Desenvolvido por estudantes da Clemson University com apoio da BMW, o Luminetta combina construção ultraleve e uma carroçaria coberta de células solares para, em condições ideais, produzir mais energia do que consome nas deslocações diárias.
Até os designers de automóveis mais benevolentes teriam dificuldade em dizer que o Deep Orange 17 é bonito.
Mais parecido com um desafio de baixo orçamento do Top Gear que correu mal do que com um elegante veículo do futuro, o protótipo solar experimental, construído por estudantes universitários, foi apresentado no início deste mês.
À primeira vista, parece uma cunha amadora, quadrada e cheia de superfícies planas, diz o New Atlas.
Apesar de um aspeto que, segundo alguns observadores, faz até um Tesla Cybertruck parecer interessante, vale a pena olhar uma segunda vez para este carro patrocinado pela BMW. É que os seus criadores fazem uma afirmação ousada: o veículo consegue gerar mais energia do que a que consome.
Batizado “Luminetta”, foi desenvolvido por estudantes de pós-graduação no campus do International Center for Automotive Research da Clemson University, na Carolina do Sul.
Segundo um comunicado da universidade, o veículo recorre a estratégias já conhecidas nos automóveis solares, como uma construção ultraleve, uma aerodinâmica cuidadosamente otimizada e o maior número possível de células solares espalhadas pela carroçaria.
Os responsáveis pelo projeto explicam o estranho desenho, semelhante a uma caixa de cartão, dizendo que imita a forma do peixe-cofre, que tem uma abordagem invulgar à hidrodinâmica.
Segundo a equipa, as superfícies planas reduzem a resistência ao ar e, ao mesmo tempo, maximizam a área disponível para um revestimento solar de alta eficiência. O resultado é um veículo inegavelmente feio, mas com uma equação energética com que muitos automóveis de produção muito mais elegantes só podem sonhar.
Por baixo daquele exterior pouco gracioso está um trabalho extremo de redução de peso. O veículo pesa apenas 550 kg, graças a um chassis esquelético feito com uniões metálicas impressas em 3D e painéis de carroçaria leves em materiais compósitos. E esse peso já inclui, naturalmente, a bateria.
No centro da alegação de que o Luminetta consegue um “balanço energético positivo” está a integração da tecnologia solar, desenvolvida em colaboração com o Fraunhofer Institute for Solar Energy Systems, na Alemanha.
Em vez de painéis rígidos e planos, o automóvel está coberto por um avançado revestimento fotovoltaico capaz de continuar a produzir energia mesmo quando parte da superfície fica à sombra.
Segundo as simulações matemáticas da Clemson University, uma deslocação diária típica de 20 km consome cerca de 1,6 kWh de energia. Mas, se ficar estacionado em condições ideais de exposição solar, o conjunto fotovoltaico pode captar até 5,7 kWh ao longo do dia.
No papel, isto deixa ao condutor energia suficiente para mais 50 km de autonomia apenas por deixar o carro ao sol. Na prática, transforma o veículo numa espécie de microcentral elétrica móvel.
É claro que é precisamente a palavra “simulação” que leva observadores independentes a olhar para estes números com algum ceticismo, e a falta de pormenores técnicos sobre a bateria, a autonomia ou a velocidade não ajuda.
O balanço energético positivo depende claramente de condições meteorológicas ideais e, sobretudo, de o carro ficar estacionado ao ar livre. Basta colocá-lo numa garagem subterrânea, debaixo de uma fila de árvores altas ou entre edifícios, ou apanhar uma semana de céu encoberto, e as contas deixam de funcionar.
Além disso, a construção reduzida ao essencial sugere que dificilmente o veículo passaria pelos atuais testes de colisão ou cumpriria os requisitos básicos de conforto.
Mas o Luminetta não pretende antecipar um modelo de produção nem ganhar um concurso de beleza. É uma prova de conceito radical sobre rodas.
“É um projeto que queríamos desenvolver há vários anos, por isso é extremamente gratificante ver este grupo de estudantes juntar-se ao longo dos últimos dois anos, ultrapassar tantos desafios e limitações técnicas e dar vida a um veículo com balanço energético positivo”, diz Stephan Augustin, gestor de projeto de Investigação e Novas Tecnologias da BMW.
Pode parecer um frigorífico sobre rodas, mas, se esta tecnologia de captação de energia solar acabar um dia integrada nos tejadilhos dos futuros BMW, o patinho feio Deep Orange 17 terá cumprido a sua função.
(ZAP)
