O capitalismo aprendeu duas maneiras de vender o soccer: cobra todos os anos ao adepto fiel e seduz o espectador que muda de camisola com a estrela seguinte. Será entre essas duas personas, da Alameda a Cabo Verde, que o futebol ainda produz aquilo que o mercado não consegue fabricar: memória coletiva.
Todas as camisolas de futebol encolhem. Encolhem porque crescemos, porque o corpo que as vestiu já não tem a mesma dimensão, porque o tecido guarda a lembrança de um domingo de lã que entretanto desapareceu. Mas uma camisola antiga pode ser um retrato da infância com mangas. Não revela apenas quem já fomos, conserva o tamanho exacto da criança.
Há uns meses, na Alameda, o pequeno A. corria atrás de uma bola com uma camisola azul-celeste. O equipamento era grande demais, como devem ser as heranças quando ainda se tem cinco anos. E eu, sentado no relvado, separava-lhe o nome escrito nas costas em quatro toques com o pé esquerdo: MA-RA-DO-NA, enquanto ele fazia do relvado inclinado um estádio sem linhas, sem bilhetes e sem a mínima ideia de quem foi o deus argentino.
Um dia, aquela camisola albiceleste vai deixar de lhe servir, e nesse dia talvez comece a servir para alguma coisa.
Uma camisola nova é mercadoria. Uma camisola velha é um pequeno testemunho da memória.
Podemos guardar nela o golo de Figo que iniciou a remontada contra a Inglaterra no Euro 2000, o pai que nos levava à Porta 10A à caça de autógrafos, o caminho entre Alcochete e uma final na Luz, o nome de João Vieira Pinto que pedíamos para estampar (ora de vermelho, ora de verde) ou a queda de Fehér que partia antes de aprendermos o significado da morte. O vermelho esboroou-se, o verde ganhou uma nódoa, o número 8 começou a estalar. E, no entanto, nada faz brilhar tanto uma camisola como a passagem do tempo.
O mercado aprendeu esta frase. Aprendeu a chamar à melancolia retro, heritage ou icon, acrescenta-lhe uma etiqueta nova e devolve-nos industrialmente ao cheiro da infância. A camisola reproduzida vinte anos depois pode ter a mesma gola, as mesmas riscas e o mesmo patrocinador, mas nunca será a mesma. Falta-lhe o nervosismo da espera junto à Porta 10A. Falta-lhe as lágrimas da primeira grande derrota. Falta-lhe ter estado lá.
E é neste buraco da fechadura entre um produto e uma memória que o futebol ainda consegue sobreviver.

Dupla fidelidade
O capitalismo deseja que o adepto seja o consumidor passivo perfeito. Sentado diante do ecrã, a apostar, a comer e beber os produtos estampados no equipamento do clube que recebe dos pais e transmite aos filhos. Apoia campanhas, presidentes, treinadores, derrotas e camisolas efémeras, caducam todos os meses de Julho. E compra-se outra vez. Nenhuma operadora ou plataforma consegue uma cláusula de fidelização destas. O clube recebe-a gratuitamente para depois cobrar. Com juros. Uma camisola principal, uma alternativa, uma terceira, uma edição europeia, uma colaboração com um artista, uma colecção de treino, o modelo “autêntico” e o modelo “réplica”, todas para cima de uma centena de euros. É a fidelidade à distância de um clique, e o adepto não se engana, ama sempre e para sempre.
Mas o futebol contemporâneo inventou outro consumidor passivo perfeito: aquele cuja fidelidade não pertence a nenhum clube, mas a uma estrela individual. Seguiu Cristiano Ronaldo até Riade, Messi até Miami e seguirá a próxima super-estrela global até ao campeonato que conseguir pagar-lhe mais milhões. Não herda necessariamente uma camisola; escolhe-a no catálogo mundial das celebridades. O seu amor é como a história abreviada da literatura de Villa-Matas. É portátil.
A transferência de Messi provou a eficácia financeira deste modelo. A camisola do Inter Miami passou de camisola esquecida da MLS a fenómeno global; Messi continuou a liderar a lista oficial das camisolas mais vendidas da liga em 2025. A cor ficou, mas o mercado mudou de escala. Quando Messi sair, é provável que uma parte desse público saia também. O mesmo eclipse acontecerá ao amarelo berrante do Al-Nassr depois da saída de Cristiano Ronaldo. Não se trata de descobrir se estes adeptos são falsos. Trata-se de perceber que a indústria já não vende pertença, memória e amor ao jogo, vende individualismo num desporto coletivo. Vende circulação instantânea de capital.
