O conflito laboral que espoletou a indústria de maior sucesso do país

By | 12/07/2026

Para um país como Portugal, o Mundial de Futebol pode ser o momento para se falar de política industrial. A República dos Pijamas viaja até ao Mundial México’86, mais concretamente ao mítico “Caso Saltillo” para analisar o que mudou no futebol português e como se tornou uma indústria de sucesso.

Há quarenta anos, Portugal participou num Mundial de Futebol masculino em território mexicano. No emblemático México’86, que elevou Diego Maradona ao estatuto de Deus do futebol, a participação portuguesa ficou marcada por aquilo que se passou fora das quatro linhas: o “Caso Saltillo”.

O clima de tensão existia ainda antes do primeiro dia de estágio naquela antiga prisão convertida em Motel na cidade de Saltillo, mas o descalabro só veio depois de a seleção portuguesa dar ar da sua graça. No primeiro jogo no Estádio Tecnológico de Monterrei, a Seleção das Quinas surpreendeu de uma forma que rimava com a qualificação para o torneio: uma vitória com um golo solitário de Carlos Manuel contra um dos gigantes do futebol europeu. A vítima era a Inglaterra — a vingança do Mundial de 1966. Rapidamente chegou a desilusão que o clima de conflitualidade em Saltillo antevia. Portugal perde com a Polónia e Marrocos, ficando pela fase de grupos.

Hoje em dia, esta segunda participação não tem o monopólio das más prestações portuguesas. Das oito participações, Portugal ficou-se pela fase de grupos em três ocasiões. Ainda assim, quarenta anos depois, Saltillo continua a ser o fracasso mais notável nos rumos do futebol nacional.

O simbolismo é bastante visível a quatro décadas de distância. Para Portugal, o México’86 representava o ressurgimento da equipa nacional no grande palco do futebol, depois de um jejum de vinte anos. O ano coincide com a entrada na CEE, quando Portugal se ia projetando como um país da “normalidade democrática” da Europa Ocidental. A qualificação tinha passado por uma vitória frente à Alemanha Ocidental que colocava o país à frente da Suécia. Surgia o simbólico pontapé de saída para a convergência feliz com o pelotão da frente da Europa.

Uma jornada digna de comunicados oficiais em que o Presidente da República, António Ramalho Eanes, falava em “comportamento brioso” e o Primeiro-Ministro Mário Soares acompanhava-o “emocionado com a brilhante vitória”. Após um bom Campeonato da Europa dois anos antes, a qualificação para a prova de 1986 faria o país ultrapassar a memória da seleção portuguesa de Eusébio da Silva Ferreira e Mário Coluna, a dos tempos do Estado Novo, inseparável do império ultramarino. A fantasia seria desfeita em pouco tempo.

Com a eliminação no México, a euforia da qualificação foi rapidamente substituída pela desilusão com tons de vergonha. Já em Saltillo, os sinais de fragilidade entre a comitiva portuguesa começaram a ser visíveis até para a imprensa estrangeira. Agora com Mário Soares na presidência da República e Aníbal Cavaco Silva em São Bento, os comunicados oficiais deixavam de ter palavras simpáticas. Chega-se ao ponto em que o ministro responsável pela pasta do desporto acusa os jogadores de terem uma atitude “desprestigiante” para o país.

A conflituosidade entre os jogadores e a FPF remetia aos tempos do PREC, impróprio para uma democracia europeia consolidada. Mas desengane-se quem acha que esta é uma história só sobre os jogadores gananciosos a reivindicar os prémios de jogo e as receitas dos direitos de imagem. A falta de profissionalismo denunciado pelos jogadores — encapsulado em episódios como os jogos treino com funcionários do hotel e um campo de treino inclinado — não era um comportamento digno de um Estado respeitável. Olhando para trás, o Portugal de 1986 fazia lembrar episódios recentes de países do chamado terceiro mundo: o Gana no mundial de 2014, a Nigéria de 2025. Dado este contexto histórico, não é de surpreender que o dossier Saltillo se tenha tornado num Assunto de Estado que quase resultou numa Comissão Parlamentar de Inquérito pela mão de Manuel Alegre. Num período em que a mobilidade de capitais, o investimento direto estrangeiro, os direitos televisivos e de imagem ganhavam força, era a reputação do país que estava em jogo.

Caso Saltillo está muito bem documentado e neste momento vive um período de avivamento mediático graças à coincidência com o Mundial de Futebol de 2026, que também se desenrola no México, e o seu 40º aniversário (aqui e aqui). Com a distância do tempo, é consensual dizer que Saltillo forçou a modernização do futebol português. No livro Deixem-nos Sonhar, João Tomaz e Pedro Adão e Silva falam de um contínuo entre o remate fora da área de Carlos Manuel que qualifica Portugal para o México’86 e o golo de Éder em circunstâncias semelhantes que garante a vitória no Euro’2016. Para os autores, sem a tragédia de Saltillo não haveria a alegria no Stade de France em Saint-Denis.

Mesmo se Portugal não tivesse ganho à anfitriã França no dia 10 de julho de 2016, o sucesso do futebol português é inegável. No século XXI, depois de um longo hiato no pós-Saltillo, Portugal qualificou-se para todos os Mundiais de Futebol. No plano europeu, foi finalista vencido e vencedor de Campeonatos da Europa, e é a única seleção com dois triunfos na recém-criada Liga das Nações. Em termos dos clubes, o sucesso é tão grande ou maior do que as conquistas da seleção. Para além da vitória do Futebol Clube do Porto da Liga Europa e da Champions no princípio do século sob o comando de José Mourinho, são vários os indícios de uma estratégia com resultados; o Sporting Clube de Portugal formou dois vencedores da Bola de Ouro; o Sport Lisboa e Benfica domina o top das vendas milionárias da liga; e o SC Braga passava a consolidar-se como uma equipa com presença frequente nos palcos europeus com uma final da Liga Europa no palmarés. A título individual há décadas que os jogadores portugueses estão entre as melhores equipas do mundo, e, recentemente, também treinadores e dirigentes começaram a ganhar reputação internacional — com destaque talvez para Luís Campos, um dos obreiros das vitórias recentes do PSG na Liga dos Campeões.

Neste contexto, falar do Saltillo como o início de um ciclo de modernização do futebol português acaba por deixar muito por dizer. Ironia do destino, peca simultaneamente por defeito e por excesso. Por um lado, falar genericamente de “modernização” do futebol português não faz justiça ao percurso: a evolução da indústria do futebol nacional não foi apenas uma convergência para aquilo que países europeus de média dimensão faziam. Num período em que a economia nacional mostrava dificuldades em encontrar um lugar na divisão internacional do trabalho, o futebol tornou-se a indústria de maior sucesso do país.

