O eclipse que falta às empresas

By | 22/08/2026

Quase uma semana depois do eclipse do Sol, Mário Alves usa o fenómeno como ponto de partida para falar sobre o problema da falta de dados nas empresas portuguesas.

No dia 12 de agosto, ao final da tarde, meio país esteve virado a oeste com uns óculos de cartão na cara. No Porto o Sol ficou tapado a 98%. Em Bragança, num troço de estrada dentro do Parque Natural de Montesinho, chegou aos 100% durante cerca de 26 segundos.

Quem viajou centenas de quilómetros não foi ver o escuro,mas sim a coroa solar, aquela auréola branca e irregular à volta do disco negro.

A coroa não apareceu no dia 12. Está sempre lá. Nunca deixou de estar.

Não a vemos porque o Sol é demasiado brilhante. A camada mais exterior do Sol fica invisível por causa da luz que o próprio Sol emite. O obstáculo à observação é produzido pela coisa que queremos observar.

Vejo o mesmo padrão fora da astronomia. Passei os últimos meses a entrar em empresas portuguesas a falar de inteligência artificial. A conversa começa quase sempre no mesmo sítio: “o nosso problema é que não temos dados”.

Quase nunca é verdade.

Têm o CRM. Têm o ERP. Têm três anos de email, gravações de chamadas, tickets de suporte, conversas de WhatsApp com clientes, PDF de propostas antigas, e um Excel que alguém mantém à mão porque o sistema oficial não serve. Têm quatro dashboards e um relatório semanal que ninguém abre até quinta-feira.

O problema não é a falta de luz. É o excesso.

E é o excesso gerado pela própria operação. Cada ferramenta nova acrescenta brilho. Cada campo obrigatório no CRM acrescenta brilho. Cada relatório acrescenta brilho. A empresa está a produzir, todos os dias, exatamente a luz que a impede de se ver a si própria.

Depois chega a IA e o instinto é o mesmo de sempre: adicionar. Mais uma ferramenta. Mais um dashboard, agora com um chat ao lado. Um data lake. Um copiloto. Só que o ofuscamento não se resolve a acrescentar. Nunca se resolveu.

Os astrónomos perceberam isso há quase cem anos. Em 1930, um francês chamado Bernard Lyot fartou-se de esperar por eclipses e construiu um instrumento, o coronógrafo, que faz uma coisa simples e contraintuitiva: tapa o disco solar de propósito, lá dentro do telescópio, com um disco opaco. Um eclipse artificial. A partir daí passou a ser possível estudar a coroa num dia qualquer, sem esperar por um alinhamento que no mesmo ponto do planeta acontece de séculos a séculos.

Lyot não construiu um telescópio melhor. Construiu um instrumento que sabe o que ignorar.

É esse o trabalho de uma camada de inteligência dentro de uma empresa, e é por isso que tantos projetos de IA acabam em nada: foram montados para adicionar informação quando a função era subtrair. Um sistema útil não é o que junta mais fontes. É o que lê as 400 chamadas do mês e devolve as onze em que o cliente disse, sem dizer, que está de saída. O valor está em tudo aquilo que ele decidiu não mostrar.

Trabalhámos com um fabricante industrial que queria saber quanto tempo demora a montar uma peça antes de a montar. Os dados já lá estavam todos, espalhados por desenhos técnicos e folhas de tempos anotadas à mão. Fizemos uma pergunta só: porque é que uma peça demora 8 minutos e outra demora 30? A resposta não estava naquilo que cada peça tem. Estava naquilo que cada peça não tem. Quando o modelo aprendeu a ignorar as operações que não se aplicavam, o erro médio das estimativas caiu de 21,2% para 12,5%.

Não ficou melhor por saber mais. Ficou melhor por contar menos.

A pergunta que os gestores fazem é “que dados é que me faltam?”. É a pergunta errada, e é uma pergunta cara, porque a resposta acaba sempre em comprar mais uma coisa. A pergunta certa é outra: o que é que eu tenho de deixar de olhar para conseguir ver?

No dia 12, durante uns minutos, a Lua fez esse trabalho por nós. Hoje o Sol já voltou a tapar a sua própria coroa, e fica assim até agosto de 2027, quando houver novo eclipse aqui ao lado, no sul de Espanha. Nas empresas, felizmente, o alinhamento não tem de ser esperado. Constrói-se.

E convém construí-lo antes de 2144.

Por Mário Alves – CEO da LayerX e da Taikai

(Teksapo)