A aposta das empresas e dos consumidores na Inteligência Artificial fez acelerar as vendas de portáteis, com a antecipação de investimentos antes da (maior) subida de preços. Em entrevista, Pedro Coelho, diretor geral da HP Portugal, destaca também a importância do Edge AI na estratégia das organizações.
Os números da IDC mostram que no primeiro semestre deste ano as vendas de computadores portáteis em Portugal cresceram muito acima do esperado, ultrapassando os 38% no primeiro trimestre. “Os números estão em contraciclo do que existe na realidade mundial”, admite Pedro Coelho, diretor geral da HP Portugal, que, em entrevista ao TEK Notícias, alinhou os vários fatores que contribuíram para esta aceleração, com a execução de alguns projetos significativos do PRR, a procura de soluções que garantam o suporte a projetos de IA nas organizações, e também a antecipação de compras, prevenindo expectáveis aumentos de preços e escassez de componentes.
Não perca nenhuma notícia importante da atualidade de tecnologia e acompanhe tudo em tek.sapo.pt
“Vivemos um período em que notamos que as organizações estão mais ávidas de inovação e de poder acomodar a entrada da IA junto dos colaboradores”, admite o responsável pela HP Portugal. Nota ainda que isto acontece num momento em que a indústria sente a pressão dos custos de componentes e a menor disponibilidade. “É interessante que no mesmo período coincida com uma maior vontade e necessidade de colocar a inteligência artificial nas mãos dos colaboradores, com todo o benefício de maior produtividade que isso pode trazer”, realça.
Embora sem detalhar números de faturação em Portugal, Pedro Coelho diz que “conseguimos manter a faturação, em termos de revenue, tanto na parte dos PCs como na parte das impressoras, e crescemos bastante na parte da colaboração, com a Poly”. Ddetalha ainda que “tal como outros fabricantes, o facto de termos entregue menos equipamentos acabou não se traduzir numa redução de faturação porque, entretanto, o preço unitário subiu“.
Um ano de aceleração de preços que não mostra sinais de abrandar em breve
O último ano “foi de grande turbulência”, claramente marcado pela corrida às infraestruturas de IA e o impacto que causou na indústria de TI. “O que observámos logo desde o último trimestre do ano passado foi que estes investimentos crescentes e exponenciais sobre as infraestruturas de IA acabaram por resultar numa transformação muito estrutural da procura de tecnologia, de capacidade computacional”. Os efeitos indiretos sentiram-se nas limitações estruturais na oferta de componentes, como as memórias e os componentes de armazenamento, e depois indiretamente também noutros componentes eletrónicos, para além da reafectação da capacidade produtiva.
Na nossa indústria claramente sentimos esse esse impacto. Traduziu-se, numa primeira etapa, na indisponibilidade de componentes, ou na menor disponibilidade, eu diria, para ser mais mais preciso, e depois imediatamente também, segundo a lei da oferta e da procura, no incremento de custos destes componentes”, realça.
Esta evolução de custos tem sido “a uma velocidade que não se registava no mercado”, e que nem á comparável com o período da pandemia de COVID-19. “Em relação ao COVID tem essa característica de ser mais persistente, e que ninguém saberá dizer quando estabilizará, mas claramente até finais de 2027, inícios de 2028, será algo que irá caracterizar a indústria”, admite Pedro Coelho.
É uma transformação profunda, estrutural, da procura e o diretor geral da HP Portugal afirma que esta é uma nova realidade que tem resultado na reconfiguração das cadeias de fornecimento.
“Do lado da HP, o que temos feito é usarmos várias estratégias no sentido de mitigar o impacto que esta situação, tanto de menor disponibilidade quanto de aumento de custos, tem sobre os nossos clientes, também tanto na área empresarial como na área de consumo”, explica. Maior proximidade aos clientes e retalhistas, com informação atualizada e transparente sobre a disponibilidade, e desenvolvimento de soluções personalizadas, com um portfólio mais vasto e maior flexibilidade nas configurações, fazem parte das soluções desenhadas pela empresa.
“A plataforma WPX (HP Workforce Experience Platform) permite ter um diagnóstico sólido de qual é a saúde do parque informático dos clientes e assim também ajudá-los a priorizar investimentos dentro da própria organização”, sublinha.
O vídeo mostra a HP WPX em ação
Para Pedro Coelho, “a extensão do ciclo de vida [dos equipamentos] é apenas uma das estratégias para navegar neste período. Não é certamente a estratégia ideal, nem é aquela que se tem assumido na na maioria dos casos”, esclarece, referindo que as empresas mostram um grande interesse em investir em inovação e IA e que isso implica novos equipamentos, mais atuais e preparados para essa realidade.
Temos observado um equilíbrio entre as opções de prolongar o ciclo de vida, os parques que têm de ser renovados e os investimentos que se têm de antecipar”. Justifica, adiantando que essa foi uma dinâmica que contribuiu para um primeiro trimestre de 2026 “curiosamente forte”
“Quando digo curiosamente, é porque com os custos a aumentarem, seria de esperar um abrandamento da procura, mas não foi isso que aconteceu”, esclarece Pedro Coelho.
Valor médio dos computadores sobe para perto dos 1.100 dólares
Questionado sobre a subida do preço médio dos equipamentos, Pedro Coelho recorre a números da IDC para referir que em 2025 o preço rondava os 900 dólares e que já se aproxima dos 1.100 dólares. “A estimativa é que, até final de 2026, este preço unitário ainda vai crescer cerca de 17% […] Uma coisa é verdade: havendo a necessidade de comprar equipamentos, comprar hoje será sempre melhor do que comprar amanhã”.