Não é por acaso que as figuras ligadas à faculdade de Economia da Universidade Nova gostam de se comparar ao sucesso do futebol português quando citam os rankings universitários internacionais (aqui e aqui).

Por outro lado, olhar para o caso Saltillo como um momento refundador da indústria de futebol nacional desvaloriza todo o trabalho que foi desenvolvido antes e depois do México’86, fora da Federação Portuguesa de Futebol, em especial nos chamados “três grandes”. Em grande medida, a noção de amadorismo que os jogadores tinham na seleção nacional era baseada no contraste com as suas experiências pessoais nos respectivos clubes, mais organizados quando competiam em grandes torneios internacionais.

Ao contrário do que frequentemente se dá a entender, o futebol não se tornou num nicho de especialização por um acaso resultante de uma febre coletiva pelo desporto rei, movida por “fatores culturais” — termo excessivamente vago e muitas vezes usado para explicar as fraquezas noutras áreas. Não faltam países com populações apaixonadas pelo futebol mas sem uma indústria ao mesmo nível nem as mesmas conquistas. O desenvolvimento do futebol é, sem sombra de dúvida, resultado da política industrial de maior sucesso do país nas últimas décadas. Foi desenvolvida uma cadeia de valor que inclui jogadores, treinadores, agentes, olheiros e dirigentes. E que como qualquer política industrial de sucesso, é composta por agentes públicos e privados, planeamento e acasos, que criam um ciclo virtuoso. As impressões digitais do Estado são fáceis de identificar, em especial após o descalabro do México’86.

Planear as gerações pós-Saltillo

As consequências mais diretas e imediatas do descalabro de Saltillo foi a suspensão (em alguns casos voluntária) dos 22 jogadores revoltosos, a que se juntou a renúncia solidária à seleção de muitos outros atletas. Neste ambiente, a direção da Federação Portuguesa de Futebol, sob pressão, teve de se reestruturar, profissionalizar e desenhar uma solução que evitasse que Portugal caísse na irrelevância.

Com as disputas de Saltillo ainda por resolver, tomou-se à partida como impossível a qualificação para o Campeonato da Europa de 1988. Sem um selecionador todo poderoso à frente ou um plantel sénior cheio de estrelas a gerir na FPF em gestão de crise, o jovem Carlos Queiroz — nos quadros desde 1985 — foi ganhando espaço na estrutura. Em 1987, Queiroz tornou-se o Czar das camadas jovens do futebol português e incutiu mudanças institucionais decisivas. perfil de Queiroz rompia por completo com a tradição do futebol nacional: não era um ex-jogador tornado treinador, vinha da Faculdade de Motricidade Humana, onde lecionava, e no Mundial de 1982 — com menos de 30 anos — fez trabalhos para a seleção do Brasil de Telê Santana, que na altura era considerada uma estrutura muito mais profissionalizada que do a FPF. Segundo as palavras do próprio, numa entrevista dada em 2017, a “FPF tinha tudo menos uma coisa — o futebol, que era um departamento subsidiário do departamento financeiro, jurídico, etc. Não havia ninguém dedicado a pensar no futebol”.

Com Nelo Vingada, seu camarada de faculdade, a adjunto, a dupla reconhece dois problemas do futebol jovem em Portugal: a falta de um ritmo competitivo e de exigência nos clubes da formação; e a incapacidade de identificar com eficácia o talento jovem espalhado pelo Portugal dos anos 80. Como resposta, entre outras medidas, cria-se uma cultura de estágios mais longos com a seleção para expor os jovens a metodologias mais profissionais, desenvolvem-se gabinetes a nível distrital e profissionalizam-se os torneios de seleções sub-15 dessas associações. O torneio de seleções distritais torna-se uma correia de transmissão que permite a transferência de talento de regiões periféricas para os principais clubes do país. O sucesso dessas políticas vai-se revelando gradualmente com o aumento da diversidade da naturalidade geográfica dos jogadores — as periferias metropolitanas perdem peso para vários pontos do território.

Os resultados desta aposta demoraram pouco tempo a tornar-se irrefutáveis. Enquanto a seleção sénior passava por uma década perdida, em que falhou a qualificação para todas as competições, as camadas jovens iam conquistando o mundo. A seleção sub-20 sob o comando de Queiroz tornou-se bi-campeã do mundo (1989 e 1991), naquela que ficaria conhecida como a “Geração de Ouro” do futebol português.

Mesmo que os seus resultados não tenham sido comparáveis com as décadas seguintes, esta “Geração de Ouro” — composta por jogadores como Rui Costa, Luís Figo e João Vieira Pinto — inaugurou o ciclo de regresso aos grandes palcos internacionais, primeiro com o Euro’96 e o regresso aos palcos mundiais em 2002. Portugal marcou presença em todas as fases finais após falhar a qualificação para o Mundial de 1998.

Como toda a política industrial de sucesso, o componente estatal, neste caso da FPF, não opera no vácuo. Apenas dois anos antes de Saltillo, a seleção portuguesa tinha chegado às meias-finais do Euro 1984, apesar do clima tenso entre os jogadores de diferentes clubes. E o futebol de clubes, fora da órbita direita da FPF, também dava sinais encorajadores. O S.L. Benfica tinha chegado à final da Taça UEFA em 1983, no ano seguinte era a vez de o F.C. Porto ser o finalista vencido da Taça das Taças. E um ano depois do México’86, o F.C. Porto — com revoltosos de Saltillo no plantel — surpreendia o mundo ao derrotar o colossal Bayern de Munique e conquistar a sua primeira Taça dos Campeões Europeus.

Da mesma forma que os sucessos das campanhas europeias do S.L. Benfica e do F.C. Porto deram confiança à FPF em apostar na profissionalização, os clubes, como qualquer agente privado, reagem aos sinais dados e complementam a ação do Estado. O grosso da formação de jogadores, a trave-mestra da estratégia pós-Saltillo, não se dá no seio da FPF mas sim nos clubes, que seguem o ímpeto reformista de Queiroz na FPF.