Com a obsessão pelo dinheiro e dimensão planetária que o futebol (o soccer) atingiu, a camisola tornou-se herança e merchandising para uma digressão mundial bastante lucrativa.
Também os estádios aprenderam esta duplicidade. Old Trafford e Camp Nou são as casas de clubes históricos, mas entraram nos roteiros turísticos das suas cidades. Não será necessário viajar até à Catalunha ou até ao norte de Inglaterra para perceber que metade das bancadas são compostas por turistas. Basta olhar para estes estádios: campo, museu, centro comercial, restaurante, hotel e pacote de hospitalidade VIP. Outra disneylândia para o adepto consumidor passivo.
O visitante pode conhecer todos os cânticos ou nem um. Não interessa. Pode ter esperado vinte anos por aquela viagem ou ter comprado o bilhete entre uma visita ao museu e uma reserva para jantar. O problema não é moral. Ninguém recebe um certificado de autenticidade à entrada de um estádio de futebol. O problema talvez seja económico, quando o lugar na bancada vale mais como safari turístico do que como hábito local, a cidade passa a competir com o mundo pelo direito de ver o seu próprio clube de infância. Então para que serve uma camisola de futebol?
O futebol-negócio precisa destas duas fidelidades para se alimentar. E uma indústria de biliões alimenta muitas bocas que são costuradas com amoralidade, apolítica. Precisa de quem nunca a abandona para conservar a atmosfera, a história e a credibilidade; precisa de quem chega uma vez para multiplicar a receita, a audiência e o alcance. Um adepto produz pertença. O visitante produz expansão.

O adepto também diz não
Mas também há atrito na longa fila de adeptos fiéis. Para alguns, não se deve confundir fidelidade com passividade. Quem paga as quotas nem sempre aceita tudo. Por vezes, permanece para poder lutar pelo seu lugar. Apoiar pode significar resistir.
Se recuarmos dez anos e alguma épocas, cerca de dez mil adeptos do Liverpool abandonavam Anfield ao minuto 77, em protesto contra a intenção de cobrar 77 libras por bilhete (hoje se compararmos este valor com a normalização dos preços abstrusos praticados no recente Mundial, apenas podemos sorrir). Quatro dias depois, os proprietários recuaram, congelaram preços e pediram desculpa. Durante alguns minutos, a bancada esvaziou-se e ouviu-se mais do que qualquer cântico. O adepto deixou de ser público-alvo porque decidiu retirar ao produto aquilo que o tornava valioso: a sua presença.
Em Abril de 2021, doze dos clubes mais ricos da Europa anunciaram uma Superliga sem descidas de divisão, desenhada para proteger receitas bilionárias e reduzir o risco de perder. O projeto parecia inevitável até encontrar adeptos a protestar à porta dos estádios. Entre protestos, jogadores e treinadores também a contestar, os governos ameaçaram intervir e os seis clubes ingleses retiraram-se em menos de quarenta e oito horas. Os outros clubes da suposta Superliga seguiram-lhes os passos. A vitória da resistência não purificou o futebol nem derrotou os seus donos. Mas fez a Champions League parecer mais justa, tal como a UEFA. Demonstrou que aquilo que parece inevitável pode, por vezes, ser interrompido.
Há adeptos que decidiram ir mais longe. Levantaram-se das bancadas, agiram e exigiram o impossível. Quando, no início do século, o Wimbledon foi deslocado para Milton Keynes, os seus adeptos não escolheram outro clube, decidiram fundar o AFC Wimbledon. Reuniram milhares de pessoas e reconstruíram uma instituição comunitária a partir do zero. A indústria pode continuar a tentar transformar um clube em activo, mas os adeptos conseguirão sempre responder com o que o mercado não pode comprar: a memória e os afetos.
Mas convém não romantizar em demasia esta resistência. As bancadas também excluem, a paixão continua a ser manipulada e a multidão não está certa apenas porque grita em uníssono. Além disso, muitos protestos terminam numa esteticamente perfeita camisola anti-capitalista vendida na loja oficial com preço pornográfico. Como sabemos desde a estampa de Che Guevara, o mercado é suficientemente flexível para vender esta revolta contra o próprio mercado.
Ainda assim, o adepto não é uma matéria-prima una e inerte. Compra, recusa, protesta, organiza, abandona, regressa e, às vezes, funda. Luta a cada gesto. Grita pelo seu clube, pela sua crença, pela cor que corre naquele sangue de adepto. A sua contradição não é uma falha de argumento, é antes o próprio argumento humano. Ama a coisa que sabe estar a ser explorada pelos mais diversos interesses de mercado e ainda assim tenta impedir que a exploração se torne essa coisa por inteiro. E a cada domingo, tal como Cesariny, ama como a estrada começa.

