O primeiro “Mecha” já não é ficção científica. Mas não veio do Japão

By | 25/05/2026

A China apresentou o seu primeiro robô gigante: um “Mecha” com 3 metros de altura, que abre uma nova era na indústria e na robótica. A épica batalha de Ripley contra a rainha xenomorfa já não parece assim tão distante.

A 12 de maio, o fundador da Unitree Robotics, Wang Xingxing, introduziu-se na cavidade torácica de um robô de metal gigante, com 2,98 metros de altura, deu alguns passos e destruiu uma parede de tijolos de betão. Um único murro e a parede desapareceu.

A reação dos meios de comunicação chineses foi imediata e exuberante: “a Unitree acaba de construir um ‘Gundam’!” Claramente exagerado, mas com um fundo de verdade: o Unitree  GD01 parece a primeira versão de algo muito maior. Não em tamanho, mas em alcance, diz o El Confidencial.

A China está a fazer uma aposta total na inteligência artificial incorporada: robôs com corpos físicos que percepcionam e atuam no mundo real. E esta aposta tem aplicações práticas  simultaneamente na vida quotidiana, na logística, na indústria pesada, nos cuidados de saúde e no domínio militar.

Por trás do espetáculo deste novo robô gigante, capaz de passar de uma marcha a quatro patas, de um modo verdadeiramente perturbador e demoníaco, para se mover de forma bípede, há um ecossistema industrial inteiro, que está já a remodelar silenciosamente as infraestruturas de fabrico do país, os terminais aeroportuários e as redes eléctricas de alta tensão.

Estamos no início desta mudança, e as suas consequências práticas mal começam a emergir.

Construído integralmente em liga de titânio e alumínio de grau aeroespacial, com uma estrutura exterior em fibra de carbono, o GD01 foi concebido e desenvolvido pela própria Unitree, que, a par da também emergente AgiBot chinesa, emergiu possivelmente como o fabricante de robótica mais relevante do mundo.

É um título a que a Tesla começou por aspirar, mas está longe de alcançar, com umas irrisórias 150 unidades do Optimus entregues em todo o ano de 2025, por comparação com os 5.500 robôs que a Unitree entregou.

Pior, os Optimus parecem incapazes de competir em funcionalidade e destreza com os Unitree — que, aparentemente, já não produzem apenas robôs que robôs que “não fazem nada — e todos da mesma maneira“.

O GD01 mede cerca 2,98 metros de altura, pesa 500 quilos e tem um preço aproximado de 3,9 milhões de yuans, cerca de 490 mil euros.  A empresa chama-lhe o “primeiro mecha transformável produzido em massa do mundo, um título que lhe faz justiça.

Embora alguns entusiastas já tivessem construído Mechas anteriormente, tratava-se de protótipos concebidos para exibição e não para trabalhar, e nenhum deles tem as extraordinárias capacidades e destreza que o GD01 demonstra.

O robô alterna entre dois modos de deslocação: ereto sobre duas pernas ou apoiado em quatro membros. O modo quadrúpede funciona exatamente como seria de esperar: baixa o centro de gravidade, distribui o peso por quatro pontos de contacto e a máquina mantém-se estável em terrenos irregulares que fariam tombar qualquer sistema bípede.

As imagens de demonstração do vídeo de lançamento são reproduzidas em velocidade normal e sem qualquer edição, e vê-lo deslocar-se em modo quadrúpede provoca uma estranha inquietação. De alguma forma, o modo como avança à semelhança de um predador infernal causa arrepio.

Um sistema integrado de inteligência artificial trata da perceção espacial e da coordenação dos membros em tempo real, algo indispensável para o conseguir sem que o piloto tenha de o controlar manualmente. No modo bípede, funciona como qualquer outro robô humanoide dos que se têm visto até agora.

A Unitree afirma que, para já, o GD01 é vocacionado para “mercados de alto valor”: turismo cultural, utilização privada, resgates de emergência e “operações especiais industriais”. Mas o rumo do que está por vir é evidente.

Um exosqueleto pilotado capaz de caminhar, transformar-se e atravessar paredes a murros é um percursor direto das máquinas que poderão operar em obras de construção, realizar tarefas de manutenção pesada em pontes e barragens, trabalhar no interior de centrais nucleares ou em minas desmoronadas, e movimentar cargas massivas em portos industriais.

E, dado o grau de integração do Exército Popular de Libertação no sector tecnológico privado da China, imaginar uma evolução militar desta plataforma, autónoma ou copilotada, armada ou não, não é nenhum absurdo. É praticamente uma entrega já programada.

A imagem de Ellen Ripley em Aliens II num exosqueleto de carga a transportar caixas de mísseis de várias toneladas e a combater a rainha xenomorfa já não parece assim tão distante. Já só nos falta a rainha xenomorfa (que se saiba).

(ZAP)