A Academia de Alcochete do Sporting C. P. é a pioneira nesta tendência. Enquadrado no então chamado “Projecto Roquete“, a ideia de “Cidade Desportiva” andava de braço dado com o plano (precursor) de criação de uma sociedade financeira (SAD), cujo objetivo seria gerir o clube como um conglomerado empresarial profissionalizado, onde o Complexo Alvalade XXI seria a base do novo modelo de negócios. Com José Roquete na administração (1995-2000) — que para muitos viria a ser considerado o “primeiro presidente profissional” do clube —, o clube negocia com a Câmara Municipal de Lisboa terrenos em torno do antigo Estádio José Alvalade, recebe apoio direto do Estado para a construção do novo estádio para o Euro’2004, e avança com a construção do centro de treinos de Alcochete, inaugurado em 2002 pela administração que se segue. Mais do que um espaço para treinos e estágios, a Academia de Alcochete serviria para acolher, na forma de internato, talentos descobertos pela rede de olheiros comandada por Aurélio Pereira. Com um histórico respeitável em talentos formados, o clube decide dobrar a aposta quando o país já havia ganho dois mundiais de jovens.

O hiato temporal entre a revolução de Queiroz na FPF e a inauguração de Alcochete pode dar uma sensação de eventos independentes entre si. Contudo, a proximidade temporal é mais forte do que parece à primeira vista. As ideias de Roquete de promover uma modernidade futebolístico-financeira com a promoção de complexos desportivos com espaços comerciais (como o que veio a ser o Alvaláxia) estavam a ser ponderadas pelo menos desde 1989 — exatamente o ano em que Portugal venceu o primeiro mundial de sub-20 — eram bem condizentes com o espírito político-económico do país à época. A investida de José Sousa Cintra para dirigir o Sporting C.P. nesse ano adiou os projetos de Roquete durante seis anos.

Independentemente do balanço que se faça do «Projeto Roquete» na sua totalidade, hoje é incontestável que a Academia de Alcochete é a joia da coroa do clube; um modelo que serviu de inspiração para os seus rivais. Em 2006, era a vez do S.L. Benfica mudar-se para o Seixal; em 2017, o S.C. Braga estreia a primeira fase do seu projeto de academia; o F.C. Porto avança agora com um novo Centro de Alto Rendimento e Formação. Tal como no caso da Academia de Alcochete e o Estádio José Alvalade, os grandes projetos do futebol português envolvem algum tipo de apoio negociado do Estado. Tomando o caso do S.C. Braga como exemplo, a academia foi classificada de Projeto de Interesse Nacional (PIN), conseguindo o estatuto que oferece a prioridade em pastas como o licenciamento, obtido por apenas um reduzido número de investimentos a nível nacional.

A formação não foi um mero penso rápido para colmatar um problema temporário do futebol português. O Mundial de Futebol de 2026 é mais uma prova de que a antecipação na aposta de Portugal na formação, articulada entre FPF e clubes, foi mais do que acertada e antecipou a tendência de profissionalização cada vez mais precoce dos jogadores em clusters de excelência. Isto pode ser visto à escala global. Após uma série de relaxamentos nas regras que permitem um jogador mudar a seleção que pode representar, as últimas competições internacionais têm sido marcadas por seleções do Sul Global compostas por muitos jogadores nascidos e formados na Europa. Atualmente, é evidente que a esmagadora maioria dos jogadores de topo são formados num pequeníssimo número de cidades europeias (em destaque a Grande Paris), com clusters de formação de excelência como aqueles desenvolvidos em Portugal.

As virtudes dos oligopólios competitivos

O nível atingido pela seleção nacional e o talento doméstico não é o que torna Portugal numa nação excepcional. Existem outros países europeus como a Bélgica, os Países Baixos, a Croácia ou a Chéquia que partilham essas características. A grande diferença entre Portugal e os restantes está nessa qualidade conjugar-se com o sucesso dos principais clubes portugueses nos palcos internacionais.

Contrastar a dimensão do futebol português e da economia portuguesa no contexto europeu evidencia esta dinâmica. Das sete melhores ligas da Europa, seis correspondem às maiores economias da União Europeia, sendo Portugal a excepção (14ª maior economia, 6ª maior liga). Antes da compra do Paris Saint-Germain (PSG) por parte do Estado qatari, Portugal era o quinto país no ranking de clubes da UEFA e chegou a morder os calcanhares de Itália na disputa do quarto lugar. Neste momento, os chamados “três grandes” de Portugal são as únicas equipas do Top-20 da UEFA que não pertencem às cinco grandes ligas (Inglaterra, Espanha, Alemanha, Itália e França). As três equipas que praticamente detêm o monopólio do campeonato portugueses são frequentemente acusadas de asfixiar o resto da liga, mas paradoxalmente é aí que o sucesso do futebol português pode residir.

Em termos de longevidade, o consistente sucesso das principais equipas do futebol português, precedente do da seleção nacional, é um dos motivos pelos quais a aposta de profissionalização da FPF tinha chances de pagar dividendos futuros. Mais por um acaso do que por planeamento, a estrutura oligopolista do futebol português, enquadrada num ambiente de elevadíssima competição internacional, é uma peça fundamental do sucesso do futebol nacional. Esta estrutura oligopolista diverge daquelas dos outros países europeus de média dimensão: ligas com uma estrutura monopolista em que uma equipa é hegemónica durante longos ciclos (Dinamo Zagreb na Croácia, F.C. Copenhaga na Dinamarca) ou então com ligas de com elevada rotação entre vários vencedores (Suécia, Belga e Chéquia).

No primeiro modelo de características monopolistas, a hegemonia de um único clube vai sendo progressivamente reforçada com os milhões das competições europeias, o que lhe permite comprar os melhores jogadores e treinadores da liga. Quando a equipa dominante asfixia o resto da liga, é criado um ambiente de baixa pressão competitiva que limita a qualidade do próprio clube hegemónico, não o suficientemente penalizado pelas pressões competitivas quando tem fracas prestações. Talvez o caso mais emblemático da deterioração de uma equipa por falta de concorrência seja o Celtic de Glasgow. No final dos anos 90 e no início do milénio, o duopólio — formado pelo Celtic de Glasgow e o Rangers de Glasgow — disputava ferozmente o título de melhor equipa da Escócia e era capaz de atrair talento estrangeiro e fazia campanhas respeitáveis na Taça UEFA e na Liga dos Campeões. Quando o Rangers foi relegado administrativamente para a quarta divisão, o seu eterno rival Celtic, ao não enfrentar pressão competitiva suficiente, entrou num ciclo de total hegemonia doméstica e foi gradualmente relegado à insignificância no futebol europeu. Hoje, com o regresso do Rangers à disputa pela liga, o futebol escocês dá sinais de um possível renascimento no palco europeu.