O emblema e o espaço à volta
É mais fácil imaginar o fim do futebol do que uma camisola apenas com o símbolo do seu clube.
O capitalismo não precisa de ocupar cada centímetro de tecido. Consegue vender-nos a poluição visual e, na montra ao lado, a ausência dela como produto premium. Vende a camisola (de jogo, de treino, de viagem, de bastidores) com uma profusão de patrocinadores, por ser a que os jogadores usam; vende a camisola sem patrocinadores por parecer a mais pura. Cobra-nos pela evasão e pela própria fuga.
A questão ética não está apenas na quantidade de logótipos e espaço visual vendido. Está na transferência da confiança. Uma casa de apostas, uma aplicação financeira opaca, uma companhia aérea de um regime autoritário ou uma empresa (ou país) que procure limpar a sua reputação não compra apenas espaço no peito de uma camisola. Neste futebol-negócio encontram aqui o mercado perfeito para se legitimarem. Compram uma parte da relação afetiva que o adepto mantém com o emblema do seu clube, do nome da sua estrela. Assim a marca comercial aproxima-se do coração dos adeptos. Normaliza-se a cada imagem sem oposição.
O futebol vende-nos igualdade em campo e devolve-nos a hierarquia do poliéster: a camisola usada pelo jogador, a réplica oficial para o adepto, a contrafação vendida nas ruas e a edição sem patrocinador para quem pode pagar o privilégio da recusa. A mesma cor, tecidos diferentes, várias formas de classe.
Enquanto escrevo, tenho vestida uma camisola do Albacete. Consigo ler a marca desportiva e o patrocinador sem franzir os olhos para o espelho, mas não consigo descobrir o nome de quem a coseu. Há anos que organizações laborais denunciam salários de pobreza nas cadeias de produção das grandes marcas desportivas. A mão cose o emblema para depois se evaporar.
As camisolas antigas comovem-nos de forma diferente. A Parmalat faliu, Vale e Azevedo foi julgado, o BES virou as costas ao Benfica e desde aí apareceram dezenas de novos patrocinadores nos equipamentos. Sobrou o pano vermelho capaz de ressuscitar de imediato imagens da velha Luz, do épico 6–3 ou de uma criança às voltas no parque de estacionamento à espera da entrada de JVP. A mercadoria perdeu o preço oficial e ganhou valor de uso.
O mercado conhece este poder e antecipa-se. Reproduz a camisola, filma o documentário, encomenda uma campanha sobre a rua e enfia rebeldes em cartas colecionáveis. Até o salvadorenho Mágico González, que faltava a treinos e usava o talento como o vento, correndo para onde queria e quando lhe apetecia, mudando de rumo sem obedecer a ordens, pode regressar sob a forma de uma edição limitada e exclusiva. Mas o produto não explica a razão por que o Cádiz ainda o recorda como o jogador que deixou a marca mais funda na história do clube. Uma finta extravagante ou anedotas contadas durante quarenta anos por gerações diferentes duram mais do que qualquer estratégia de conteúdos.
É esse resto, impreciso, exagerado, transmitido de boca em boca pelos adeptos, que não cabe num carrinho de compras.

Cabo Verde e a geometria da esperança
O capitalismo ensina-nos a aceitar a desigualdade como uma lei da física. Quem tem mais capital compra mais talento, quem compra mais talento concentra mais atenção, quem concentra mais atenção recebe mais capital. Uma roda tão perfeita que já nem parece girar.
Mas o futebol recomeça a cada jogo a zerar essa fatalidade. Onze contra onze. A mesma baliza, a mesma bola, o mesmo retângulo. O dinheiro neste futebol-negócio compra excelentes probabilidades, mas não consegue comprar antecipadamente o golo. E é sobre esta pequena falha do sistema que o jogo sobrevive.
Cabo Verde chegou ao Mundial de 2026 com cerca de meio milhão de habitantes, dez ilhas vulcânicas e nenhuma participação anterior. Não tem um presidente com poder para suspender um cartão vermelho de um jogador através de um telefonema, mas empatou três jogos, passou a fase de grupos e levou a vice-campeã mundial Argentina a prolongamento. Perdeu 3–2 aos 111 minutos. Não foi campeão do mundo, nem precisa dessa condescendência para que a sua história seja jamais esquecida.
