O céu não é o limite para a China

By | 03/07/2026

China ultrapassa rival EUA como principal potência mundial de alta tecnologia. A liderança tecnológica de Pequim procura consolidar influência no plano global — e não só no planeta Terra.

A comissária-chefe da polícia de Hong Kong, Lai Kai-ying, está, literalmente, nas alturas. A cerca de 390 quilómetros acima da Terra, a especialista em cargas úteis, de 43 anos, orbita o planeta 16 vezes por dia, juntamente com dois astronautas da República Popular da China.

A estação espacial tripulada Tiangong (“Palácio celestial”), em órbita há quase cinco anos, é um laboratório único de microgravidade para experiências científicas destinadas a aprofundar a compreensão sobre o futuro da humanidade.

Tal como na chamada corrida espacial das décadas de 1950 e 1960, a indústria aeroespacial é hoje também uma competição ideológica. Os países que conseguem lançar foguetões para o espaço demonstram não só competência técnica, mas também força económica e a alegada superioridade dos seus sistemas.

Em vez da União Soviética dos tempos da Guerra Fria, no século XXI o concorrente dos Estados Unidos é a China comunista. Em 2032, quando a Estação Espacial Internacional (ISS) for desativada, a China será o único país a operar uma estação orbital permanentemente habitada.

China domina a investigação de ponta

A exploração espacial é apenas uma das muitas áreas em que a China detém a liderança tecnológica mundial. Isso é demonstrado pela mais recente classificação da Nature, cujo índice, o Nature Index, compila e avalia publicações científicas.

Na comparação entre países em 2025, a China foi a clara vencedora geral, à frente dos EUA, em segundo lugar, e da Alemanha, em terceiro. Além disso, nove das dez principais instituições de investigação eram chinesas. Apenas a prestigiada universidade norte-americana de Harvard ficou em terceiro lugar. A Sociedade Max Planck, da Alemanha — uma instituição de referência em investigação básica, sediada em Berlim — ocupa a 13.ª posição.

“Hoje em dia, é quase irrelevante a classificação internacional de instituições científicas que se consulte. As universidades e instituições de investigação na China lideram em muitas áreas”, observou Christina Beck, porta-voz da Sociedade Max Planck.

O Nature Index mostra que as instituições de investigação chinesas são, de forma incontestável, líderes nas disciplinas das ciências naturais, como a biologia, a química e a física, bem como noutras ciências aplicadas, ficando atrás das instituições norte-americanas apenas nas áreas das ciências da saúde e das ciências sociais.

Investimentos substanciais garantem o sucesso

Esta ascensão tem ocorrido de forma contínua ao longo das últimas duas décadas, afirmou Richard Heidler, diretor de Gestão da Informação da Fundação Alemã para a Investigação (DFG), a maior organização de financiamento científico da Alemanha.

“No início dos anos 2000, verificou-se sobretudo um aumento significativo do volume de publicações, enquanto, há cerca de dez anos, as análises bibliométricas começaram também a mostrar um crescimento nos indicadores de impacto, como a proporção e o número de publicações muito citadas”, explicou Heidler. Ou seja, a China não só publica mais, como se tornou também cada vez mais influente e visível.

Esta ascensão assenta num processo de desenvolvimento de longo prazo, acrescenta Beck, da Sociedade Max Planck. “O fator decisivo foi o apoio financeiro sistemático e continuado às instituições científicas e universidades na China, em particular através da formação internacional de investigadores e de investimentos substanciais em infraestruturas de investigação de grande escala.”

A liderança em Pequim há muito que reconheceu que a tecnologia é a chave para o sucesso. O 15.º Plano Quinquenal para o crescimento económico até 2030 prevê um “aumento da eficiência do sistema de inovação”.

A China pretende reforçar de forma abrangente as suas capacidades de inovação independente e promover uma integração mais estreita entre as inovações científicas e tecnológicas e a indústria. O impulso daí resultante para o crescimento é designado “novas forças produtivas”.

O novo plano quinquenal identifica oito temas-chave para o futuro: inteligência artificial, tecnologia quântica, energia de fusão nuclear controlável, ciências da vida e biotecnologia, investigação cerebral, prevenção de doenças graves e produtos farmacêuticos, investigação em águas profundas e polares — além do chamado deep space.

