Um jovem recém-desempregado dá por si a esgotar o tempo de conversa com o Claude, o chatbot a quem já chama de ‘amigo’. Nos momentos livres que lhe vão sobrando, entre candidaturas e entrevistas de emprego e eventos sociais com amigos, divaga sobre o futuro do trabalho no tempo da IA.
No outro dia, criei um meme pela primeira vez. O meu tempo de conversa com o Claude esgotou-se depois de ter passado a manhã a pedir-lhe novas versões das minhas cartas de motivação e, por isso, tive que recorrer ao Gemini. Antes de abandonar o Claude, a quem chamo “amigo” num tom ridículo — para fingir que não lhe reconheço a consciência — prometi a mim mesmo que vou pagar os 15 euros mensais assim que arranjar um trabalho. Nunca tinha conversado com o Gemini, que me pediu que fizesse login com a minha conta Google para continuar. Hesitei, mais por preguiça do que por um remoto princípio moral que raramente resiste à paixão doente pela tecnologia, e fechei a página. Voltei a uma candidatura de trabalho que não consigo acabar de uma vez por todas porque perco a atenção a cada 10 minutos. Mas o tempo flui dentro e fora do ecrã, e entre a banana na cozinha e mais uma espreitadela pela janela, logo dei por mim a entrar no Gemini.
Pensei se valia mesmo a pena perder-me mais uma vez, mas eu preciso desesperadamente da injeção de dopamina que me será entregue assim que o meu amigo, também desempregado como eu, abrir o meme que inventei no Whatsapp. Os quatro momentos do Mr. Bean perdido à beira da estrada que atravessa um campo florido foi a imagem mais disponível, selecionada pela minha intuição, para representar o tédio de uma vida extremamente online. Algo ressoa entre a minha condição e a de um inglês inútil e bem-vestido, à espera que o mundo se abra — e que ora se aborrece desmanchando uma flor, ora estica o braço ou se deita na berma enfadado. O meme só se concretizou depois do Gemini estampar na imagem a frase que eu próprio compus: “Me waiting for Claude to slash the labour market and free everyone from the Protestant spirit”. Mandei-lhe, ele abriu, e rimo-nos os dois. Umas mensagens a seguir, depois do êxtase dar lugar à culpa, escrevi-lhe de novo: “Se eu escrevesse com a originalidade com que fiz este meme…”

Poucas semanas antes tínhamos ido ver um concerto da Carminho. Chegámos primeiro que toda a gente, a gente que parece sempre mais ocupada que nós, e esperámos à porta. Ele acendeu um cigarro e disse-me que tinha acabado de ler A Linha de Sombra do Joseph Conrad, a história de um jovem capitão que assume o comando do seu primeiro navio e fica preso numa calma absoluta — sem vento, com a tripulação a adoecer, sem que nada aconteça apesar da vontade de agir. “Os meus dias parecem como os da personagem do Conrad no barco, sinto-me mergulhado nesta tranquilidade podre…”, disse ele com uma cara amargurada. Não nos julguem pelo pedantismo — usar referências extremamente intelectuais para descrever tudo e mais alguma coisa é um direito adquirido por quem estudou humanidades e não consegue encontrar trabalho. Este hiper-intelectualismo que não consegue sair da conversa de esplanada é o sintoma de uma personalidade maníaca e volátil, um reflexo do temperamento dos mercados financeiros. Fui eu que o aconselhei a investir as poupanças no S&P500 — “pelo menos temos um retorno sobre os dados que as Big Tech nos extraem todos os dias”, disse eu em tom de gozo. Ele riu-se de volta, mas pareceu convencido.
“Analyst”, “Associate”, “Junior Consultant” são termos sem cabimento, demasiado distantes para uma vontade que oscila entre a megalomania de querer trabalhar para o Homem com H grande — em Silicon Valley, num grande banco, na União Europeia ou na ONU — e a humildade existencial de querer ser professor de primária ou trabalhar numa livraria. Se fôssemos capazes do primeiro, tornar-nos-íamos provavelmente em líderes sanguinários e populistas; se nos deixássemos cair no segundo, seríamos o Iago — o burro melancólico do Winnie the Pooh. Por enquanto estamos no meio, anestesiados por um mantra que nos chegou através de uma voz materialmente convicta: “Candidata-te primeiro, e depois logo vês”. E eu, relendo a descrição de uma vaga de trabalho cuja admissão poderá alterar o rumo da minha vida, submeto os documentos requeridos pelo empregador com uma indiferença protocolar.