O segundo modelo, de ligas excessivamente fragmentadas, em que um pequeno grupo de equipas não consegue ser dominante o suficiente para fechar a porta a outsiders, tem dificuldades em capitalizar do o trampolim das competições europeias. Em ligas altamente competitivas, o campeão de um ano não tem necessariamente um forte elenco na época seguinte, quando é recompensado com competir na alta roda da europa. Adicionalmente, com cada ponto a ser vital, há menos margem para rodar jogadores ao fim de semana e concentrar esforços nos jogos europeus a meio da semana. Assim, nas ligas altamente disputadas não ocorre a consolidação e estas ficam retidas num estado em que os milhões que surgem da participação nas competições europeias são dispersos entre várias equipas. Esta é uma dinâmica observada repetidamente no escalão intermédio da liga portuguesa, fora dos quatro lugares cimeiros, em que a equipa sensação de uma temporada geralmente vende os seus melhores quadros e no ano seguinte acaba por ter uma fraca prestação nas provas da UEFA.

Ao evitar os modelos de concentração monopolística ou de hipercompetição, os “três grandes” de Portugal funcionam com um equilíbrio particular: nenhuma equipa se torna hegemónica, com os adversários a conseguirem recuperar de períodos mais frágeis, enquanto, com a notável excepção do S.C. Braga, nenhum clube consegue ameaçar de forma consistente a disputa pelos três lugares cimeiros. Dessa forma tem-se um ecossistema em que os “três grandes” desenvolvem os modelos de gestão baseados na expectativa da disputa por vitórias e das receitas dos palcos europeus, chave para competir na contratação de jogadores estrangeiros. Não coincidentemente, dentro dos países europeus de média dimensão, a liga com a estrutura que mais se assemelha à portuguesa é aquela com sucesso comparável e que tem disputado a sexta posição no ranking da UEFA: a Eredivisie dos Países Baixos.

Por muito criticável que seja a cartelização do futebol nacional por parte de três equipas, capaz de se apropriar da maioria do talento que emerge no resto da liga, este é o modelo eficaz para a competitividade das equipas portuguesas. Além disso, o domínio dos “três grandes”, mesmo que posteriormente estimulado, não foi fabricado para que Portugal conseguisse desenvolver um cluster futebolístico de alta qualidade — reflete em grande medida a hegemonia histórica destas três equipas na sociedade, ao representarem a grande maioria dos adeptos do país.

O oligopólio dos “três grandes” assemelha-se àquilo que economicamente é definido como “campeões nacionais”. Defender uma alternativa mais equitativa entre os clubes da liga — e a centralização dos direitos televisivos é um passo nessa direção — aproximaria, para o bem e para o mal, Portugal de países como a Bélgica e a Chéquia.

Tal como na economia, o que é apropriado para um grande país não é diretamente aplicável a Portugal. Quem cita o caso da Premier League de Inglaterra como a referência de uma liga equitativa e de alto nível, ignora a posição periférica da liga portuguesa na “economia da atenção”. Não é no nível de entretenimento dos jogos do campeonato – o ativo a explorar na venda de direitos televisivos – que o futebol português tem a sua grande vantagem competitiva.

Viveiro de talento global

A aposta por parte dos clubes e da FPF na formação de jogadores portugueses não foi a única vantagem competitiva que o país foi fomentando ao longo de quarenta anos. Ao acompanhar as transferências (exportações) milionárias dos clubes portugueses para o resto do mundo, percebe-se rapidamente que os grandes negócios não são apenas as vendas de jogadores desenvolvidos nas academias nacionais. A descoberta de talento bruto pelo mundo fora, em especial na América Latina, tornou-se parte da espinha dorsal da indústria do futebol português.

Se as Bolas de Ouro de Luís Figo e Cristiano Ronaldo tinham dado ao Sporting C.P. a reputação de grande formador do talento — o que exige uma vasta rede de olheiros juvenis a operar em todo o território —, o F.C. Porto destacava-se noutro tipo de prospeção de talento. Em vez de se limitar a replicar a estratégia do seu rival e enfrentar a concorrência, o clube da cidade do Porto apostou na importação de jovens jogadores a preço de saldo, vendendo ao final de uns anos os casos de sucesso a clubes de ligas mais ricas.

Os resultados desta aposta é inegável. Nos tempos áureos da blogosfera, a equipa presidida durante décadas por Jorge Nuno Pinto da Costa era vista como um caso de estudo de sucesso do futebol mundial e chegava mesmo a ser comparada ao Moneyball (aqui e aqui), um modelo de gestão desportiva que foi retratado num filme de Hollywood. O motivo de tais comparações e elogios estava na inegável capacidade de o clube se manter competitivo enquanto fazia vendas milionárias com regularidade. O grande ativo era a rede de olheiros com que o clube trabalha – um antigo dirigente do clube chegou a falar de uma rede de “250 olheiros espalhados pelo Mundo”, com um especial foco na América Latina.

O histórico de compras e vendas dos azuis e brancos dá a entender que há algo além de uma excelente capacidade de descobrir talento bruto e talhá-lo para os tubarões da Europa — ao longo do anos, as escolhas dos mercados em que o clube aposta mostraram uma tremenda sensibilidade para as nacionalidades vistas como atrativas num determinado momento. Se na viragem do século a compra de jogadores brasileiros era a norma, as preferências foram primeiro diversificadas com a inclusão de contingentes de argentinos e uruguaios; em seguida, houve vagas dominadas por jogadores colombianos e mexicanos. Estas mudanças parecem explorar a diferença de preços de mercado por jogadores de semelhante qualidade: com a popularização de uma nacionalidade no futebol europeu (por exemplo, a brasileira), o preço do passe de jogadores destes país passa a contabilizar um custo acrescido face a nacionalidades com menos reputação no futebol europeu (colombiana ou mexicana). Se a principal forma de criar valor é no desenvolvimento do jogador com a sua preparação para o futebol europeu, a falta de “credenciais” no mercado alargado não é uma fraqueza — é exatamente nesse ponto cego do mercado que os azuis e brancos conseguem ganhar a vantagem. À semelhança do venture capital e hedge funds, o F.C. Porto conseguiu estratégias de arbitragem financeira ao explorar talento desconhecido em países vistos como menos frutíferos para o desporto rei.

