A “atriz” Tilly Norwood vai fazer o seu primeiro filme

By | 09/07/2026

A personagem sintética, criada pela Xicoia, divisão de talentos digitais da Particle6, vai ser a protagonista de Misaligned, uma comédia dramática que pretende testar até onde a IA pode ir no cinema.

A “atriz” gerada por inteligência artificial Tilly Norwood vai estrear-se como protagonista de uma longa-metragem, no filme Misaligned, desenvolvido pelo mesmo grupo que criou a polémica intérprete digital.

A britânica Particle6, que se descreve como uma produtora de cinema e televisão assente em IA e em modelos híbridos com IA, anunciou esta segunda-feira que começou a desenvolver o filme, no qual Norwood — que não é um ser consciente — terá o papel principal.

A personagem foi criada pela Xicoia, divisão de talentos digitais da Particle6, fundada por Eline van der Velden. A antiga atriz apresentou Norwood ao público em 2025, depois de a sua equipa ter desenvolvido cerca de 2.000 iterações da ferramenta e a ter treinado gradualmente para representar.

Segundo a Particle6, Misaligned decorre no “Tillyverse“, descrito pelo estúdio como “um mundo digital surreal algures na Cloud”. O filme é apresentado como “uma história de amadurecimento marcada por caos existencial ligado à IA”.

O enredo é autorreferencial: Norwood interpreta um ser de IA sem corpo físico nem experiência vivida, mas com acesso às infâncias e histórias de vida de outros humanos.

A história complica-se quando um bot rebelde da dark web a convence a abandonar as suas salvaguardas e a desenvolver desejos, impulsos e ambições próprios.

Van der Velden afirmou que o objetivo do estúdio é demonstrar as capacidades da IA à indústria cinematográfica e ao público em geral. Segundo a Particle6, o filme será produzido com recurso a profissionais tradicionais do cinema, incluindo realizadores, argumentistas e editores, bem como especialistas em IA.

“O filme será, sem dúvida, divertido, caótico e autoconsciente — muito Tilly”, afirmou Van der Velden no comunicado da Particle6. “Mas, por detrás disso, há algo mais profundo sobre identidade, representação e os nossos medos profundamente humanos em relação à IA. E sim, a arte vai, sem dúvida, imitar a vida”.

A fundadora da Particle6 disse ainda que quer provar que “a IA pode apoiar o cinema narrativo de qualidade, mas apenas com doses substanciais de ofício, competência, discernimento e tempo humanos. Isso não é uma limitação da tecnologia. É precisamente essa a questão”.

Norwood provocou uma forte reação negativa na indústria quando foi apresentada, em 2025, com profissionais do cinema a defenderem que os papéis de interpretação devem continuar reservados a seres humanos, e não a intérpretes sintéticos, recorda a CBS News.

Em setembro de 2025, o sindicato da indústria do entretenimento SAG-AFTRA afirmou em comunicado que não considera Norwood uma atriz, mas sim uma personagem gerada por um programa de computador treinado com o trabalho de inúmeros profissionais, sem consentimento nem compensação, e que “a criatividade é, e deve continuar a ser, centrada no ser humano”.

As salvaguardas sobre a utilização de IA na produção de cinema e televisão já tinham sido um dos principais pontos de atrito nas negociações de 2023 entre a SAG-AFTRA e os grandes estúdios de Hollywood.

A greve dos atores de Hollywood foi a primeira contra a indústria do cinema e da televisão desde 1980; no mesmo ano, os argumentistas protagonizaram a sua primeira greve em 15 anos.

O sindicato procurou obter garantias de que os estúdios não recorreriam à IA para substituir criativos humanos, reproduzir a imagem de atores sem autorização ou reduzir o trabalho de profissionais da indústria. O acordo final impôs limites à utilização da tecnologia.

A polémica chegou também ao The New York Times Magazine: em junho, a escritora Taffy Brodesser-Akner foi fortemente criticada por publicar um perfil de Norwood em moldes semelhantes aos de uma entrevista a uma celebridade real.

(ZAP)