“Felicidade digital”. Há pessoas a casar com hologramas e fazer amizade com chatbots

By | 23/06/2026

Estima-se que cerca de 3.700 pessoas tenham pedido certificados de casamento com a muito popular Hatsune Miku. Não é poligamia extrema: Hatsune é um holograma

Pode a tecnologia substituir realmente as relações humanas? Num estudo recente, Anné H. Verhoef  e Edmund Terem Ugar, investigadores em filosofia da North-West University dedicados à felicidade humana e à inteligência artificial, abordaram esta questão.

Nesse trabalho, os dois investigadores analisaram a ascensão dos companheiros de IA, dos chatbots e dos robôs sociais usados para amizade, aconselhamento, apoio emocional e até relações amorosas.

Num artigo no The Conversation, Verhoef e Ugar sustentam que a IA pode reduzir a solidão e prestar assistência, mas falta-lhe a compreensão genuína, as emoções e a responsabilidade moral necessárias ao florescimento humano.

A felicidade verdadeira depende de ligações interpessoais autênticas, mas a IA está a perturbar as ideias tradicionais de amizade e de relação. Substituí-las por interações mediadas pela IA arrisca fragilizar o bem-estar e a vida em comunidade.

O estudo da felicidade é um campo vasto. No seu estudo, Verhoef e Ugar recorram ao filósofo francês Paul Ricoeur para analisar uma dimensão da felicidade ligada às relações humanas autênticas, às amizades e à construção de comunidade.

Ricoeur teve particular influência no domínio das capacidades humanas e na forma como as pessoas se compreendem a si próprias, aos outros e ao mundo. Contribuiu para aprofundar a nossa compreensão da felicidade ao ligá-la à infelicidade e ao acaso, mas também ao sublinhar a natureza relacional da felicidade humana. A sua reflexão assenta em três ideias interligadas sobre o significado da felicidade.

Em primeiro lugar, a felicidade reflete o desejo individual de uma vida realizada e de capacidade de ação pessoal. Mas Ricoeur alerta que os seres humanos existem dentro de sistemas sociais complexos, que moldam e limitam a sua procura da felicidade. Por isso, não conseguimos garantir facilmente a felicidade apenas através do esforço individual. Isto conduz à segunda ideia.

Em segundo lugar, a felicidade deixa de ser uma aspiração privada e passa a emergir da dádiva e da reciprocidade. A sua fragilidade reside precisamente no seu carácter partilhado, que cria amizades capazes de afastar a solidão e aprofundar a realização pessoal. Mas isto não diz respeito apenas aos laços que mantemos com quem nos é próximo.

Ricoeur acrescenta uma terceira dimensão, que inclui aqueles que estão distantes de nós. Defende que a felicidade está ligada às aspirações privadas de cada indivíduo e ao papel que os outros desempenham ao possibilitá-las ou frustrá-las. Esses “outros” incluem tanto aqueles que têm rosto — amigos e pessoas queridas — como estranhos distantes e sem rosto.

A felicidade, portanto, pode encontrar-se no próprio indivíduo, nas relações íntimas ou na relação com a comunidade mais alargada.

A leitura que Ricoeur faz do conceito de felicidade reflete um estudo bem conhecido, segundo o qual laços comunitários fortes ajudam as pessoas a viver vidas mais longas e felizes.

O estudo baseia-se em quase 80 anos de dados recolhidos a partir das experiências de vida de 268 estudantes que, em 1938, passaram das residências universitárias de Harvard para casas residenciais.

A investigação mostra que as relações próximas são o melhor indicador de longevidade, saúde e satisfação com a vida. Estes laços protegem contra o descontentamento e atrasam o declínio físico e cognitivo. São indicadores mais fiáveis de bem-estar e felicidade do que a riqueza ou o estatuto social.

No entanto, a ascensão da digitalização e da IA vem agora complicar a questão de quem, ou do que, pode contar como “outro” na promoção da nossa felicidade individual.

Tecnologia robótica

De acordo com um estudo sobre a forma como a companhia proporcionada pela IA se desenvolve, 68% dos utilizadores de chatbots de IA veem estas ferramentas como “algo” ou “totalmente” semelhantes a humanos, 90% acreditam que os chatbots são inteligentes, 78% acham-nos empáticos e 75% acreditam que têm consciência.