Da mesma forma que o modelo de formação de base não é exclusivo do Sporting C.P., o mesmo pode ser dito da prospeção do F.C. Porto descrita acima. No ambiente de alta concorrência oligopolista, as equipas vão replicando as fórmulas vencedoras dos seus rivais. O modelo consolidado do S.L. Benfica, que combina uma academia altamente conceituada no Seixal e um histórico respeitável na contratação de talento de fora, sintetiza as décadas de acumulação de competências com que os concorrentes externos não podem contar.

Se na viragem do século o F.C. Porto era destacado na blogosfera, o S.L. Benfica era destacada na Era dos streaming. Em 2022, a Prime Video da Amazon lançou a minissérie.

Tornar Portugal uma incubadora de talento maioritariamente nacional e latino-americano, sujeito ao nível competitivo competitivo do futebol europeu, pronto a ser exportado para as grandes ligas, é a grande vantagem competitiva desenvolvida ao longo de décadas no futebol português. A proximidade linguística, cultural e até climática de Portugal com a América Latina (e o Brasil em particular) pode dar a entender que esta ligação era algo natural, destinada a ser explorada. Mas, de novo, a mão do Estado está bem presente nesta criação, mesmo que de forma acidental.

Se hoje Portugal e Espanha são as principais ligas de entrada de jogadores da América Latina na Europa, nem sempre foi assim. Portugal tomou a dianteira e talvez por isso consiga ter, até hoje, uma palavra a dizer nesta prática. Até meados da década de 1990, o futebol europeu de clubes era altamente regulado em termos do número de jogadores estrangeiros que uma equipa podia ter no plantel e em jogo. Regras como o limite de três jogadores estrangeiros em jogos da Taça dos Clubes Campeões Europeus e as restrições dos extracomunitários nas ligas faziam com que as grandes equipas europeias fossem dominadas por jogadores nacionais. Apesar de estarem teoricamente sujeitas ao mesmo tipo de regras, as equipas portuguesas aproveitavam o “estatuto de igualdade entre brasileiros e portugueses” para contornar estes limites. Este estatuto, assinado em 1971, ao fazer com que os brasileiros com residência permanente em Portugal usufruam praticamente dos mesmo direitos que os nacionais, resultava em que os jogadores brasileiros, aos olhos da lei, fossem reconhecidos como atletas nacionais.

A partir deste acidente histórico da década de 1970, foi criada de forma gradual a grande ponte aérea entre o futebol brasileiro e português, intensificada nas décadas vindouras pelos “três grandes”. O plantel do F.C. Porto vencedor da Taça dos Campeões Europeus em 1987 contava com sete estrangeiros, cinco dos quais brasileiros. Anos depois era a vez do S.L. Benfica disputar uma final europeia com cinco estrangeiros no onze titular (três brasileiros) contra um A.C. Milão que se via limitado a três.

Pouco anos mais tarde, mesmo com a seleção portuguesa ainda a viver o calvário pós-Saltillo, a liga portuguesa tinha uma presença significativa no Mundial de 1990 em Itália. O Itália’90 marcava um ponto de viragem nas seleções representadas quase exclusivamente por jogadores das ligas domésticas, e a liga portuguesa mostrou, mais uma vez, estar na vanguarda dessa tendência globalizante. Dez jogadores oriundos da liga representavam os seus respetivos países, um grande feito para uma liga secundária de um país que nem se tinha qualificado para a competição. Num período em que os jogadores brasileiros começavam a dar nas vistas nas ligas europeias, as principais equipas portuguesas acumulavam vários jogadores da canarinha. Dos doze futebolistas da seleção brasileira a atuar fora do Brasil, cinco jogavam nos “grandes” e um sexto (Mozer) tinha iniciado a sua carreira europeia em Portugal. O S.L. Benfica finalista vencido da taça dos campeões europeus, era a segunda equipa a colocar mais jogadores na seleção brasileira (três, incluindo o capitão Ricardo Gomes), apenas atrás dos cinco do Vasco da Gama.

Final da Liga dos Campeões Europeus 1989/90, antes do Itália’90. Tal como na final da Taça dos Clubes Campeões Europeus de 1986/87 jogada entre F.C. Porto e Bayern Munique, a equipa portuguesa, neste caso o S.L. Benfica, contava com um número de jogadores estrangeiros acima dos três estimulado contra o A.C. Milão que tinha um trio holandês composto por Rijkaard, Gullit e van Basten.

A experiência descrita, mesmo que de forma muita acidental, replica um dos principais instrumentos de uma política industrial de sucesso: o controlo do comércio externo. De forma semelhante à de governos que privilegiam certas indústrias estratégicas no acesso a divisas para importação de componentes chave, o governo português, através do estatuto de igualdade, dava um acesso privilegiado a uma das principais matérias primas do seu futebol. Num período em que a maioria das ligas via as suas equipas a digladiar-se pelos jogadores nacionais disponíveis, este atalho diplomático ajudava a manter a qualidade da altíssima competição oligopolística entre os “três grandes”, ao alargar a amostra de jogadores de alto rendimento que podiam ser contratados.

Com o relaxamento das regras de estrangeiros pela Europa, em especial a partir da Lei Bosman em 1995, o estatuto de igualdade foi perdendo valor, erodindo a vantagem do futebol português. Ainda assim, este intervalo de tempo forneceu uma vantagem ao futebol português no desenvolvimento de redes fora da Europa. Com uma máquina já montada, os principais clubes da liga foram-se adaptando e continuaram a fazer aquilo que tinha desenvolvido no Brasil noutras geografias, na América Latina e mais além.

Hoje é inegável que este modelo provou-se adaptável e o seu sucesso fez com que se tenha espalhado por toda a liga portuguesa e sonde talento em mercados menos óbvios. Num ecossistema com um mercado de prospeção maduro, as soluções fora das rotas mais óbvias começaram a popularizar-se. A contratação de japoneses por equipas do meio da tabela, a vinda de jogadores sérvios, turcos, polacos e escandinavos para os grandes do futebol nacional mostra uma liga que capaz de encontrar e desenvolver talento muito além dos locais com afinidades culturais, linguísticas ou climáticas — reajustar a estratégia ao evoluir dos mercados, seguindo os mesmos princípios.

