Quando medir o corpo ajuda a mudar a vida

By | 13/08/2026

Os relógios inteligentes, bandas e até anéis, são instrumentos que podem ajudar a medir indicadores relevantes de saúde e transformar a atividade física, com mudanças reais, defende Luís Rita.

Em Portugal, falar de wearables de saúde não é discutir apenas mais um gadget. É discutir ferramentas que podem ajudar a responder a problemas muito concretos. Segundo o Eurobarómetro Especial 525 sobre Desporto e Atividade Física, de 2022, 73% dos inquiridos portugueses disseram nunca fazer exercício ou praticar desporto – mais de sete em cada dez pessoas. Num estudo populacional publicado na Sleep Science, realizado com 5436 adultos portugueses, cerca de uma em cada cinco pessoas declarou dormir cinco horas ou menos por noite. E, segundo a OCDE, o consumo anual de álcool em Portugal ronda 12 litros de álcool puro por pessoa com 15 ou mais anos, o equivalente, em média, a cerca de duas garrafas e meia de vinho por semana.

Nenhum anel ou pulseira resolverá, por si só, estes problemas. A atividade física depende do espaço urbano, dos horários de trabalho, do rendimento e do acesso a equipamentos; o sono depende também da saúde mental, da habitação e da organização da vida familiar; e o consumo de álcool é um tema cultural, económico e de saúde pública. Ainda assim, os wearables podem preencher uma lacuna importante: transformar recomendações abstratas em feedback pessoal, repetido e fácil de compreender. Esta lógica está alinhada com o Plano Nacional de Saúde 2030 da Direção-Geral da Saúde, que coloca a prevenção, os determinantes da saúde, a literacia e a transição digital entre as prioridades para Portugal.

Medir sem distrair

Durante anos, wearable foi quase sinónimo de smartwatch: um pequeno computador no pulso, com ecrã, notificações e aplicações. O Oura Ring 5 e a WHOOP MG seguem uma filosofia diferente. Procuram desaparecer no quotidiano. Em vez de competir pela atenção, recolhem continuamente sinais do corpo, como sono, frequência cardíaca, variabilidade da frequência cardíaca (HRV), temperatura, atividade e recuperação.

O Oura Ring 5 é o exemplo mais claro desta miniaturização. Tem 40% menos volume do que a geração anterior, apenas 6,09 milímetros de largura e 2,28 milímetros de espessura. Pela primeira vez na linha Oura, é suficientemente pequeno para, à primeira vista, parecer um anel convencional e não um dispositivo eletrónico. Esta semelhança com uma peça de joalharia é mais do que estética: quanto menos intrusivo for um sensor, maior é a probabilidade de ser usado todas as noites e de produzir uma série de dados verdadeiramente útil.

A WHOOP parte do mesmo princípio através de uma pulseira sem ecrã e sem notificações. O acesso funciona por subscrição, combinando o sensor com a aplicação, o histórico e diferentes níveis de análise. Há bandas de tecido técnico orientadas para treino e versões mais discretas ou premium para uso quotidiano. Os sensores WHOOP 5.0 e WHOOP MG podem ser carregados no pulso com o Wireless PowerPack, evitando interrupções na recolha, e a autonomia anunciada ultrapassa 14 dias. A WHOOP MG acrescenta ECG e Blood Pressure Insights. O ECG deve ser entendido como ferramenta de rastreio de ritmos potencialmente anómalos; a componente de pressão arterial permanece em regime beta, acompanha tendências e não substitui uma medição clínica com braçadeira nem uma avaliação médica.

A adoção no desporto de elite mostra como esta lógica se tornou parte da preparação moderna. Cristiano Ronaldo é embaixador e investidor da WHOOP, mas não está sozinho. Numa lista divulgada pela WHOOP, surgem também utilizadores como Michael Phelps, LeBron James, Patrick Mahomes, Rory McIlroy, Aryna Sabalenka e Virgil van Dijk. A presença de nomes tão conhecidos não demonstra eficácia clínica, mas mostra que um dispositivo sem ecrã consegue integrar-se em rotinas nas quais sono, carga de treino e recuperação são acompanhados ao detalhe.

