Porquê fazer uma revista se podia ser um post de Instagram?

By | 12/07/2026

Cada vez que lançamos uma nova revista, surge a questão: para quê publicar em papel, quando toda a gente vive permanentemente online?

— “No Shifter publicamos online, mas também temos uma revista.” 
— “Uma revista, a sério? Mas alguém ainda lê em papel?”  

Desde que em plena pandemia decidimos lançar uma revista que já perdemos a conta às interações deste género com que fomos confrontados. A ideia de fazer um objeto físico com cerca de 100 páginas, de dedicar tempo a um processo de comissão e edição de artigos, design e paginação, parece completamente em sentido contrário dos tempos. E é. Mas se não fosse, não faria sentido existir.

Ao longo dos 13 anos que já leva o Shifter estivemos numa posição privilegiada para observar a mudança do papel da informação na internet, e da internet nas nossas vidas. E se insistimos em fazer uma revista, mesmo quando os proveitos económicos não são assim tão significativos e quando temos apenas duas pessoas na nossa equipa fixa, é porque acreditamos na importância de o fazer. Uma importância que pode não ser evidente, mas que para nós é cada vez mais clara e urgente, na razão proporcionalmente inversa à nossa capacidade coletiva de prestar atenção.

No livro We Have Never Been Modern publicado em 1991, Bruno Latour, descrevia como os jornais pegavam em fenómenos irremediavelmente híbridos (o vírus da SIDA que atravessa sexo, genética, geografia e cultura, tudo ao mesmo tempo) e os cortavam em compartimentos estanques, como se cada assunto pudesse existir isolado dos outros em categorias isoladas como Economia, Política, Ciência, Cultura. Latour criticava a fragmentação artificial dos temas e a divisão entre o domínio do conhecimento e o domínio do poder. Trinta anos depois, as redes sociais tornaram-se as principais fontes de notícias para muita gente, e a fragmentação — agora determinada por algoritmos — atingiu um nível nunca antes visto.

Agora, não são só editores que decidem onde encaixar cada tema, não há páginas que juntem as peças por assunto, não há ordem que ajude o leitor a fazer sentido do mundo. Cada fragmento informativo é servido ao leitor não para o informar, mas para o manter ligado ao fluxo. Não para lhe dar ferramentas para exercer a sua cidadania, mas para manipular os seus instintos mais básicos e o aprisionar na armadilha do scroll.

Se julgamos estar informados, não somos mais que recoletores de estilhaços. Uma espécie de Sísifo que em vez de carregar a pedra ladeira acima, monta os cacos de uma jarra para a atirar ao chão em seguida. Nada disto é novidade. E dizê-lo pode soar clichê, num tempo em que os tais algoritmos nos deixam sedentos de mais e mais novidade, mais do que de clarividência. Mas, mais uma vez, é por isso que é tão urgente repeti-lo. Não como uma crítica moralista, mas como constatação de um comportamento para que fomos coletivamente manipulados pelas grandes corporações norte-americanas. E um alerta de que só saímos desta armadilha se recuperarmos a nossa capacidade de abnegação perante a natureza aditiva e o conforto do scroll.

Sem nos apercebermos está-se a criar uma cultura que, embora viva submersa em informação, estabelece uma relação puramente instrumental. Uma cultura em que temas complexos podem ser resumidos em carrosséis de Instagram. Em que a popularidade de órgãos de comunicação social tem cada vez menos a ver com a sua capacidade de nos surpreender com perspetivas que nunca nos tinham atravessado a imaginação, e tem cada vez mais a ver com a capacidade de resumir aquilo que já pensamos sobre um determinado assunto. Por outras palavras: uma cultura que premeia o que alimenta os nossos preconceitos. E que os transforma num formato partilhável nas redes sociais corporativas de que juramos querer livrar-nos. 

Fazer uma revista em papel, com um design minimalista (dentro das nossas possibilidades) é um posicionamento. Não de uma forma performativa, de digestão fácil e partilha instantânea, mas de uma forma que convida a abandonar o gesto irrefletido de deslizar para baixo com o polegar ou o indicador na tela do smartphone. Uma forma de lembrar que há surpresa para além do viral, e que podemos aprender muito quando nos escolhemos desligar da torrente de informação que nos é imposta.

Os dados do Digital News Report (o principal relatório sobre o consumo de informação) ao longo dos últimos anos não podiam ser mais claros. Os portugueses — tal como a média dos países onde o estudo é feito — informam-se cada vez mais nas redes sociais. Perante esses dados há que refletir sobre se estamos cada vez mais ou menos informados. Pensando na informação não em termos quantitativos — nos gigabytes de informação que descarregamos todos os dias para o cérebro — mas em termos qualitativos — nas vezes em que descobrimos um facto, uma perspectiva, uma ideia que nos fez construir uma visão do mundo mais articulada e profunda. E no que estamos dispostos a fazer para sair deste marasmo.

No mesmo relatório, de resto, há um dado que revela que o cenário é especialmente sensível em Portugal. Porque pese-embora o consumo de notícias online esteja na média de todos os congéneres, no que toca à disposição para pagar por notícias online, Portugal pontua apenas metade da média — 8% vs 17%. Este dado, claro, não deve ser visto de uma forma individualista, mas como um alerta para a necessidade de coletivamente desenvolvermos meios que ajudem a contrariar a tendência. Uma tendência que é não só da conquista da nossa atenção pelas big tech norte-americanas, mas também para a consolidação dos órgãos de comunicação social portugueses em grupos internacionais, com objetivos difusos e cada vez mais distantes de uma noção de comunidade que deve nortear os media.

Projetos como o Shifter não são um antídoto para todos os males do jornalismo contemporâneo. Não somos ingénuos. Mas se pudermos continuar a desenhar outras possibilidades que privilegiem o contexto, a reflexão, a interseção e o pensamento coletivo, acreditamos que podemos fazer alguma diferença. Se não acreditássemos já não estávamos por aqui. E para o fazer como os outros, não valia a pena a nossa independência. 

Autor:
  • O João Gabriel Ribeiro é co-fundador e editor do Shifter. É auto-didacta obsessivo e procura as raízes de temas de interesse como design, tecnologia e novos media.

    (Shifter)