O Mundial de 2026 confirma esta tendência. Os tempos do Itália’90 em que os “três grandes” colocam os seus jogadores na seleção brasileira já lá vão e hoje as impressões digitais da liga portuguesa estão por todo o mundial. O futebol nacional coloca 32 jogadores na competição em 15 seleções diferentes, com apenas cinco jogadores na seleção portuguesa. A estes somam-se dezenas de jogadores com passagens pela liga portuguesa, muitos a jogar nas principais candidatas a vencer o troféu. No mundial de 2022 no Qatar, Nicolás Otamendi e Enzo Fernández do S.L. Benfica e Angel Di Maria (com duas passagens pelos encarnados) foram peça essencial na conquista da Copa pela Argentina. No mundial a decorrer, as prestações de jogadores como Maxi Araújo pelo Uruguai sintetizam o fenómeno da liga como potencializador de talentos.

Escalar na cadeia de valor

A indústria do futebol português compartilha mais um ingrediente de uma política industrial de alto sucesso: exportar novos produtos da mesma cadeia de valor, e com isso obter uma maior diversificação e resiliência face à concorrência. O acumular de competências na área da formação e desenvolvimento de jogadores foi dando espaço ao surgimento de outras “estrelas” do futebol nacional.

Depois do jogador, o treinador é a figura mais famosa da indústria futebolística nacional. A incontornável jornada de José Mourinho marca um ponto de viragem. O iconoclasta conseguiu abrir espaço para o treinador nacional além fronteiras. Depois de Mourinho, a imagem do treinador português nunca mais foi a mesma. Hoje, essa figura tornou-se num sinónimo de prestígio e rigor na liga brasileira e uma presença frequente na Premier League. No entanto, como em todas as histórias de um disruptor genial e solitário, há muito trabalho na sombra. A alta competitividade internacional da liga portuguesa, em especial entre as maiores equipas, oferece a vários treinadores a hipótese de se habituarem ao que é o futebol do mais alto nível, ao mesmo tempo que serve de montra para o seu futuro, alimentando um ciclo virtuoso.

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Para o futebol nacional começar a exportar treinadores, era necessário cumprir uma etapa anterior: “nacionalizar” os treinadores da própria liga. Como é comum em sistemas periféricos, dominava a importação de conhecimento, simbolizada na figura do treinador estrangeiro. O húngaro Béla Guttmann, o brasileiro Otto Glória, o inglês Bobby Robson e o suéco Sven-Göran Eriksson simbolizavam um país com qualidade futebolística inegável mas sem compatriotas para orientar e liderar uma juventude talentosa. De novo, neste processo de substituição de treinadores importados por talento nacional emergente, são seguidos os passos de políticas económicas, em que são importados profissionais de fora para lançar novas indústrias. Com os sucessos e a subida na cadeia de valor que o tempo permite, o país outrora por desenvolver começa a exportar os seus profissionais.

Mais uma vez, Carlos Queiroz aparece como um dos protagonistas incontornáveis deste processo. Na segunda metade da década de 1970, nos seus tempos no Instituto Superior de Educação Física (criado em 1975 e hoje Faculdade de Motricidade Humana), Queiroz conhece o jovem Jesualdo de Ferreira, então jovem professor assistente. Nesse ambiente em que Portugal passava por um período de transformação institucional, Jesualdo lidera a criação do “Gabinete de Futebol” e dirige o seu primeiro curso. Em 1983, antes de chegar à FPF, Queiroz passa para professor deste curso, num período em que o futebol nacional ainda é dominado pela figura do treinador estrangeiro ou o ex-jogador sem formação. Nesse período, ainda antes do sucesso da seleção portuguesa no Europeu de 1984 e do México’86, Queiroz viria a ser professor de José Mourinho e José Peseiro — jovens sem um currículo de peso como jogadores de futebol e que, segundo Queiroz, foram os seus melhores alunos. Ironia do destino, o trabalho de final de curso de Mourinho e de dois colegas, intitulado “Observação e análise do conteúdo do jogo de futebol moderno”, focava-se no infame mundial de 1986. O conhecimento desta geração não se dava apenas nos bancos das universidades, havia também uma transferência de conhecimento estrangeiro através da prática – outro elemento chave de uma política industrial de sucesso. Tanto Queiroz como Mourinho passariam períodos a trabalhar para técnicos de renome como Telê Santana, Bobby Robson e Alex Fergunson.

Como fica evidente no trajeto emergente de Queiroz, o descalabro de Saltillo não criou de raiz uma série de revoluções. O ambiente de desorientação organizacional abriu o espaço para que os novos protagonistas do futebol português, pouco ligados ao dirigismo herdado do Estado Novo, conseguissem fabricar as alterações institucionais com base nos sucessos existentes. A partir de figuras como Jesualdo, Queiroz e Mourinho, o futebol português rompeu precocemente com a imagem do ex-jogador tornado treinador devido às suas glórias passadas.

Nesta saga, descrita por Mariana Cabral, criou-se uma base profissional capaz de treinar nos grandes clubes da liga que no período pós-Mourinho vem a capitalizar a valorização do treinador português. Com o reconhecimento internacional do treinador português e uma estrutura de formação profissionalizada, foi-se criando uma linha de montagem cada vez mais suave entre a carreira de jogador profissional e a de treinador. Dessa forma, a figura do ex-jogador tornado treinador ressurgiu mas sem ser sinónimo do amadorismo do passado. Não é por acaso que de um total de 36 jogadores foram campeões mundiais de sub-20 em 1989 e 1991 com Queiroz (na sua quinta presença na fase final do Mundial), 25 fazem parte de equipas técnicas.

Da mesma forma que o sucesso do futebolista português deve ser medido na sua capacidade de conquistar espaço entre os principais clubes europeus, o treinador português também tem dado sinais na mesma direção. Sendo inegável o “efeito Mourinho” nesta tendência de internacionalização, encontramos outros sinais do profundo trabalho dos treinadores nacionais no estrangeiro.

Com a conquista no Euro’2016, o trabalho modernizador de Fernando Santos no futebol grego caiu num certo esquecimento. Mas antes de trabalhar para a FPF, o engenheiro do Penta e do Euro teve uma longa passagem pelo futebol helénico – tanto nos clubes como na seleção – em que foi creditado por uma revolução do futebol local, inevitavelmente inspirada na cultura institucional do futebol português.

Nos quatro anos à frente da seleção helénica (2011-2014), Fernando Santos apostou na profissionalização da seleção e na maior articulação das camadas jovens com a seleção sénior, à imagem daquilo que se fazia em Portugal. A seleção grega no período pós Fernando Santos — que conseguiu o melhor resultado num Mundial em 2014 — tem feito uma travessia no deserto sem qualquer qualificação para um torneio desde então. A revolução institucional do engenheiro não tem mostrado os impactos duradouros vivenciados em Portugal; ainda assim, é inegável a capacidade de exportar um modelo organizacional para outro país, e é reconhecido por tal. Apesar de ter ganho apenas uma Taça da Grécia em sete temporadas, o treinador português foi premiado como o título “treinador da década” da liga grega. Nesse mesmo ano, é o homem incumbido a substituir Otto Rehhagel — vencedor do Euro’2004 — na seleção grega.

