, capital para marketing e vendas, atividades que fazem a empresa vender mais, e como consequência contratar, e gerar riqueza.
Depois há o tempo: entre a candidatura ao PRR e o dinheiro na conta passam frequentemente um a dois anos. Para o Estado é um processo; para uma startup é a diferença entre existir e não existir. E o talento: quando o CEO da Cloudflare veio a público dizer que Portugal “não é um país sério” por causa de vistos e burocracia, a empresa tinha anunciado 400 a 500 contratações em Lisboa.
Quinto: o capital privado nacional não tem como chegar às startups.
Não existe incentivo fiscal relevante ao investimento em startups, enquanto o imobiliário goza de tratamento mais favorável: o Reino Unido e Israel deduzem metade do investimento. Não há incentivos para que fundos de pensões ou seguradoras tenham alocação nacional em capital de risco.
O 28.º regime é a janela
Em março, a Comissão Europeia apresentou a proposta EU Inc., o chamado 28.º regime: constituir empresa em 48 horas, por menos de 100 euros, com procedimentos inteiramente digitais e acesso pleno ao mercado único. A Comissão quer acordo até ao final de 2026.
O que vale é a implementação nacional: constituição verdadeiramente online e aberta a não residentes, uma entidade única responsável e uma via judicial especializada em litígios societários. A previsibilidade jurídica pesa tanto como regime fiscal na decisão de um investidor.
Os primeiros países a implementá-lo a sério vão captar empresas dos outros vinte e seis. Somos pequenos, temos administração digital competente e já provámos que executamos rápido quando há vontade. É, provavelmente, a medida com melhor rácio entre custo e impacto de toda a ENE 2030.
Por que isto é importante agora?
A Startup Portugal acabou de fechar a consulta pública da ENE 2030 ao mesmo tempo que está a auscultar alguns players, startups e associações do setor.
Os dados serão analisados e comparados com as melhores práticas, e a nova estratégia para os próximos quatro anos será lançada
Este é um momento-chave para que a estratégia seja feita da forma certa, uma vez que tecnologias como a Inteligência Artificial, Robótica, Biotecnologia e semicondutores têm dado saltos exponenciais, ampliando ainda mais a distância entre os ecossistemas estabelecidos e os runner-ups – como Portugal, este poderá ser um caminho irreversível e ficaremos cada vez mais distantes dos líderes globais!
Responde aqui: startupportugal.com/pt/ene-2030-pt
Por Fernando Jardim – Co-fundador da 351 Associação Portuguesa de Startups, Chapter Leader do Founder Institute Portugal e Sales Manager na Startup Genome