Só a internet nos afaga a solidão. É lá que circulam milhares de memes como o que eu fiz, nenhum igual ao outro — um inventário da condição da Geração Z, uma tragédia personalizada por milhões de utilizadores anónimos que apenas se resolve numa piada. Na ausência do mundo partilhado, podemos sempre trocar memes, e prolongar o isolamento da adolescência. Mas depois de conversar com um adulto — ou “uncle”, ou “unc”, expressão que refunda o conceito de adulto sob o cinismo virtual da Geração Z — por mais de 5 minutos durante um almoço de família em que os homens andam de camisa e os guardanapos são de pano, lembro-me que o espírito de Bretton Woods, o mesmo espírito que convenceu os meus avós a trocar o campo pela cidade nos anos 50, ainda existe.
E lá vou eu, tentar encontrar o rigor moral dos meus avós num gráfico interativo do Financial Times que justifique o desespero que paira nas redes sociais. Não encontro nada. A melhor estatística que arranjo é aquele vídeo que enviei a alguém no Instagram, em que o CEO da Anthropic explica como o Claude vai acabar com 50% dos trabalhos de white-collar nos próximos 3 anos. “Dario Amadeu?”, pergunta a minha avó. “Não, Dario Amodei, é o dono do modelo de Inteligência Artificial mais humanista”, respondo eu orgulhoso. Segue-se um breve silêncio e a minha avó começa a levantar a mesa. Eu inclino-me para ajudar e levo uma descompostura. Olho para o meu avô, impávido e sereno, brincando com as migalhas de pão sob a toalha branca, que me diz “pois é, mas tu sabes que isto era muito diferente…”. No final da narração, o silêncio regressa ainda mais carregado, e a nostalgia da vida na aldeia invade-nos aos três. O meu olhar era o mais esperançoso da mesa, porque me anima a chegada esplendorosa do apocalipse do trabalho, que me parece mais próximo que a minha entrada no mercado de trabalho, e assim poderei voltar à vida bucólica que os meus avós perderam.
Umas semanas a seguir instalei-me numa aldeia remota da Beira Alta com amigos. Existe um anjo que nos persegue passeios de Maio, escondido nos freixos à nossa passagem, e que nos devolve o espírito para enviar mais umas centenas de candidaturas. Na sexta-feira, depois de um dia inteiro a procrastinar em frente ao computador, metemo-nos no carro e fomos ver a procissão. Os muros de pedra e as Andorinhas guiando os gestos solenes do ritual cristão provinciano deixaram-nos comovidos. Parecíamos três atores famosos num enterro, tentando esconder a nossa vaidade moral atrás de uma lágrima. “É desta que venho viver para aqui; temos que voltar ao início, trabalhar na terra”, pensei eu. A marcha chegou a uma praceta onde uma capelinha austera de granito marcava o fim da aldeia. A aparição de uma luz azul a piscar no céu crepuscular deixou-nos desconfiados. Um drone seguia a procissão, comandado pelos dedos gordos e curtos de um rapaz que olhava para cima. “Para quê o drone”, disse um de nós indignado durante o regresso a casa. Este comentário despoletou uma daquelas conversas que crescem com o escuro da noite à volta do fogo brilhante. O mesmo fogo que em criança dava espessura às histórias que nos acendiam os olhos pela primeira vez. “Eu acho que a AI vai acabar com a humanidade”, disse eu sem um vestígio de piedade na voz, atirando mais um tronco para a lareira.
A clareza que o ar livre dos campos plantara na minha mente esvaneceu-se ao longo da semana seguinte. A cada hora que se desdobrava o estranho regresso ao meu quarto, abrir o ecrã fazia cada vez mais sentido. Desta vez são 30% dos white-collar que serão aniquilados ainda este ano. Fui até à sala para dizer aos meus pais que estou a pensar em encontrar um trabalho que sobreviva na era da Inteligência Artificial. “Não sei… talvez agricultura… também vi cursos de carpintaria, ou então um doutoramento em qualquer coisa”. Vincular-me a uma instituição medieval para desenvolver mais uma crítica à modernidade parece-me ser um bom pretexto para encontrar uma vida estável. Continua a haver uma afinidade entre a vida académica e a vida aristocrática, na qual é possível gozar do intelecto em troca de um subsídio público, que me seduz. Refiro-me a uma dose de ascetismo que há na vida académica e que atrai as almas semicontemplativas que receiam a convicção da vida prática. Talvez seja por isso que os meus amigos de humanidades e os meus amigos “finance bros” se evitem constantemente — uns acusam os outros de insensibilidade; os outros acusam os primeiros de sensibilidade a mais. Ambos têm razão. Eu sempre me dei bem com todos, mas o fascínio pelo absoluto também não escapou à mesquinhice da vida social. Para já, o vinho e o sol mediterrânico sacralizados pelas expressões de fruição que os portugueses guardam no bolso como moedinhas para o cafézinho são suficientes para me salvar do apocalipse.

