Depois do lobo gigante, do rato-mamute e do dodó, a Colossal voltou a trazer o tema da desextinção com “um grande passo para trazer de volta o dodó e do moa gigante”. Mas será mesmo assim?
A Colossal Biosciences voltou a fazer das suas. Desta vez, a empresa sediada no Texas anunciou o nascimento de 26 galinhas saudáveis através daquilo a que chama o “ovo artificial Colossal”, descrevendo-o como um grande passo “para a desextinção do dodó e do moa gigante”.
Segundo o anúncio, feito no passado dia 19, a ideia não é apenas imitar um ovo natural, mas reformular parte da sua estrutura para que possa servir objetivos específicos de investigação e, eventualmente, conservação.
Mas a Colossal, já conhecida pelos seus projetos altamente ambiciosos de biotecnologia, voltou a criar polémica na comunidade científica, com mais um anúncio não acompanhado por dados públicos nem por um artigo científico revisto por pares, segundo a National Geographic.
O que a Colossal fez de diferente
A revista começa por explicar que há décadas que os cientistas tentam reproduzir o sofisticado ovo em laboratório, nomeadamente a casca que protege o embrião e permite trocas gasosas, conserva a humidade e cria um ambiente biologicamente estável para todas as fases de desenvolvimento. Até hoje, todos falharam.
A inovação apresentada pela Colossal assenta numa membrana semi-permeável à base de silicone, colocada dentro de uma estrutura rígida, hexagonal. Segundo a empresa, esta membrana permite a passagem de oxigénio de forma semelhante à casca de um ovo verdadeiro, enquanto mantém a humidade no interior.
Supostamente, o dispositivo inclui ainda uma janela transparente que permite aos investigadores observar diretamente o desenvolvimento do embrião.
A galinha (verdadeira) veio antes do ovo (artificial)
Se a tecnologia funcionar como a empresa diz, trata-se de um avanço histórico para a biologia do desenvolvimento, confessa o National Geographic. Mas vários especialistas sublinham que esta solução representa apenas uma parte do desafio. Até porque o ovo artificial da Colossal não substitui — pelo menos, por agora — todo o processo reprodutivo de uma ave.
De acordo com a descrição da Colossal, os cientistas selecionam ovos postos por galinhas nas últimas 24 a 48 horas, abrem-nos e transferem o conteúdo para o sistema artificial. Ou seja, a fertilização, a formação inicial do embrião, a gema e outras estruturas essenciais continuam a depender de uma galinha verdadeira.
Desextinção é mais difícil em aves
Este detalhe é particularmente importante quando se fala de desextinção, o tema que colocou a Colossal no mapa nos últimos anos, com uma tentativa de ressuscitar o dodó, com a criação de um rato-mamute ao tentar trazer de volta o mamute-lanoso ou, não esquecer, com o “colossal” anúncio de que o famoso lobo gigante de A Guerra dos Tronos estava de volta — uma novidade desmentida, mais tarde, pela própria empresa.
Ressuscitar uma ave extinta não exigiria apenas incubar um embrião num recipiente artificial. Seria necessário alterar geneticamente células numa fase muito precoce, de modo a produzir um animal com características próximas das espécies desaparecidas. Nas aves, isto é muito mais difícil do que nos mamíferos, alertam os especialistas.
Enquanto embriões de mamíferos podem ser manipulados numa fase inicial e depois implantados num útero de substituição, nas aves, o desenvolvimento do embrião, da gema e da casca ocorre dentro do corpo da progenitora.
Uma das abordagens mais promissoras passa pelas chamadas células germinativas primordiais, precursoras dos espermatozóides e dos óvulos. Em teoria, estas células podem ser isoladas, cultivadas, editadas geneticamente e introduzidas em aves vivas, que depois poderiam na teoria produzir descendentes com alterações desejadas. A Colossal diz já ter dado passos nessa direção, nomeadamente com células germinativas de pombo-comum, uma espécie relacionada com o pombo-de-Nicobar, que a empresa vê como possível modelo para projetos ligados ao dodó.
No caso da moa gigante, uma ave da Nova Zelândia que podia atingir quase 3,7 metros de altura, o problema seria ainda maior: o embrião poderia ultrapassar a capacidade de qualquer ovo de uma espécie viva usada como substituta. É aqui que o ovo artificial poderia, em teoria, desempenhar um papel, permitindo transferir o embrião para um sistema maior durante o desenvolvimento.
Mesmo assim, os especialistas ouvidos pela National Geographic sublinham que há muitos obstáculos pela frente. A Colossal ainda não divulgou dados essenciais, como a taxa de eclosão obtida com o novo sistema, nem disponibilizou resultados que possam ser avaliados independentemente.
(Tomás Guimarães, ZAP)