Em 2019, o jornal britânico The Telegraph aproveitava o jogo da Liga dos Campeões entre o Olympiacos, treinado por Pedro Martins, e o Tottenham de José Mourinho para publicar uma entrevista a Martins em torno do fenómeno do treinador português. Da mesma forma que Mourinho abriu a porta do futebol inglês, o mesmo pode ser dito sobre Fernando Santos e o futebol grego, uma liga que tem servido de trampolim para muitos treinadores nacionais sem espaço nos “três grandes”.

Neste ecossistema exportador, altamente complexo — que combina a formação, a prospeção e o desenvolvimento de treinadores —, surgia um elemento cuja função era promover estes nichos de especialização do futebol português para dar resposta às necessidades específicas dos tubarões da Europa. Na década de 1990, a interceptação entre a chegada da “Geração de Ouro” ao futebol profissional e a maior abertura do futebol europeu a estrangeiros, abria espaço para uma outra personagem no futebol português: o agente desportivo.

O sucesso internacional de jogadores como Paulo Futre e Rui Barros na segunda metade da década de 1980 certamente davam confiança que este era um mercado de imenso potencial. José Veiga foi a cara do agenciamento desta primeira fase de internacionalização massificada do jogador português — o jornal Público apelidou-o de “O empresário do futuro“. Em 1994, Veiga e Alexandre Pinto da Costa, filho do presidente do FC Porto, fundaram a empresa Superfute que mais tarde viria a estar envolvida em transferências como Luís Figo e Zinedine Zidane para o Real Madrid. Apesar dos feitos, a Era Veiga dava sinais de um setor pouco desenvolvido. O caso mais emblemático foi o acordo da venda de Figo a dois clubes italianos em simultâneo.

Distante mas não indiferente face ao agenciamento das transferências milionárias da “Geração de Ouro” do futebol português, Jorge Mendes vai desenvolver a Gestifute. Enquanto Veiga negociava transferências de craques como Figo para o Barcelona F.C. ou Fernando Couto para o Parma F.C., Mendes iniciava o agenciamento com Nuno Espírito Santo, então um jovem guarda-redes relativamente desconhecido. Pela mão do agente, com recurso a uma série de táticas pouco ortodoxas, Espírito Santos viria a trocar a cidade de Guimarães pela Corunha. Com os anos, a Gestifute de Mendes mudou por completo o papel do agenciamento na indústria do futebol nacional. Capitalizando os sucessos de José Mourinho e Cristiano Ronaldo, Mendes tornava-se um personagem central da indústria, com um raio de atuação bem alargado, capaz de expandir e promover os ativos que agenciava. O leque de agenciados deixava de ser um pequeno número de jogadores portugueses para chegar a um autêntico portefólio internacional.

Nesta empreitada, o super agente português superou o mero papel de oferecer respostas a desejos específicos dos clubes; Mendes protagoniza a co-construção de projetos desportivos. Nesta pele, o Wall Street Journal chegou mesmo a apelidar Mendes como o “dono do Real de Madrid“. Sendo difícil identificar o papel efetivo de Jorge Mendes em todos os clubes com os quais se envolve, é inegável que teve um papel decisivo no futebol de equipas comandas por investidores: o Rio Ave de Evangelos Marinakis, o Valência de Peter Lim e o Wolverhampton detido pelo conglomerado chinês Fosun (dono da Fidelidade e sócio de Mendes no negócio do agenciamento). Com carreiras projetadas na primeira década deste séculos, Ronaldo disputará o título de melhor do mundo entre as quatro linhas e Mourinho o estatuto de melhor no banco de treinador; Mendes fará o equivalente ao nível do agenciamento. A figura do super agente português, entre sucessos, fracassos e polémicas, personifica as vantagens competitivas que o futebol português tem sido capaz de explorar nas últimas décadas.

O sucesso desportivo dos “três grandes” é de tal forma extraordinário para dimensão do país que levou a que mais figuras além do agente que se projetam em cargos de gestão. Figuras como Hugo Viana (diretor desportivo do Manchester City), José Boto (dirigente no Flamengo), Antero Henrique, Luís Campos (PSG) e Domingos Soares de Oliveira (Al-Ittihad Jeddah) personificam mais um degrau da cadeia de valor de uma indústria modernizada e habituada a exportar competências.

Contudo, o sucesso do futebol nacional não se restringe a promover exportações. Nos últimos anos, o futebol português tem passado por uma transformação da sua estrutura proprietária. Gradualmente, a indústria tem deixado de ser um ecossistema exportador dominado por clubes detidos nacionalmente através daquilo que se classifica como Investimento Direto Estrangeiro. A desnacionalização da propriedade do futebol tem-se dado com a entrada de nomes sonantes. Os “novos donos” do futebol incluem o magnata grego Marinakis no Rio Ave, o Estado qatari no Braga S.C. via Qatar Sports Investments ou o bilionário israelita Idan Ofer através do Quantum Pacific Management no Famalicão F.C. Nesta nova tendência de aquisições estrangeiras, reabriu-se uma ponte aérea Portugal-Brasil. Em 2021, mais de uma década depois da compra do Estoril Praia por parte de um grupo brasileiro era a vez de Marcelo (ex-jogador da seleção brasileira e do Real de Madrid) anunciar a compra de um outro clube na Região de Lisboa. Desta vez era o C.D. Mafra. A decisão do ex-lateral-esquerdo do Real de Madrid mostra um conhecimento das vantagens das indústrias do futebol português e a sua relação com o futebol brasileiro. No comunicado de compra, Marcelo citava que o clube de Mafra tinha como propósito “funcionar como uma vitrine” na Europa para os jogadores desenvolvidos no Azuriz, um clube brasileiro também detido por Marcelo. Poucos anos mais tarde, era a vez de Vinicius Junior do Real Madrid e um grupo de co-investidores compararem o Alverca F.C.

passado mostra que o sucesso desportivo e financeiro destes projetos não é certo. O Investimento Direto Estrangeiro, no futebol como em qualquer outra indústria, não deve ser interpretado como um fim por si só. Tal como no restante mundo empresarial, este é apenas um instrumento que tanto pode ser usado para financiar a expansão de um modelo de sucesso como para uma aquisição cujo objetivo é simplesmente liquidar um competidor ou tornar um clube num satélite a outros clubes do mesmo proprietário.