Um diário que liga comportamento e consequência

A componente mais transformadora não é o sensor isolado, mas a possibilidade de relacionar hábitos com o dia seguinte. No WHOOP Journal, o utilizador pode registar álcool, cafeína, meditação, alongamentos, refeições tardias, hidratação, suplementação ou dezenas de outros comportamentos. Depois de acumular observações suficientes, a aplicação estima como cada hábito se associa à recuperação. O Oura oferece uma lógica semelhante através de Tags e Experiments, permitindo assinalar acontecimentos ou testar uma rotina durante um período definido e compará-la com sono, prontidão e atividade.

Isto não transforma uma associação numa prova de causa. Uma noite de sono pode ser influenciada simultaneamente pelo stress, pela temperatura, pelo exercício, por uma criança que acordou ou por uma refeição tardia. Ainda assim, o journaling reduz a distância entre saber e agir. Em Portugal, onde o jantar tardio, o café ao fim da tarde ou o álcool em contexto social podem fazer parte da rotina de muitas pessoas, ver o impacto repetido no próprio corpo pode ser mais persuasivo do que ouvir uma recomendação genérica.

O que muda quando passamos a medir

A evidência mais abrangente não pertence a uma marca. Uma revisão publicada na The Lancet Digital Health reuniu 39 revisões sistemáticas e meta-análises, com dados de quase 164 mil pessoas. Em média, as intervenções com monitores de atividade levaram a cerca de 1800 passos adicionais por dia – uma caminhada curta que, repetida diariamente, se torna relevante. Nos estudos que mediram o tempo de caminhada, o aumento médio aproximou-se dos 40 minutos por dia, e a redução de peso rondou um quilograma ao fim de alguns meses. Outra meta-análise de ensaios controlados publicada na JMIR mHealth and uHealth chegou à mesma conclusão geral: os wearables aumentam a participação em atividade física.

Para um país em que mais de sete em cada dez pessoas dizem nunca fazer exercício ou desporto, o interesse deste resultado é evidente. Um wearable não cria passeios seguros, ciclovias ou tempo livre, mas pode fornecer objetivos simples, mostrar progresso e transformar uma intenção vaga – “preciso de mexer-me mais” – numa meta diária concreta.

Um ensaio aleatorizado de 12 meses publicado na Frontiers in Physiology, com 56 adultos pouco ativos, testou um anel Oura combinado com orientação personalizada. Ao fim de três meses, os participantes davam cerca de 2200 passos adicionais por dia, passaram a adormecer aproximadamente 11 minutos mais depressa e melhoraram a capacidade aeróbia em cerca de 12%. A HRV, um indicador relacionado com a regulação autonómica e a recuperação, aumentou aproximadamente 18%. Ao fim de um ano, quem continuou a receber feedback fazia perto de 2400 passos diários a mais do que o grupo de comparação. A lição não é que o anel produz saúde sozinho; é que os dados se tornam mais eficazes quando são acompanhados por objetivos, explicação e feedback.

Álcool: tornar visível o que o corpo já sente

O álcool é especialmente relevante em Portugal. Para além do consumo médio elevado, a OCDE estima que mais de um quarto dos adultos portugueses tenha episódios de consumo excessivo pelo menos uma vez por mês. Um wearable não substitui políticas públicas nem tratamento, mas pode mostrar imediatamente que a noite “normal” não foi fisiologicamente neutra.

Num ensaio clínico publicado na JAMA Network Open com 120 jovens adultos, uma intervenção que combinou feedback de wearable e coaching não reduziu significativamente o número total de bebidas. Contudo, os participantes ficaram quase quatro vezes mais propensos a passar para uma categoria inferior de risco de consumo definida pela Organização Mundial da Saúde e relataram menos limitações durante o dia associadas a noites mal dormidas. O resultado é importante precisamente por ser equilibrado: o wearable não foi uma cura, mas tornou uma intervenção comportamental mais útil.

