A raiva não é um bom sentimento para se ter — pelo menos é o que nos ensinam. Só que a má reputação da raiva convive mal com uma intuição difícil de ignorar: a de que algumas coisas merecem indignação.
Desde cedo, aprendemos que a raiva é uma emoção perigosa — algo que deve ser controlado, reprimido ou evitado.Dizem-nos para ter calma, respirar fundo, não responder a quente. O conselho não é mau. A raiva pode levar-nos a dizer e a fazer coisas de que nos arrependemos. Há, no entanto, aqui uma tensão: ao mesmo tempo que condenamos a raiva, continuamos a desconfiar de quem não se indigna perante uma injustiça. A má reputação da raiva convive mal com uma intuição difícil de ignorar: a de que algumas coisas merecem indignação.
A má reputação da raiva não é de ontem. A grande historiadora das emoções Barbara H. Rosenwein diz-nos em Anger’s Past que desde pelo menos o século V que a raiva é retratada como algo perigoso e descontrolado — algo tão explosivo que pode levar à ruína da própria pessoa que a sente. Na iconografia cristã, a raiva é frequentemente personificada na figura do diabo, de aspeto desgrenhado e cego pelo desejo maligno. Isto não surpreende, uma vez que a raiva figura entre os sete pecados capitais do cristianismo.
Os escritos de Séneca, talvez o mais célebre dos críticos da raiva, exerceram uma influência profunda sobre a igreja cristã. Em De Ira, Séneca diz que a raiva “consiste inteiramente num impulso para o ataque, enfurecido por um desejo desumano de infligir sofrimento”. E a influência de Séneca não se limita ao mundo cristão — um dos textos fundamentais do budismo, O Caminho do Bodhisattva, dedica um capítulo inteiro à raiva, defendendo que esta “não tem outra função senão a de causar dano”.
O desejo de infligir sofrimento apontado à raiva é, mais propriamente, um desejo de vingança: o desejo de fazer sofrer em resposta a uma injúria (verdadeira ou imaginada) sofrida pelo sujeito raivoso. Esta visão da raiva como intrinsecamente vingativa é a ortodoxia, tanto na tradição que acabei de traçar como em grande parte do trabalho académico contemporâneo sobre as emoções, e também na nossa vida emocional quotidiana. Se procuramos controlar a nossa própria raiva e desaconselhá-la aos outros, é porque ela parece trazer consigo a ameaça da vingança.
A sua natureza vingativa leva a que a raiva seja condenada e desaconselhada por três razões principais. Primeiro, porque parece ser responsável por ações violentas e destrutivas dirigidas contra os outros. Segundo, porque, ao dar origem a ações destrutivas, arrisca tornar-se contraproducente para os próprios objetivos de quem a sente. As ações motivadas pela raiva podem comprometer os objetivos de longo prazo do agente, bem como provocar represálias por parte dos seus adversários. Por fim, ao envolver o desejo de fazer sofrer outra pessoa, pela vingança, a raiva é plausivelmente perversa, isto é, intrinsecamente imoral, quer venha ou não a dar origem a ações destrutivas.
Assumindo tudo isto como verdade, parece sensato desaconselhar a raiva e tentar controlá-la. Mas há quem conteste esta narrativa — sobretudo pensadores negres e feministas, precisamente porque têm mais a perder se a raiva for sistematicamente deslegitimada.
Em “The Uses of Anger”, Audre Lorde confessa que “A minha raiva significou dor para mim, mas também significou sobrevivência.” Lorde escreveu que:
“Todas as mulheres possuem um vasto arsenal de raiva, potencialmente útil contra as opressões — pessoais e institucionais — que deram origem a essa mesma raiva. Quando canalizada com precisão, pode tornar-se uma poderosa fonte de energia ao serviço do progresso e da mudança.”
É incontroverso que a raiva seja um dos maiores motivadores de ação e mobilização política. Ativistas pelo mundo fora citam a raiva como um impulsionador fundamental de ação1, e estudos científicos confirmam que a raiva é uma das forças mais motivadoras, que aumentam a participação política, a mudança de comportamentos e a mobilização coletiva. Contudo os estudos mostram que a raiva impulsiona tanto comportamentos destrutivos (como por exemplo vandalismo) como construtivos (protesto pacifico, assinatura e divulgação de petições, denúncias públicas), uma questão à qual voltaremos mais adiante. Mas a raiva também tem valor político mesmo quando acabamos por não agir — a mera experiência da raiva pode ser já uma conquista.