A IA está a ser usada para responder a perguntas e explorar interesses humanos, moldando um novo tipo de diálogo em muitas áreas da vida. Com ela, as ideias de amizade estão a mudar, passando a incluir relações entre humanos e tecnologia.

Tradicionalmente, os “outros” na vida de uma pessoa eram sujeitos humanos. A investigação emergente sobre as relações entre humanos e tecnologia desafia esta suposição. Dos companheiros no desporto à intimidade sexual, estes estudos obrigam-nos a reconsiderar o que conta como outro.

Tecnologias como a Replika ocupam hoje o papel de “outro” na vida de algumas pessoas. Os seus chatbots de companhia, cujo lema é “o amigo de IA para viver a vida consigo”, tinham mais de 42 milhões de utilizadores em todo o mundo à data em que este texto foi escrito.

A Replika foi concebida para promover companhia e amizade entre pessoas que se sentem sós. Os utilizadores criam um avatar que se torna o seu companheiro digital.

Tecnologias socialmente disruptivas, como os robôs sociais com IA, são criações que distorcem as nossas normas sociais tradicionais, as nossas relações e a forma como vemos o mundo.

Uma das razões pelas quais são consideradas disruptivas é o facto de serem imprevisíveis e de desafiarem continuamente a nossa visão do mundo. Historicamente, as tecnologias não eram agentes morais. Hoje, porém, desempenham nas nossas vidas o papel de sujeitos e objetos morais.

No Japão, por exemplo, o fenómeno hikikomori, um estado de reclusão social, está a ganhar força, com mais de 1,5 milhões de pessoas a criarem vínculos com companheiros virtuais em vez de se relacionarem com outras pessoas.

Estima-se que cerca de 3.700 pessoas tenham pedido certificados de casamento com a popular Hatsune Miku, um holograma da Gatebox.

Akihiko Kondo, um japonês de 42 anos, casou-se mesmo com Hatsune, em 2018 — tornando-se uma figura emblemática na luta pelo reconhecimento da fictossexualidade, uma condição caracterizada pela atração romântica por personagens fictícios.

Em alguns contextos religiosos, robôs sociais servem de líderes espirituais a comunidades de fiéis. Estas tecnologias perturbaram conceitos tradicionais como amizade e relação, bem como a ideia do que significa contribuir para o bem-estar e o florescimento humano.

Então, podem os robôs trazer felicidade real?

No seu estudo, Verhoef e Ugar reconhecem que estas tecnologias podem promover o florescimento humano e a felicidade, mas não a partir da perspetiva dos “outros” de Ricoeur.

Estas tecnologias não cumprem os critérios nos permitem reconhecer nelas um verdadeiro “outro” humano, porque:

  • apenas imitam as experiências que partilhamos com elas;
  • não agem por “vontade” própria, e não podemos responsabilizá-las por qualquer ato moral ou jurídico;
  • não têm histórias nem experiências próprias.

Embora não tenham senciência — a capacidade de sentir dor ou prazer —, os robôs sociais podem provocar respostas emocionais e psicológicas significativas, melhorando o bem-estar e a felicidade humanos de formas que se assemelham às interações humanas tradicionais.

Os bots sociais com por IA estão sempre disponíveis, cheios de energia, são pacientes, adaptáveis e reativos às nossas necessidades. Nesse sentido, parecem oferecer muito mais à nossa felicidade potencial do que os nossos melhores amigos ou familiares.

No entanto, são bots sociais e devem continuar a ser vistos como tal. Não devemos confundi-los com aquilo que os “outros” humanos significavam para Ricoeur, nem com aquilo que significavam no estudo de Harvard.

Isto porque as experiências que provocam não são reais, e estas tecnologias não são objetos de consideração moral — não recebem verdadeiro cuidado, justiça ou compaixão.

Ser objeto de consideração moral é uma condição necessária para promover uma felicidade humana e um bem-estar genuínos, concluem Verhoef e Ugar.

(ZAP)