Um grande estudo observacional da WHOOP, publicado na JMIR mHealth and uHealth, ajuda a perceber o mecanismo. Entre 30 mil novos membros, acompanhados durante 72 semanas, a probabilidade de beber num determinado dia desceu de 23% para 17% – em linguagem simples, de aproximadamente um dia em cada quatro para um dia em cada seis. Entre os participantes que registavam todas as bebidas, o consumo caiu, em média, cerca de uma bebida por semana. Como se trata de um estudo observacional, não é possível afirmar que a pulseira causou a mudança; ainda assim, a redução acompanhou o período de utilização e automonitorização.

Outro estudo publicado na PLOS Digital Health analisou mais de cinco milhões de dias de quase 21 mil utilizadores. Quando uma pessoa bebia uma bebida acima do seu padrão habitual, em vez de uma abaixo, o coração batia em média mais duas a três vezes por minuto durante o sono e a HRV diminuía cerca de três a quatro milissegundos. As pessoas também dormiam menos e eram menos ativas no dia seguinte. O efeito foi maior nas mulheres e nos adultos mais jovens. Para o cidadão comum, a mensagem é direta: mesmo sem ressaca evidente, o organismo pode passar a noite a trabalhar em piores condições de recuperação.

Um estudo observacional publicado na JMIR mHealth and uHealth encontrou resultados semelhantes no tabaco. Em 12.678 novos utilizadores, a probabilidade diária de consumo desceu de 55% para 27% ao longo de 72 semanas – de mais de um dia em cada dois para aproximadamente um em cada quatro. Nos dias com tabaco, os participantes dormiram cerca de dez minutos menos, apresentaram frequência cardíaca de repouso mais alta e HRV mais baixa. Mais uma vez, a associação não prova causalidade, mas mostra o valor de tornar o comportamento visível e registável.

Uma análise publicada na revista Sensors, baseada em quase um milhão de dias e noites de 11.914 membros, encontrou ainda uma associação entre usar a WHOOP com maior regularidade e dormir mais, ter horários de sono mais consistentes, apresentar HRV mais alta e realizar mais atividade física. É provável que pessoas mais motivadas usem também o dispositivo com maior frequência, pelo que o resultado deve ser interpretado com prudência. Mas reforça uma regra prática: um wearable funciona melhor como parte de uma rotina deliberada do que como um acessório esquecido.

Podemos confiar nos números?

Para mudar comportamento, a medição tem de ser suficientemente fiável. A frequência cardíaca de repouso e a HRV noturnas estão entre as métricas mais sólidas. Num estudo publicado na Physiological Measurement com 49 adultos, o Oura diferiu, em média, menos de um batimento por minuto de um eletrocardiograma médico na frequência cardíaca noturna e cerca de um milissegundo na HRV. Outro estudo publicado no Journal of Medical Internet Research confirmou boa precisão para diferentes medidas de HRV. Numa comparação independente publicada na Physiological Reports, baseada em 536 noites, a concordância da HRV foi muito elevada tanto no Oura como na WHOOP, com erros médios abaixo de 10%.

No sono, a mensagem exige mais nuance. Num estudo publicado na Sleep Medicine com 96 pessoas e centenas de milhares de intervalos de 30 segundos, o Oura Gen3 distinguiu sono de vigília corretamente em cerca de 92 em cada 100 intervalos. A classificação das fases foi menos exata: aproximadamente 76% no sono leve e 91% no sono REM. Uma validação anterior publicada na Behavioral Sleep Medicine encontrou igualmente boa capacidade para detetar sono, mas mais dificuldade em reconhecer momentos acordados.

Na WHOOP, uma validação laboratorial publicada no Journal of Sports Sciences, com 86 noites, classificou corretamente sono versus vigília em cerca de 89% dos intervalos. Detetou 95% dos períodos de sono, mas apenas cerca de metade dos períodos acordados; quando tentou separar as quatro fases de sono, a concordância global ficou nos 64%. Um estudo de validação publicado na Sensors e uma comparação de seis wearables também publicada na Sensors confirmaram uma concordância aceitável da frequência cardíaca e da HRV com ECG.