Spelman diz-nos em “Anger and Insubordination” que a sua raiva é “um ato de insubordinação” pois a experiência da raiva, em reação a uma ofensa, contesta a ofensa, rejeita a denigração e afirma a dignidade e a igualdade do raivoso perante o ofensor. Do mesmo modo, em “Elevators, Social Spaces and Racism” Yancy diz-nos que quando se enraivece na consequência de um insulto racista,
“O meu sentido de quem sou e da pessoa que sou capaz de ser permanece intacto… Em momento algum desejo ser branco ou começo a odiar a minha pele escura.”
A sua raiva permite-o rejeitar qualquer internalização da visão racista de si mesmo que lhe está a ser impingida. É por isto que, no livro Killing Rage: Ending Racism, bell hooks considera a raiva construtiva:
“O ódio racial é real. E há algo de profundamente humanizador na capacidade de lhe resistir com uma raiva combativa. Quando abraçamos a condição de vítima, renunciamos à nossa raiva. A minha raiva intensifica-se porque não sou uma vítima. Arde na minha psique com uma intensidade que gera clareza. É uma raiva construtiva e reparadora.”
Estes dois papéis, tanto o motivacional como o psicológico, pressupõem um papel mais fundamental da raiva. O papel a que os filósofos chamam epistémico. Para que a raiva conteste uma injustiça, quer através da ação política quer do seu efeito psicológico, tem primeiro de nos alertar para a sua existência. Tem, por outras palavras, de ser o tipo de fenómeno que deteta ou responde a injustiças e que nos transmite informação sobre elas. Como escreve Audre Lorde, a raiva “está carregada de informação e de energia”. A raiva tem, portanto, um valor epistémico: fornece-nos informação importante.
“A raiva é a emoção fora de lei por excelência, uma vez que as normas dominantes legitimam uma panóplia de injustiças de género, raça e classe, e a raiva é a nossa via emocional de detetar e contestar injustiças.”
O Que a Raiva Sabe
Uma das grandes contribuições do pensamento feminista para o estudo das emoções foi precisamente mostrar que a emoção não é o oposto da razão, mas uma fonte legítima de conhecimento, capaz de nos transmitir informação muitas vezes urgente — informação a que, por vezes, não teríamos acesso de outra forma. É esta a proposta de Alison Jaggar em “Love and Knowledge: Emotion in Feminist Epistemology”, quando introduz a ideia de outlaw emotions (“emoções fora da lei”). Emoções que desafiam as perceções e os valores dominantes, que embora sejam frequentemente difusas na forma como são vividas, nos chamam a atenção para o facto de que algo está errado, mesmo quando ainda não conseguimos dizer exatamente o quê.
Provavelmente já sentiste desconforto e frustração em situações que não conseguiste elaborar. Talvez um comentário, um toque indesejado ou outra situação que toda a gente à tua volta pareceu considerar normal (ou até desejável, como no caso de vários “elogios” e “flirts” sexistas) não te tenha deixado indiferente. E ainda antes de conseguires chamar-lhe assédio ou discriminação, uma emoção emergiu. Um incómodo, uma revolta ambígua, uma raiva difícil de explicar. A raiva é a emoção fora de lei por excelência, uma vez que as normas dominantes legitimam uma panóplia de injustiças de género, raça e classe, e a raiva é a nossa via emocional de detetar e contestar injustiças.
É a partir deste pressuposto que estes autores rejeitam todas as razões anteriormente invocadas para condenar a raiva. A raiva não parece impulsionar apenas ações ditas destrutivas, mas também formas de ação política construtiva que procuram dar expressão à informação que ela transporta sobre a injustiça. Claro que a distinção entre ações destrutivas e construtivas é, ela própria, uma questão política. Mas, mesmo segundo os critérios de quem condena a raiva, as suas consequências comportamentais são mais variadas e menos devastadoras do que normalmente se assume. A raiva também não parece ser uma emoção contraproducente. Se não é esmagadoramente destrutiva e motiva frequentemente comportamentos construtivos e pacíficos orientados para a justiça, não há razão para pensar que comprometa os próprios objetivos de quem a sente. Finalmente, a raiva não parece ser fundamentalmente perversa ou intrinsecamente imoral. Pelo contrário, pode motivar comportamentos construtivos e desempenhar um papel psicológico protetor, bem como um papel epistémico de enorme importância, mesmo quando assume formas mais destrutivas.
