No passado dia 8 de maio a administração Trump publicou um site com documentos e registos relativos a possíveis atividades alienígenas. Este papel do Estado como o “grande revelador” não é um acaso. O filósofo Davide Scarso reflete sobre este acontecimento à luz da teoria de Jodi Dean, autora do livro ‘Aliens in America”.
No novo filme de Steven Spielberg O Dia da Revelação (Disclosure Day no original), que estreou no início de junho, encontramos um tema clássico da ficção científica norte-americana: há fenómenos extraterrestres a decorrer e o Estado, nos seus meandros mais profundos, tem provas documentais acumuladas que não quer trazer à luz de forma alguma, custe o que custar. Mas eis que um punhado de ativistas (atenção ao spoiler) irá guiar dois “iniciados” titulares de uma conexão privilegiada com os visitantes alienígenas a revelar a verdade ao mundo inteiro. Spielberg retoma aqui um guião de que ele próprio é um dos maiores protagonistas, pelo menos no lado mainstream, desde Contactos Imediatos do Terceiro Grau, em 1977, passando por E.T. – Extraterrestre em 1982. Haveria muito a dizer sobre os limites políticos deste novo filme, mas o que interessa mais aqui é que ele aparece num contexto muito diferente e, sem dúvida, bastante revelador.
Em fevereiro, a administração Trump anunciou a intenção de disponibilizar ao público uma série de documentos e registos relativos a possíveis atividades alienígenas, acumulados ao longo de décadas nos arquivos de várias entidades federais. Passados alguns meses, e deixando que a expectativa fermentasse, no dia 8 de maio foi revelado um website dedicado a esta iniciativa de “transparência sem precedentes”, batizada de Presidential Unsealing and Reporting System for UAP Encounters. O nome não é muito brilhante, verdade seja dita, mas tem o mérito de resultar no acrónimo PURSUE – ou seja, pesquisar, investigar, ir atrás de algo. Desde então, foram saindo novas releases e a seleção de documentos desclassificados foi reforçada já com dois novos conjuntos de ficheiros, a que certamente se seguirão outros. São conhecidos como UAP Files, isto é, ficheiros relativos a Unidentified Anomalous Phenomena — fenómenos anómalos não identificados — designação intencionalmente mais inclusiva do que a tradicional UFO, de resto ainda presente no endereço do site: www.war.gov/UFO/. Site que se apresenta, note-se, com fundo negro, tipografia monoespaçada e toda a estética de arquivo militar secreto de videojogo RPG.
Há aqui uma inversão de papéis tudo menos casual. Na mitologia contemporânea, e na sua versão hollywoodesca, o Estado faz de tudo para ocultar, apenas reservando ao público o direito à suspeita, uma ocultação que – como mostram The X-Files e Men in Black – não passa tanto pela mera supressão, mas sobretudo por uma gestão constante dos fluxos de informação. Só que agora é o próprio Estado a anunciar grandes revelações, piscando o olho aos teóricos da conspiração que porventura irão finalmente receber aquilo por que tanto ansiaram. Que esta inversão venha precisamente da administração Trump não é um detalhe, é parte do que a torna legível como gesto plenamente político.
Vários comentadores sublinharam desde logo o paralelismo, tudo menos casual, com os Epstein Files: a mesma criação de um website ad hoc, o mesmo anúncio em pompa, a mesma disponibilização de ficheiros em vagas sucessivas que mantêm viva a tensão em jornais e redes sociais. Não será um acaso o desejo de competir com a discussão em torno do escândalo do bilionário pedófilo e das suas ligações com a administração e com o próprio Trump, recorrendo a informações ainda mais fantasmagóricas. E não será difícil, de um modo mais geral, identificar semelhanças com a cultura política MAGA, a obsessão das autoridades com fenómenos secretos e operações aparentemente ocultas, bem como todo um fervilhar de teorias e interpretações de tom conspirativo. Sem esquecer o paroxismo ideológico do “movimento” QAnon, com a ideia de que grande parte da elite política de Washington seria constituída por seres alienígenas sedentos de sangue infantil.