Sabemos que o alargamento do Mundial a 48 seleções serviu interesses comerciais: mais jogos, mais transmissões, mais mercados, mais inventário. Mas o jogo é desobediente até quando nasce de uma estratégia de expansão financeira. Onde a indústria via conteúdo adicional para as grandes seleções, Cabo Verde produziu espanto. Onde o algoritmo via a 67.ª selecção do ranking, uma equipa sem o brilho dos grandes contratos obrigou a campeã mundial a ter medo.
Talvez seja esta a doce vingança do futebol: o capital monta o palco, mas não consegue escrever todas as cenas do guião.
Imagino um oceano de camisolas azuis espalhadas pelo Mindelo, pela Praia, pela Cova da Moura, por Roterdão, Boston e pelas casas onde a morabeza se reuniu diante de um televisor. Algumas oficiais, outras contrafeitas, outras emprestadas, outras demasiado grandes para uma criança.
Mas a herança do Mundial não cabe toda neste plano aberto e festivo. Há uma parte que a FIFA prefere deixar fora do resumo: os bairros policiados para que a festa pareça limpa, as pessoas afastadas da paisagem do estádio, as cidades que discutiam o preço da água, rendas e espaço enquanto recebiam os adeptos que descobriam na fronteira que o futebol só é universal para quem tem autorização para entrar. O espectáculo prometia abolir distâncias, mas a sua organização soube muito bem onde as desenhar.
Não há pureza nesta história. A FIFA lucrou, as marcas venderam, as plataformas ganharam assinantes e as casas de apostas receberam novas moedas. Cada passe, canto ou cartão tornou-se também dado, previsão, mercado. O adepto de sempre e o espectador de ocasião viram o mesmo jogo por razões diferentes. Mas, durante duas horas, uma comunidade dispersa descobriu em conjunto que a ordem prevista podia falhar.
Foi a isto que Mark Fisher tentou devolver-nos quando procurou uma saída do realismo capitalista: não a nostalgia de um passado puro, mas a capacidade coletiva de desejar outra coisa. O futebol não substitui salários, direitos ou instituições democráticas. Pode, no entanto, oferecer uma experiência breve e partilhada de que o inevitável afinal não o era.
Podem multiplicar competições, aumentar o preço dos bilhetes, transformar o adepto em metadados, a infância em coleção e a saudade em reedição especial. Podem vender-nos, daqui a vinte anos, a camisola de Cabo Verde 2026 com a precisão industrial de uma memória que nunca viveram. Mas um dia o equipamento de Maradona deixará de servir ao A. Ficará numa gaveta, talvez ao lado das cartas Pokémon herdadas de uma infância anterior à sua. Estará gasto, curto, manchado do verde-relva da Alameda e, nessa altura, valerá muito mais. Não porque seja raro, mas porque aconteceu.
O futebol resiste no intervalo entre o preço e o valor vivido, entre a camisola que se compra e a camisola que se herda, entre a bancada que o clube vende e a presença que o adepto pode retirar. Resiste nos campos públicos inventados e inclinados, nos protestos ao minuto 77, nos clubes reconstruídos, nos craques imperfeitos, nas seleções improváveis e nas histórias que passam de boca em boca até já ninguém saber onde começaram. Isto não é soccer, é futebol. Tentam sugá-lo porque ainda está vivo. Continua vivo porque nunca conseguirão sugar por inteiro a paixão do povo. Todas as camisolas encolhem, mas o futebol resiste e insiste em devolver-nos ao tamanho exato da criança apaixonada que as vestiu.

O autor destaca a colaboração de Tiago Leão para desenhar este texto e de Brecht De Vleeschauwer pelos registos fotográficos.
Brecht De Vleeschauwer é um fotógrafo belga radicado em Lisboa. O seu trabalho centra-se no retrato documental e na fotografia de rua, explorando temas como identidade, migração, comunidade e espaço urbano. Desenvolve projetos de longo curso em diferentes contextos sociais e culturais, procurando construir narrativas visuais marcadas pela proximidade, pela observação e pela dimensão humana. As suas fotografias têm sido publicadas em projetos editoriais e exposições, privilegiando uma abordagem documental que alia rigor estético e sensibilidade social.
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Francisco Mouta Rúbio (Lisboa, 1988) trabalha em comunicação. Licenciado em Publicidade pela Escola Superior de Comunicação Social e pós-graduado em Artes da Escrita pela NOVA FCSH, publicou textos em meios como A Mensagem, Público, Gerador e Buala. É autor do livro Atrás da Escrita (2025), foi distinguido com o Prémio Luís Vilaça (2021) e com o Prémio de Contos do Museu do Aljube (2022). A sua escrita cruza literatura, cidade, memória, política e cultura popular, explorando a forma como as histórias do quotidiano revelam as transformações da sociedade contemporânea.
(Shifter)