O Que a Raiva Quer
Perante tudo isto, vale a pena perguntar: será então justa a associação tão estreita entre raiva e vingança? Até aqui, aceitámos a conceção da raiva proposta pelos seus críticos. Não estará na altura de pôr essa ideia em causa? Esta sugestão ouve-se nas palavras dos próprios ativistas. Como afirmou a escritora e realizadora Kimberly Latrice Jones, no auge das manifestações do Black Lives Matter: “Têm sorte por as pessoas negras quererem igualdade, e não vingança”. Justiça e vingança não são a mesma coisa, e confundi-las é um erro que favorece o status quo.
Pôr em causa a natureza vingativa da raiva, tem sido uma parte importante da reabilitação da emoção por parte de pensadoras feministas. Isto é particularmente evidente no trabalho de Myisha Cherry. Em The Case for Rage, Cherry argumenta que a visão vingativa da raiva é demasiado redutora. Segundo a autora, existem vários tipos de raiva, e a crítica tradicional aplica-se a todos eles, exceto a um: a raiva lordeana. A raiva lordeana (baptizada em homenagem a Audre Lorde) procura a justiça para todos, e não apenas para o grupo do raivoso, sendo por isso fundamental para as lutas pela justiça social e incompatível com a vingança.
A minha proposta é diferente. Não distingo entre tipos de raiva, condenando uns e procurando salvar outros (creio que isso concede demasiado à visão ortodoxa da raiva como intrinsecamente vingativa). Concordo com a visão ortodoxa num ponto: toda a raiva tem um desejo intrínseco, comum a todas as suas manifestações. Mas considero que essa visão se engana ao propor que esse desejo é o da vingança. Desenvolvendo a sugestão de várias pensadoras feministas que me antecederam, proponho que o desejo intrínseco da raiva é o reconhecimento. Como tenho vindo a defender, toda a raiva visa o reconhecimento da injustiça, e isto constitui o primeiro passo para a sua correção. Reconhecer uma injustiça implica reconhecer que algo é ou foi, de facto, uma injustiça – e não apenas reconhecer que alguém a considera como tal. O que o sujeito raivoso procura, no seu âmago, é que o outro reconheça e compreenda a gravidade da injustiça, e não necessariamente que sofra por causa dela. A raiva pode, ainda assim, tornar-se vingativa e destrutiva. Mas isso acontece, a meu ver, quando os pedidos de reconhecimento são sistematicamente ignorados. Ou quando o reconhecimento é simplesmente impossível num determinado contexto. Nestes casos, a raiva pode manifestar-se imediatamente de forma vingativa, precisamente porque parte da convicção de que já não existem vias possíveis para alcançar o reconhecimento.
Esta proposta parece-me suportada tanto pela psicologia, como pela história. Os estudos psicológicos mostram que a raiva motiva frequentemente comportamentos políticos comunicativos e construtivos: petições, protestos, campanhas de sensibilização e denúncias públicas etc. Estas ações sugerem que o que o raivoso procura é, acima de tudo, reconhecimento e justiça, e não vingança, uma vez que não envolvem qualquer tentativa de retribuição.
“O engano da visão vingativa da raiva torna-se então talvez compreensível mesmo que injustificável — é a concepção da raiva que surge num mundo desigual quando não pensamos esse mundo de forma crítica.”
Contudo, mesmo nos vários estudos que observaram também comportamentos mais destrutivos associados à raiva, como vandalismo ou bloqueio de espaços públicos, quando os investigadores procuraram perceber quando e por que razão a raiva se torna mais violenta nuns contextos do que noutros, o que observaram foi o seguinte: quando os injustiçados acreditavam que os responsáveis pela injustiça (muitas vezes grupos sociais mais poderosos) estavam dispostos a reconhecer o problema e a agir sobre ele, a raiva motivava comportamentos comunicativos e construtivos. Pelo contrário, quando viam os seus alvos como indiferentes, inflexíveis e pouco suscetíveis de reconhecer a injustiça, a raiva tornava-se mais violenta. Os investigadores designam estas situações por nothing-to-lose scenarios: contextos em que os injustiçados sentem que já nada têm a perder ao recorrer à violência ou à vingança, porque os meios mais pacíficos não produzem resultados e a injustiça persistirá se nada fizerem.