O vale dos relvados

Na mensagem de Natal do ano passado, o primeiro-ministro Luís Montenegro — conhecido pelo seu gosto pelo futebol — apelava para que os portugueses tivessem uma “mentalidade Cristiano Ronaldo” para colocar a economia a crescer mais. Imediatamente, e como é tradição, o discurso de Natal era criticado pela oposição.

Os diferentes partidos à esquerda evitavam tecer juízos sobre a metáfora desportiva de Montenegro e optaram por atacar a mensagem pela sua desconexão com a realidade material do país. Do lado do PCP, denunciava-se a ausência de um discurso que fale do país real, em que se vive “uma realidade de salários baixos, de preocupações e dificuldade de acesso à saúde e à habitação”. José Manuel Pureza, coordenador do Bloco de Esquerda, apontava para a ausência do pacote laboral nas palavras de Montenegro, concluindo que este era frágil. No caso do Livre, Paulo Muacho acabava por fazer uma síntese das mensagens do PCP e Bloco de Esquerda. Uma semana depois, com mais tempo para digerir o discurso “mentalidade Cristiano Ronaldo”, Filipe Santos Costa, comentador da CNN, comparava Montenegro a um “chatbot” e o conteúdo do discurso a um “folheto de autoajuda” que promovia um “pesadelo individualista, na linha do pior liberalismo selvagem” e citava o comentário de Francisco Rodrigues dos Santos feito dias antes sobre o tema. Ao contrário das comunicações imediatas dos partidos, o comentário da autoria do ex-líder do CDS, mais conhecido como Chicão, era uma crítica a Montenegro nos seus próprios termos.

O sportinguista Chicão referia-se a fatores como a qualidade da academia de Alcochete e o apoio financeiro que Ronaldo beneficiou para justificar o seu sucesso individual. Aos olhos do antigo líder do CDS, a “mentalidade Cristiano Ronaldo” não era o hino à superação individual através da resiliência sugerido pelo primeiro-ministro mas um monumento ao coletivismo e ao Estado Social.

Na posição confortável de comentador, Chicão, ao contextualizar o sucesso individual de Ronaldo numa empreitada coletiva, tocava num ponto que os políticos no ativo evitam: abordar futebol profissional como aquilo que realmente é, uma indústria. O futebol português é sem dúvida o maior sucesso industrial do país dos últimos quarenta anos. Apesar do grande sucesso de empresas e cidadãos portugueses em áreas específicas, nenhum setor apresenta uma pujança tão transversal e duradoura como o futebol. Para o desprazer de muitos, o ecossistema em torno da indústria do futebol é o mais próximo que o país tem dos clusters tecnológicos como Silicon Valley.

O uso da indústria do futebol no debate político-económico não se cinge aos discursos de Montenegro. A revista britânica de The Economist apelava que a política do Reino Unido aprendesse algo com o sucesso da liga do seu país. Obviamente que para o farol do neoliberalismo as lições limitavam-se à competição e abertura ao exterior.

Figuras como Carlos Queiroz, Jorge Nuno Pinto da Costa, Luís Filipe Vieira, José Mourinho, Bruno de Carvalho, Valentim Loureiro, Pedro Santana Lopes, José Roquete, João Vale e Azevedo, Jorge Mendes e Cristiano Ronaldo são as nossas versões dos vilões das empresas tecnológicas da Califórnia. Para um pequeno país periférico da Europa sem grandes corporações globais, a seleção nacional e os “três grandes” são o mais parecido que o país tem a uma Apple, Microsoft, Amazon ou Google. Tal como os gigantes que surgiram em Silicon Valley e os seus protagonistas, o clima é marcado pela rivalidade selvagem, desvios éticos, fraudes fiscais, corrupção, dívidas por pagar, linhas muito ténues entre a política e os negócios. Tal como os gigantes tecnológicos, no meio de sucessos frutos do acaso e ruínas que são puro azar, as impressões digitais do Estado (português) na criação deste cluster estão por todo o lado — umas vezes mais intencionalmente do que outras.

Como em qualquer setor onde um pequeno número de agentes são muito grandes face ao país onde operam, o risco do Estado ser capturado por interesses dos seus campeões nacionais está sempre presente. Apesar do progresso recente no futebol feminino, no futsal e em modalidades como o andebol e a canoagem — possivelmente influenciados pelos modelos de gestão do futebol masculino —, o sucesso do desporto rei não pode ser desligado da incapacidade de gerar sucesso duradouro na esmagadora maioria das restantes modalidades desportivas, refletido na incapacidade de conquistar um elevado número de medalhas olímpicas. Da forma semelhante, o sucesso dos “três grandes” ainda está umbilicalmente ligado a um campeonato em que a maioria das restantes equipas carece de bases associativas sólidas. Para o bem e para o mal, a indústria apresenta as características clássicas de uma estrutura de sucesso económico no capitalismo global.

Até quando Portugal consegue manter este sucesso é mais que incerto. Em termos dos clubes, a consolidação do futebol num pequeno número de equipas bilionárias, que já tentaram criar uma Superliga Europeia, mostra riscos imensos que até agora os “três grandes” têm sido capazes de gerir. A crescente entrada de capital estrangeiro em diversos clubes também lança uma incógnita sobre o futuro competitivo da liga portuguesa e de uma potencial deslocalização dos centros de decisão para o estrangeiro. Em termos da seleção, os últimos anos e arranque deste Mundial mostram uma FPF demasiado confortável em acomodar interesses comerciais e pessoais em detrimento do sucesso desportivo. As tensões não são as dos tempos do amadorismo de Saltillo, mas são demasiado visíveis para ignorar.

O caso Saltillo de há quarenta anos não é o momento fundador desta história, mas é certamente o ponto de viragem da mais bem sucedida política industrial no Portugal democrático. No encontro dos jogadores na partida para o Mundial, Luís Montenegro dava pulseiras para os jogadores usarem dentro de campo e escolhe fazer uma visita ao balneário depois de uma vitória. Em vez de seguir práticas de caudillo que tenta parasitar a popularidade de terceiros, como já fizemos no passado, recomendamos ao primeiro-ministro a aprender um pouco mais sobre os sucessos industriais que tanto celebra.

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