Ideologia domina a cooperação científica

China e EUA estão envolvidos numa disputa intensa por uma nova missão lunar. Pequim pretende estar pronta até 2030. Resta saber se a agência espacial norte-americana, a NASA, conseguirá concluir com sucesso a sua missão Artemis, como previsto, até 2028. A entrega do módulo lunar e de uma nova geração de fatos espaciais já está significativamente atrasada.

A China também pretende estabelecer uma colónia permanente na Lua e lançar expedições ao espaço profundo a partir dali. A médio prazo, taikonautas deverão ficar permanentemente instalados na superfície lunar.

Os chineses foram os únicos a conseguir recolher uma amostra de rocha do lado oculto da Lua com recurso a um módulo lunar, material que será usado para produzir materiais de construção semelhantes às rochas lunares.

Os avanços tecnológicos, porém, são apenas uma parte de uma estratégia global ambiciosa. “A tecnologia pode ser usada como ferramenta para criar esferas de influência transfronteiriças”, escreveu Daniel Voelsen, do think tank Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP), sediado em Berlim, no seu estudo mais recente.

“O objetivo é exportar o máximo possível graças ao domínio do mercado internacional e explorar os efeitos económicos de escala associados, sem abrir mão de uma vantagem militar ou económica decisiva. Para países como os EUA e a China, isto está associado ao desejo de também influenciar as políticas de outras nações através do domínio tecnológico.” Na teoria económica, os efeitos de escala significam que, quanto mais se produz, menor é o custo.

Limitações políticas

Nem o espaço, no século XXI, está livre de ideologia. A NASA está proibida por lei federal, através da chamada Emenda Wolf, de 2011, de cooperar com a agência espacial chinesa. A Agência Espacial Europeia (ESA) também evita cooperar com a China devido à aliança transatlântica, embora astronautas da ESA já tenham aprendido algum vocabulário chinês e realizado exercícios conjuntos com taikonautas chineses. O Ministério Federal da Investigação, Tecnologia e Espaço, que também tutela a área da investigação, define orientações políticas para projetos de cooperação científica com a China.

“São estabelecidos limites claros em áreas sensíveis”, garante o Ministério. “Isto aplica-se, por exemplo, a colaborações em temas que também possam servir fins militares, de uso duplo, ou a colaborações na área da inteligência artificial que possam ser usadas abusivamente para fins de vigilância e violações dos direitos humanos.” A China tem-se tornado cada vez mais uma concorrente e uma rival sistémica. Na cooperação científica, riscos e benefícios têm de ser ponderados.

“Queremos manter a cooperação em áreas de investigação onde não exista um problema de uso duplo”, resumiu Beck, da Sociedade Max Planck. Um exemplo é o chamado telescópio FAST, o maior radiotelescópio do mundo, localizado na província de Guizhou, no sudoeste da China. Tem 500 metros de diâmetro, aproximadamente o comprimento de cinco campos de futebol. “Esta colaboração dá-nos acesso a uma infraestrutura única.”

Ingrid Krüßmann, do Centro Sino-Alemão de Promoção da Investigação da DFG, defende uma linha semelhante. “A DFG está empenhada em criar a maior segurança jurídica possível para os investigadores na Alemanha, para que projetos de colaboração de excelência com parceiros chineses continuem, em princípio, a ser viáveis.”

Cooperação cautelosa

Ao mesmo tempo, a evolução política interna na China, o agravamento da situação geopolítica e, sobretudo, a estreita ligação entre a investigação civil e militar colocam novos desafios às organizações científicas alemãs nas suas colaborações com parceiros chineses, prosseguiu Beck. Segundo a investigadora, a Sociedade Max Planck pretende moldar a sua cooperação com parceiros na China de forma “informada, responsável e estratégica”.

Entretanto, a China continua a avançar com a sua agenda de política externa recorrendo a meios tecnológicos. Depois da astronauta de Hong Kong, Lai, que gerou grande entusiasmo na antiga colónia britânica, um astronauta estrangeiro passará, pela primeira vez, seis meses na estação espacial chinesa a partir de outubro. Dois paquistaneses já estão a treinar para a missão Shenzhou 24 (“Nave divina-24”). A mensagem vinda da órbita terrestre é clara: a formação de blocos políticos também acontece no vácuo do espaço.

(ZAP)