A tradução para a vida real é simples. Estes dispositivos são suficientemente úteis para acompanhar a duração do sono, a frequência cardíaca de repouso, a HRV e a evolução de cada pessoa ao longo de semanas. Não devem ser usados para tratar cada minuto de “sono profundo” ou “REM” como se viesse de uma polissonografia hospitalar. E a maior parte das validações foi realizada em gerações anteriores, pelo que o novo hardware deve continuar a ser testado de forma independente.

Portugal: de ferramenta individual a oportunidade de saúde pública

Os wearables também podem contribuir para investigação em escala. O estudo TemPredict, publicado na Scientific Reports, recrutou mais de 73 mil pessoas com Oura e mostrou que alterações combinadas de temperatura cutânea, frequência cardíaca, HRV, respiração e atividade podiam identificar períodos próximos de uma infeção por COVID-19. Noutro trabalho publicado na npj Digital Medicine, com dados de mais de oito mil utilizadores e mais de 1,3 milhões de horas de registo, um modelo baseado em wearables sinalizou alterações associadas a testes positivos, em média, cerca de quatro dias antes do teste. Isto não transforma um anel num diagnóstico, mas demonstra o valor do padrão individual: a alteração em relação ao “normal” de uma pessoa pode ser mais informativa do que um valor isolado.

Em Portugal, esta lógica pode ser útil em programas de investigação, prevenção e saúde ocupacional, desde que exista consentimento informado, proteção de dados e inclusão. A tecnologia não deve criar uma saúde a duas velocidades, na qual apenas quem consegue pagar uma subscrição beneficia de feedback contínuo. O SNS, as universidades e os empregadores podem estudar modelos em que estes dispositivos sejam usados em grupos específicos, com avaliação independente e objetivos de saúde claros, em vez de os tratar como símbolos de estatuto.

Existe também uma dimensão comunitária. Segundo a lista pública de equipas da WHOOP, é possível aderir a grupos por localização, idade, atividade ou profissão, existindo também uma comunidade pública de Portugal. Os utilizadores podem comparar sono, esforço e recuperação com outras pessoas do país ou com grupos semelhantes. Esta componente pode motivar, sobretudo numa comunidade de corrida, ciclismo, ginásio ou desporto competitivo. Mas a comparação deve servir para melhorar o próprio padrão, não para transformar a saúde numa competição permanente.

Um pequeno instrumento para mudanças reais

O principal contributo de Oura, WHOOP e dispositivos semelhantes não é substituir médicos, exames ou políticas públicas. É tornar visível a relação entre escolhas quotidianas e resposta fisiológica. Um jantar tardio pode ser comparado com o tempo necessário para adormecer. O álcool deixa de ser apenas uma recomendação abstrata e aparece associado a um coração mais acelerado e a pior recuperação. A atividade física, a regularidade e o descanso passam a ter continuidade mensurável.

Para a maioria das pessoas, o melhor uso não é tentar otimizar todas as métricas ao mesmo tempo. É escolher uma pergunta concreta – “o que me ajuda a dormir melhor?”, “o álcool altera realmente a minha recuperação?”, “estou a aumentar a atividade sem sacrificar o sono?” – e observar várias semanas. O journaling, as tags e as experiências pessoais transformam o wearable num espelho de hábitos.

Portugal precisa de melhores condições para uma vida ativa, de políticas eficazes sobre álcool, de maior literacia do sono e de prevenção acessível a todos. Um anel ou uma pulseira não substituem esse trabalho coletivo. Mas, para quem pode e quer utilizá-los, estes dispositivos oferecem algo que a informação genérica raramente consegue: mostrar, no próprio corpo, que uma pequena escolha de hoje muda a recuperação de amanhã. Quando medir conduz a compreender, e compreender conduz a agir, a tecnologia deixa de ser apenas um acessório. Torna-se uma ferramenta prática para viver melhor.

(*) Investigador em medicina computacional no Imperial College London, professor convidado na Universidade Europeia, cofundador da CycleAI e distinguido pela Forbes Portugal na lista 30 Under 30, na categoria Ciência e Educação.

(Por Luís Rita)