Com os dados a que tem acesso, o diretor geral da HP em Portugal diz que tudo leva a crer que “os custos continuarão a evoluir, com a esperança que não evoluam a um ritmo tão acelerado quanto evoluíram nos últimos meses”.
“Foi um ritmo extremamente elevado, mas [os custos dos equipamentos] continuarão a evoluir e não se prevê neste momento que até ao segundo semestre de 2027, início de 2028, haja essa a estabilização”, reafirma.
Crescimento também se sente no mercado de consumo
Para além do mercado empresarial, impulsionado por projetos PRR, o crescimento de vendas sentiu-se também no mercado de consumo, sobretudo pela procura de computadores com melhores especificações técnicas. “Do lado do consumo, o que se registou foi também um crescimento tanto em unidades como em valor, o que nos diz duas coisas: por outro lado por um lado, os consumidores que tinham necessidade de substituir os seus equipamentos fizeram-no assim que tinham a disponibilidade financeira, e um dado interessante que temos observado é os consumidores não abdicam de algumas especificações técnicas, ou seja, preferem pagar um preço unitário mais elevado do que comprometer especificações técnicas”.
Segundo Pedro Coelho, no consumo o mercado conseguiu também absorver o incremento de custos. “É verdade que os fabricantes fizeram os seus esforços no sentido de mitigar esse incremento e poder manter uma proposta atrativa para o mercado”, refere.
45% dos portáteis com IA e o potencial do Edge AI
O conhecimento das funcionalidades de IA na área de consumo está a crescer mas “ainda estamos no caminho de perceber e potenciar os casos de utilização a nível individual”. Ao contrário, nas empresas “já passámos para a fase de haver mesmo a necessidade de colocar estes PCs com IA nas mãos dos utilizadores e de potenciar a sua produtividade”.
O diretor geral da HP lembra que 45% dos portáteis da empresa já estão preparados para a IA, com os clientes empresariais a revelar já alguma maturidade na exploração do potencial das ferramentas.
Do ponto de vista do posto de trabalho, algo que eu considero que terá ainda mais foco durante 2026 e 2027, é o Edge AI, a Inteligência Artificial no posto de trabalho, que vem complementar a oferta na cloud”, sublinha Pedro Coelho.
“Nós acreditamos num modelo híbrido”, reforça, afirmando que a inteligência artificial assente somente na cloud traz questões que têm a ver com o incremento dos custos, e naturalmente com a gestão dos recursos naturais, como a energia e a água. “O Edge AI pode aliviar algum do peso que está a ser colocado sobre o Cloud AI. Ao termos PCs com a capacidade de correr pequenos LLMs, ou ferramentas de IA que correm no próprio posto de trabalho e não necessitam de estar assentes em cloud, e com isso têm menor latência, maior segurança e privacidade”.
A HP desenvolveu várias ferramentas para apoiar as organizações na implementação de Inteligência Artificial. “Temos a capacidade, junto com os clientes, de fazer um roadmap de introdução da inteligência artificial não de uma forma genérica, como depois indo ao detalhe do posto de trabalho e, portanto, dos dos colaboradores e em diferentes e com diferentes equipamentos”, afirma.
A HP AI Creation Platform é apontada como um exemplo, com um agente que estará disponível para os utilizadores de equipamentos HP em tarefas de produtividade, para coisas tão simples como retirar notas de uma reunião ou fazer um resumo de um documento. “Pretendemos que esta camada de inteligência facilite que estes equipamentos falem entre si, de forma transparente para o utilizador e de uma forma prática”, explica, adiantando que quando um utilizador entra numa sala de reunião com o seu portátil pode configurar a ligação aos equipamentos Poly, para uma videoconferência, sem perder tempo.
O que pretendemos com isto é agilizar o dia a dia das pessoas e conseguir fornecer este computação contextual ao nível do o posto de trabalho que pode ser útil para acelerar os workflows internos
Com a integração da Poly no portfólio da HP a empresa ficou também mais preparada para a evolução dos modelos de trabalho, com configurações híbridas e espaços redimensionados e adaptados a esta realidade.
Um futuro que reforça a capacidade da inteligência
Mais do que na evolução das especificações e dos formatos dos equipamentos, o responsável pela HP Portugal admite que o foco da evolução está “na experiência dos utilizadores e que se reflete na sua capacitação para fazer mais e melhor e serem mais produtivos”.
A experiência digital acaba por se afirmar atualmente como uma das principais prioridades das equipas de sistemas de informação e dos departamentos de TI, exatamente pela promessa que a tecnologia e a inteligência artificial nos trazem de nos devolver mais tempo para tarefas de maior valor”, refere.
Paralelamente ao Edge AI, que alivia a carga da IA assente na cloud, o desenvolvimento de agentes, com a capacidade de realizar tarefas autónomas em nome do utilizador, sem a intervenção deste e de forma orquestrada, tem “um potencial muito relevante a nível da eficiência que possa trazer a nível organizacional”.
No vídeo a HP mostra o potencial do HP IQ, que pretende adicionar uma nova camada de inteligência para ligar dispositivos, espaços e experiências de trabalho híbrido
Pedro Coelho lembra que a HP anunciou recentemente uma parceira com a OpenAI para desenvolvimento da plataforma Frontier, que vai fazer a orquestração destes agentes e a introdução dos sistemas internos, com critérios de segurança e privacidade. “Acreditamos numa plataforma com capacidade para poder alavancar a utilização de agentes dentro das organizações e com isso alavancar o desempenho competitivo das organizações”, explica.
(Teksapo)