Isto sugere que a visão vingativa da raiva não só se engana quanto ao desejo constitutivo da emoção, como a reduz à sua manifestação mais violenta, ocultando as razões estruturais contingentes que a tornam hostil. Se o nosso mundo é profundamente desigual e caracterizado por vários eixos de opressão estrutural que se intersetam, então terá várias características em comum com os nothing-to-lose scenarios, pois os alvos da raiva não estão tipicamente abertos a abrir mão do seu privilégio nem a reconhecer as injustiças com que compactuam. O resultado é algo perverso: a visão vingativa da raiva acaba ter alguma razão, pois a manifestação mais corrente da raiva num tal contexto seria, de acordo com os estudos empíricos, uma raiva vingativa violenta. O engano da visão vingativa da raiva torna-se então talvez compreensível mesmo que injustificável — é a concepção da raiva que surge num mundo desigual quando não pensamos esse mundo de forma crítica.
Mas há algo ainda mais perverso. Quanto mais a visão vingativa da raiva predomina, menos flexíveis e menos abertos se tornam os poderosos aos pedidos de reconhecimento dos injustiçados, pois passam a ver a raiva como uma ameaça de vingança, e não como um apelo ao reconhecimento. Isto empurra os raivosos para mais perto de um cenário em que já nada têm a perder e em que a raiva se torna violenta. A visão vingativa da raiva contribui, assim, para a sua própria veracidade, criando as condições para a sua deslegitimação e tornando-a mais destrutiva.
A popularidade da visão vingativa da raiva não é por acaso. Quando reduzimos a raiva à vingança, deixamos de a ouvir como uma denúncia da injustiça. Em vez de perguntarmos “o que é que aconteceu para esta pessoa estar zangada?”, perguntamos apenas “como é que a podemos acalmar?”. Não é difícil perceber quem beneficia desta visão. Se toda a raiva for entendida como vingativa, torna-se muito mais fácil deslegitimar protestos feministas, anti-racistas ou laborais sem sequer discutir as injustiças que denunciam. E uma atenção mais cuidadosa à história mostra que sempre foi assim. A condenação da raiva nunca foi distribuída de forma igual. As críticas veementes da raiva de Seneca que dominavam (e dominam) o mundo cristão, conviveram sempre com exceções reveladoras. A raiva de Deus era justa. A dos reis era virtuosa. A dos nobres defendia a sua honra. Já a raiva dos camponeses era retratada como irracional, ridícula ou selvagem. Como nos diz Rosenwien: “No Ocidente latino, a raiva era um pecado, um pecado que podia transformar-se em virtude quando monopolizado pela aristocracia”. A condenação da raiva foi sempre então política, instrumentalizada para descredibilizar os que mais têm razão para a raiva.
Resta uma dificuldade. Se a raiva em contextos onde não temos nada a perder, contextos a que o nosso mundo profundamente desigual, plausivelmente, se assemelha, se torna violenta, o que podemos dizer da sua racionalidade, legitimidade e moralidade? A reabilitação da raiva que tracei passa por rejeitar a visão vingativa da raiva, rejeitando uma ligação forte entre raiva e violência. Esta reabilitação funciona, até certo ponto. Dá-nos boas razões para pensar que a visão vingativa da raiva se engana, e permite-nos explicar esse erro como politicamente motivado. Mas este diagnóstico também nos levou a constatar que a raiva tende a manifestar-se de forma mais destrutiva em contextos profundamente desiguais, portanto o nosso próprio diagnóstico obriga-nos a confrontar a pergunta seguinte: será que a crítica da raiva com que começámos acaba por ter alguma razão no mundo atual? Mesmo se após a nossa análise a raiva não pode ser vista como intrinsecamente imoral, parece que não deixa de ser verdade que ela se torna, no contexto atual do mundo desigual em que nos encontramos, de facto imoral, por desejar o sofrimento dos outros e motivar comportamentos destrutivos, e irracional, por assim se tornar frequentemente contraproducente ao provocar represálias agravadoras das injustiças.
