A consultora que vende IA responsável publicou relatórios com citações inventadas

By | 06/08/2026

Quatro relatórios da PwC com alucinações de IA e citações inventadas, um dos quais a avisar os executivos para não descurarem a supervisão humana, já estão a ser repetidos por chatbots. São “alucinações em segunda mão”.

A PwC Middle East publicou quatro relatórios de “thought leadership” com notas de rodapé falsas, fontes que não sustentam as afirmações que acompanham e, pelo menos, um artigo académico que não existe.

A conclusão é de uma investigação da empresa de software de deteção de inteligência artificial GPTZero, que foi verificada pelo Financial Times e divulgada a 29 de julho.

Os documentos foram publicados entre 2024 e 2026 e destinavam-se a angariar trabalho de consultoria na região. Cobrem IA agêntica, serviços públicos, cibersegurança e o mercado de veículos elétricos.

O caso mais grave é o do relatório “Transforming Governance“, de 2025, que foi entretanto removido do site.

O documento promove um instrumento da PwC chamado “Citizen Pulse” e afirma que os governos da Dinamarca, Arábia Saudita, Estados Unidos e Austrália já o utilizam para melhorar serviços públicos.

A GPTZero não encontrou provas públicas de que o produto exista fora do relatório.

As notas de rodapé dos “case studies” remetem para páginas iniciais de portais governamentais como o dinamarquês borger.dk, a Visão 2030 saudita e o australiano myGov, e para um comunicado da Qualtrics de 2022 que não menciona o Citizen Pulse.

Noutro relatório, sobre cibersegurança na mobilidade elétrica, uma citação atribui à revista Journal of Transport & Health um estudo sobre a qualidade do ar em Riade. Não há vestígio do artigo na revista indicada nem nos autores a quem é atribuído.

Num dos documentos, a afirmação de que o erro humano causa 90% dos acidentes rodoviários surge três vezes: a primeira com nota de rodapé, a segunda sem nenhuma, a terceira com duas — e cada nota aponta para uma fonte diferente.

Paul Esau, investigador da GPTZero, salientou ao Financial Times que a afirmação não é falsa, mas que “nenhum humano vai citar o mesmo facto três vezes em duas páginas”.

Um quarto relatório, sobre IA agêntica e ainda disponível no site da PwC, apresenta como caso real de sucesso uma iniciativa do JPMorgan.

A fonte citada é um texto publicado no Medium por um blogger adolescente com 280 seguidores. A iniciativa em causa, a automatização da revisão de contratos de crédito comercial, foi noticiada em 2017, cinco anos antes do lançamento do ChatGPT.

Ao Financial Times, a PwC Middle East afirmou levar a sério o rigor da investigação que publica e estar a atualizar um número limitado de citações de apoio nos relatórios identificados. A empresa não explicou como os erros chegaram aos documentos.

O problema não se esgota em quem lê os relatórios.

Assinados por uma das quatro maiores auditoras do mundo, os documentos são indexados por motores de busca, citados pela imprensa e lidos por sistemas de IA que depois respondem a perguntas com base neles.

A GPTZero publicou capturas de ecrã do Perplexity, do ChatGPT e do Gemini a repetir afirmações falsas de um dos relatórios da PwC.

Screenshot de um LLM a repetir afirmações falsas de um dos relatórios da PwC

A propósito do caso da KPMG, o presidente executivo da GPTZero, Edward Tian, já tinha descrito o efeito como um risco de “alucinações em segunda mão“.

Alex Cui, cofundador da mesma empresa, diz que afirmações destas ganham “um verniz de autoridade injustificado”.

É o quarto episódio do género numa “Big Four”. A GPTZero investigou anteriormente casos semelhantes em relatórios da KPMG, da Deloitte e da EY.

Em maio, a EY retirou um relatório sobre programas de recompensas de fidelização que parecia incluir notas de rodapé falsas e alucinações de inteligência artificial.

Em junho, a KPMG retirou um estudo de outubro de 2025 sobre IA agêntica, depois de o UBS, o serviço nacional de saúde britânico, os caminhos de ferro federais suíços e a Transport for London terem dito ao Financial Times que as descrições da sua utilização de IA eram falsas ou enganadoras.

(ZAP)