Mas talvez seja interessante olhar para esta pequena obsessão de outra maneira, não apenas como esquisitice de uma direita MAGA manipulável e um pouco doida, mas como expressão de uma certa forma política da contemporaneidade. Uma chave de leitura, a meu ver particularmente produtiva, é-nos oferecida por um livro publicado em 1998 pela cientista política norte-americana Jodi Dean. Em Aliens in America, Dean documenta e analisa a crescente vaga de interesse em torno de UFOs, extraterrestres e fenómenos associados na cultura popular norte-americana. A interpretação que anima o estudo parece, passados quase trinta anos, ainda mais relevante. Na leitura de Jodi Dean, o aumento do interesse por extraterrestres – e de relatos de avistamentos, contactos e “abduções” – não deveria ser visto como simples moda, e muito menos como sinal de uma aparente fragilização da racionalidade. Deslocando o foco interpretativo dos indivíduos para o contexto estrutural, Dean sugere que aquela vaga crescente de discursos em torno de aliens era diretamente proporcional a um deslocamento da agência política para fora da coletividade humana, para fora dos mecanismos comuns de discussão, partilha, decisão e delegação política. Para fora, portanto, dos mecanismos tradicionais de participação democrática.
A obsessão com a presença de seres não humanos que, com tecnologias tanto sofisticadas quanto incompreensíveis, poderão estar a ter efeitos nas nossas vidas, e cuja existência os nossos governantes não querem revelar nem admitir, é assim uma elaboração sintomática dessa transformação. Uma transformação que se teria tornado “visível” há trinta anos com as formas de dessocialização da experiência política e de tecnicização da decisão que costumamos associar às técnicas de governação neoliberal: a progressiva subtração de áreas de decisão coletiva às diferentes formas de participação democrática e a sua transferência para instâncias técnicas. É assim que Dean mostra a relevância do discurso sobre extraterrestres – não como causa, nem como mero efeito, mas como sintoma, ou melhor, como terreno de expressão desta perda, ou pelo menos desta experiência de perda de controlo e de agência sobre as decisões que mais impacto têm nas nossas vidas. Nesse sentido, o discurso sobre UFOs e extraterrestres nunca é apenas sobre UFOs e extraterrestres, exprimindo antes a erosão de um chão político comum.
Os sujeitos que Dean descrevia em 1998 – desconfiados, descentrados, dados a fantasias extra-humanas, em permanente busca de uma revelação que as autoridades estariam a impedir – não ficaram em 1998. Pelo contrário, cresceram e tornaram-se, no essencial, o eleitorado MAGA e de movimentos análogos na Europa. É por isso que Trump é o candidato que melhor os representa, numa “representação” que não opera no sentido de transmitir as demandas concretas dos seus representados, demandas de bem-estar, segurança, saúde, trabalho. Mas que, literalmente, os “representa”, encenando as suas angústias e os seus ressentimentos, numa tentativa aberrante (e cada vez mais fascizante) de suposta recuperação da agência política.
É, assim, bastante significativo que seja precisamente o presidente Trump quem agora fecha o círculo, investindo na revelação destes documentos sobre aliens. Fumaça nos olhos, entretenimento conspirativo, distração? É isso também, mas é sobretudo o cumprimento de uma promessa quase messiânica e porventura impossível: pôr a nu os mecanismos ocultos da governação, para poder finalmente eliminar, ou talvez sublimar, os processos de mediação entre quem governa e quem é governado. Trump não chega ao poder para retomar a representação política no sentido tradicional, chega para encenar o seu colapso, e para se oferecer como o ponto onde o ressentimento finalmente encontra rosto. Os UAP Files são a forma pública desse gesto. Mas há aqui um paradoxo que talvez só ele ainda não tenha visto: de todos quantos um dia prometeram revelar os mecanismos ocultos do poder, Trump é o último a poder cumprir essa promessa, porque fazê-lo comprometeria de imediato a sua posição. É um jogo perigoso, que talvez marque a fase final do seu mandato. É de esperar que, chegado à beira do precipício, não opte por levar consigo todo o país.
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Davide Scarso estudou Filosofia e é Professor Auxiliar na NOVA FCT, onde coordena o Centro Interuniversitário de História das Ciências e Tecnologia (CIUHCT). A sua investigação cruza filosofia contemporânea e estudos sociais da ciência e da tecnologia, com particular atenção às relações entre ciência, técnica e política.

