Combater IA com IA

By | 29/07/2026

O cibercrime é cada vez mais sofisticado e democratizado, com consequências diretas na escala e na frequência dos ataques. Paula Leal Monteiro diz que a boa notícia é que a mesma tecnologia utilizada para atacar pode – e deve – ser usada para defender.

O próximo grande ciberataque pode estar a ser preparado neste preciso momento. E não por um grupo de hackers altamente especializados, mas por alguém sem qualquer conhecimento técnico. Esta é a nova realidade da cibersegurança: mais desafiante, mais imprevisível e mais importante do que nunca.

Se, há poucos anos, lançar um ataque sofisticado exigia conhecimento aprofundado, recursos consideráveis e, sobretudo, tempo, hoje bastam um computador e acesso a um modelo de inteligência artificial. A IA está a ser usada para escrever malware, criar ataques de phishing cada vez mais convincentes e automatizar tentativas de intrusão à escala.

Os números confirmam esta realidade: no início de 2025, os ataques de phishing apoiados por IA já representavam mais de 80% dos ataques de engenharia social a nível mundial, e, segundo o relatório Global Cybersecurity Outlook 2026, do Fórum Económico Mundial, a inteligência artificial deverá ser o fator de transformação mais significativo na cibersegurança já nos próximos meses.

No setor industrial, a complexidade é ainda maior. Mesmo em ambientes que, durante anos, estiveram isolados, cresce hoje a pressão para abrir o acesso a volumes massivos de dados, alimentando modelos de IA orientados para a melhoria de processos, a eficiência operacional e o suporte à decisão. Esta convergência entre IT e OT traz ganhos claros, mas também expõe sistemas concebidos para outros ritmos, com ciclos de vida longos e requisitos de disponibilidade muito exigentes.

Um ataque bem-sucedido não compromete apenas dados: pode paralisar linhas de produção, afetar infraestruturas críticas e provocar impactos diretos na sociedade.

Assistimos à democratização do cibercrime, com consequências diretas na escala e na frequência dos ataques. A boa notícia é que a mesma tecnologia utilizada para atacar pode – e deve – ser usada para defender. Perante ameaças cada vez mais automatizadas e inteligentes, a resposta terá de estar à altura: mais rápida, mais adaptativa e igualmente assente em inteligência artificial.

Na prática, isto implica criar sistemas capazes de monitorizar volumes massivos de dados, identificar comportamentos anómalos em tempo real e classificar ameaças por grau de urgência antes que causem danos. Os agentes de IA, treinados especificamente para operações de cibersegurança, funcionam como analistas virtuais: sintetizam conhecimento especializado, detetam padrões de alto risco e libertam os especialistas para tarefas de maior complexidade, como afinar modelos de defesa, identificar novos padrões de ataque e antecipar vetores de ameaça ainda não mapeados.

Há, contudo, um desafio que não podemos ignorar: a fiabilidade dos próprios modelos. Tudo o que é colocado em produção para fins de defesa tem de ser rigorosamente validado – e garantir essa fiabilidade é um dos maiores desafios que hoje enfrentamos.

É precisamente aqui que o papel humano se torna determinante. Os analistas deixam de estar na primeira linha da triagem, mas continuam a assumir o controlo da decisão estratégica. É nesta combinação entre a velocidade da IA e o discernimento humano que reside a verdadeira vantagem. Para além disso, à medida que os ataques se tornam mais sofisticados, será essencial capacitar os colaboradores para identificar riscos e reconhecer sinais de ameaça. Mas a resposta não pode ser apenas reativa. A cibersegurança tem de estar integrada desde o primeiro momento – no design dos produtos, na arquitetura dos sistemas e nos próprios processos de desenvolvimento.

A cibersegurança deixou de ser um tema técnico reservado a especialistas. É hoje uma questão de competitividade, de soberania digital e, em muitos casos, de segurança pública. A corrida pela vantagem digital já começou e a questão deixou de ser se a IA vai redefinir a cibersegurança – porque já o está a fazer. A verdadeira questão é saber se as organizações conseguirão responder com a mesma determinação e velocidade com que os atacantes evoluem. As ferramentas existem e a indústria começa, finalmente, a mobilizar-se.

Afinal de contas, nesta nova era de IA contra IA, ficar para trás deixará de ser apenas um risco tecnológico. Será um risco existencial.

Por Paula Leal Monteiro –  Chief Information Security Officer da Siemens Portugal

(Teksapo)