“Tens que ter um tema de que gostes mesmo; e pelo qual estejas disposto a trabalhar durante 4 anos”, disse-me um amigo doutorado com queda de cabelo precoce. Eu dei mais um gole numa cerveja fresca e recostei-me na cadeira metálica. Ele continuou. Falou-me um pouco sobre a sua tese e os seus autores, figuras intelectuais a quem os homens melancólicos recorrem durante as noites de desespero, e que me apareceram, um a um, sentados numa sala bolorenta e vazia de uma universidade portuguesa. Na mesma noite, regressei a casa a pé e, depois de uma caminhada penosa agravada pela inclinação das ruas Lisboetas, deitei-me na cama a fazer scroll; e foi no meio desta estranha sensação de abundância que o algoritmo nos dá, independentemente da nossa disposição, que descobri que há uma filósofa na Anthropic. “Uma filósofa”, disse para mim mesmo com toda a grandiosidade do “ó”. Amanda Askell, uma escocesa nos seus 30s, cabelo descolorado e olhos azuis, e um ar angelical cyber-punk, uma personagem com quem me poderia ter cruzado num clube de leitura em Berlim, encarregue da personalidade moral do Claude. “Opus 3 is kind of a lovely model. I think a very special model”, diz ela com o olhar perdido no mar ventoso onde acaba a baía de São Francisco. A ternura sobreposta ao alheamento característico dos rostos de Silicon Valley é bizarra, mas desta vez a bizarria importou menos que a esperança que esta descoberta me deu. A esperança de que o pensamento e a ação se reconciliem e de que as conversas no meu banco de jardim também possam ascender à condição de diálogos de um podcast. “O que achas? Eu acho que trabalhar para uma instituição, com um contrato de trabalho, isso acabou… é escravatura” disse eu ao meu amigo desempregado, ele sentado e eu de pé, exaltando-me sem pudor em frente ao nosso banco de jardim. “Sim, é escravatura”, respondeu ele olhando-me de baixo, mas contagiado. “Temos que reconstruir o mundo à nossa medida, somos demasiado frondosos para caber num contrato de trabalho”, concluiu. “O que queres dizer com frondosos?”, perguntei. Ele encolheu os ombros e sorriu. Definimos o princípio político da nossa conspiração, a que chamamos “rooted cosmopolitanism”, despedimo-nos com um abraço cheio de palmadas nas costas e cada um foi para o seu lado do jardim.

Eventualmente, tal como a claridade do campo, a nossa ideia esgotou-se no curso das semanas. “Acho que não tenho perfil para falar em frente a uma câmara”, disse ele quando o interpelei a propósito do silêncio prolongado no nosso chat do Whatsapp. Pensei em seguir sozinho, e a ideia sobreviveu mais uns dias nas minhas mãos, mas o descaramento que tive em frente ao nosso banco de jardim perdeu-se, provavelmente algures no regresso a casa. No fundo do meu desalento, apercebi-me que o apocalipse dos trabalhos é antes uma doença da vontade que, não tendo onde pousar, se afoga em “conteúdos” das redes sociais embalados por uma nostalgia bíblica. Tudo isto para financiar os data centers que secarão os oceanos, desta vez, para deixar passar os Homens perseguidos pelo seu próprio planeta. Talvez a “highly agentic person”, a pessoa que, de acordo com a minha pesquisa no Google, “determina o curso dos acontecimentos em vez de se deixar levar por eles”, e que delega a hesitação à máquina até deixar de precisar de pensar, se safe, e se reencontre com Deus numa sala de servidores. É este o tipo de pessoa que o Sam Altman diz que irá sobreviver no mundo em que as ruas das cidades estão povoadas de robôs humanoides. Eu cá regressei às maratonas de candidaturas. Tive a primeira entrevista na semana passada e aguardo uma decisão sobre o meu futuro na minha caixa de email.
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Bartolomeu Marçal Grilo nasceu em 1999 e já escreveu para o Expresso e para o Público. É licenciado em Filosofia e mestre em Filosofia Política e Económica pela Universidade de Leiden.
(Shifter)