“Considerar a violência necessariamente contraproducente às lutas pela justiça social é míope a pelo menos dois níveis, porque revela uma visão individualista e de curto prazo da racionalidade estratégica.”
Esta conclusão assenta, porém, em assunções contestáveis. Primeiro, temos assumido que, quando a raiva se torna violenta, o que é visado é de facto a vingança. Isto não é necessariamente verdade: a raiva pode continuar a visar o reconhecimento, mas tentar impô-lo de forma violenta em contextos que não permitem outros meios de o assegurar. Segundo, a conclusão de que, nos contextos de grande desigualdade que aqui nos interessam, a raiva acaba por ser imoral e irracional assenta, por um lado, na ideia de que a violência é sempre imoral e, por outro, na ideia de que ela se torna estrategicamente irracional, por correr o risco de se tornar contraproducente. Mas não serão estas assunções também redutoras?
Considerar a violência necessariamente contraproducente às lutas pela justiça social é míope a pelo menos dois níveis, porque revela uma visão individualista e de curto prazo da racionalidade estratégica. A revolta de Chicago de 1968, desencadeada após o assassinato de Martin Luther King Jr., ilustra bem este ponto. Durante os motins, foram ateados 125 incêndios, 210 edifícios foram danificados e inúmeras lojas saqueadas. Em resposta, as autoridades mobilizaram mais de 10 000 polícias e 5 000 soldados. Mais de 2 000 pessoas foram detidas, muitas outras ficaram feridas ou morreram, a cidade enfrentou uma escassez de alimentos e a segregação racial agravou-se no curto prazo. Apesar destes custos imediatos, a revolta é hoje amplamente reconhecida como um dos acontecimentos que ajudou a impulsionar importantes conquistas posteriores do movimento pelos direitos civis. A racionalidade estratégica de um ato não deve, por isso, ser avaliada apenas pelos seus efeitos imediatos sobre os indivíduos envolvidos, mas também pelo seu contributo para transformações coletivas a longo prazo.
Do ponto de vista estritamente estratégico, a história mostra que seria difícil negar a eficácia da violência. Inúmeras revoluções sangrentas ao longo da história confirmam a racionalidade estratégica da violência na mudança de poder — é rápido e eficaz. Quando se considera a raiva violenta destrutiva então, temos de perguntar destrutiva para quem? Para os que reclamam mais direitos através dela não o será.
Ainda assim, a moralidade da violência é uma questão importante. Não seria benéfico para ninguém defendermos que toda a violência é permissível. Mas é precisamente aqui que a nossa análise nos dá os recursos para defendermos a moralidade da raiva de forma mais qualificada. Se a raiva é algo que responde a razões, podemos em princípio distinguir casos de raiva justificada (onde se encontram realmente injustiças) de casos injustificados (onde aparenta haver injustiça, mas onde de facto não as há). Podemos igualmente determinar se os pedidos de reconhecimento da raiva justificada têm sido sistematicamente ignorados ou não. A violência que irrompe na sequência de uma deslegitimação sistemática de raiva justificada não será moral? Mais – não será esta violência exigida pela moralidade? Uma vez que surge como a única maneira de se fazer ver e enfrentar uma injustiça? A condenação absoluta da violência é política: obscura as inúmeras violências normalizadas que sustam o status quo e serve os que têm mais a perder num confronto onde a razão moral está do lado oposto. A condenação da raiva então talvez não passe de uma manifestação particular e perversa da tentativa de neutralizar a nossa mais poderosa arma contra a injustiça.
- Adams, David. 1995. Psychology for Peace Activists. New Haven, CT: The Advocate Press. ↩︎
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Laura Luz Silva é filósofa, Professora Auxiliar na Universidade Laval (Canadá) e investigadora associada do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa. A sua investigação cruza filosofia feminista, filosofia das emoções, psicologia moral, epistemologia e ciências cognitivas, procurando compreender o papel das emoções na vida moral, política e social. O seu trabalho tem contribuído para o debate contemporâneo sobre feminismo, justiça, emoções e vida pública.(Shifter)

