O verdadeiro valor da IA não está apenas na automação, mas na capacidade de interpretar melhor a informação complexa em escala, defende Francisco Val Ferreira.
A inteligência artificial está a transformar a forma como os produtos digitais de gestão de energia e otimização de custos operam, sobretudo aqueles que dependem de dados fornecidos pelos próprios utilizadores, como faturas, contratos e históricos de consumo. À primeira vista, trata-se de informação abundante, mas na prática, é informação fragmentada, difícil de ler e raramente estruturada de forma útil.
Durante anos, estes produtos foram desenhados para simplificar escolhas, com foco em comparar tarifas e acelerar decisões. Esse modelo começou a revelar limites. Maior rapidez não resolve o problema quando falta compreensão do que está a ser apresentado.
É aqui que a inteligência artificial entra. Em teoria, permite simplificar e escalar a análise de dados complexos. Na prática, introduz uma nova camada de interpretação. Em vez de apenas apresentar opções, passa a explicar padrões de consumo, alterações em faturas e potenciais poupanças com base em dados individuais.
Parte deste processo já recorre a inteligência artificial, o que acelera a análise de dados e a estruturação da informação. Ainda assim, este tipo de aplicação evidencia desafios próprios dos modelos atuais, sobretudo ao nível dos custos de processamento e da necessidade de validação contínua, num contexto em que estas tecnologias estão em rápida evolução para garantir maior consistência em produção.
O problema não é a falta de capacidade da tecnologia, mas o facto de que operar IA em ambientes reais exige controlo humano. Sem mecanismos de validação, supervisão e definição clara de limites, a escala traz tanto risco como benefício.
Durante uma fase inicial, muitos modelos mostraram fragilidades precisamente por serem probabilísticos e não determinísticos. O mesmo input podia gerar resultados diferentes, o que em contextos como energia ou faturação impacta diretamente a confiança.
Isso levou a uma abordagem mais equilibrada. A adoção de IA não pode ser feita como substituição de processos, mas como uma camada adicional de inteligência que reforça a decisão humana, com controlos bem definidos.
Hoje, a IA está integrada em várias partes do produto, no apoio ao cliente e nas ferramentas internas das equipas de engenharia, reduzindo trabalho repetitivo e permitindo foco na arquitetura de solução. Mas o verdadeiro valor não está apenas na automação. Está na capacidade de interpretar melhor informação complexa em escala.
O ponto central não é se a IA está pronta ou não. É que está hoje muito mais próxima de estar pronta para produção em larga escala, desde que os sistemas à volta estejam preparados para a suportar.
No fundo, a inteligência artificial está a deslocar a experiência digital da simples análise de dados para uma lógica de decisão assistida. Esse movimento só funciona quando a tecnologia e o controlo evoluem em conjunto.
(Por Francisco Val Ferreira- Co-fundador do Manie)
