Tornou-se numa das vozes judaicas mais destacadas a criticar Israel. O trabalho que tem feito é uma denúncia do papel das grandes tecnológicas no projeto sionista de Israel e no genocídio em curso. Dias antes de participar no INDEX, o jornalista Antony Loewenstein encontrou-se por videochamada com o editor do Shifter João Gabriel Ribeiro.
Sistemas automatizados de vigilância e acompanhamento de alvos. Armas semi-automáticas. Mecanismos de alerta e previsão de comportamentos de massas. Fronteiras fortificadas. Pontos de controlo intransponíveis. Interceção de comunicações digitais. Ocupação de frequências eletromagnéticas. Infraestrutura digital para que tudo isto corra sem problema 24 horas por dia, 365 dias por ano.

Para além da face mais visível da guerra de Israel à Palestina, que todos os dias nos chega pelos diversos meios de comunicação, uma espessa camada tecnológica vai moldando este conflito como um dos mais importantes dos nossos tempos. A Palestina não é só o palco da ocupação mais duradoura e restritiva, mas também um laboratório para testar tecnologias, processos e estratégias de repressão. Essa é a tese central de The Palestine Laboratory, um livro de Antony Loewenstein, publicado em Maio de 2023 pela Verso. Uma obra reveladora da dimensão tecnológica do projecto sionista.
Loewenstein, descendente de uma família judaica, cresceu e viveu grande parte da sua vida na Austrália e conta com uma já longa e reconhecida carreira enquanto jornalista. Ao longo das mais de duas décadas como profissional, cobriu temas diversos onde quase sempre explora as relações entre guerra/terror, religiões, ideologias e capitalismo. Não obstante à qualidade dos seus outros trabalhos, também eles merecedores de prémios e reconhecimentos globais, foram as suas investigações sobre Israel e a Palestina que o notabilizaram no plano internacional. My Israel Question (2007) foi o primeiro dos trabalhos onde abordou abertamente o tema que, ao longo das últimas décadas, tem vindo a aprofundarem obras traduzidas e distribuidas um pouco por todo o mundo, que procuram explorar as ramificações do conflito. Germany ‘s Israel Obsession, documentário publicado em 2025, é o último desses registos, focando-se nas consequências indiretas do caso Israel-Palestina na Alemanha, e foi precisamente por aí que começou a nossa conversa por videochamada com o jornalista.
João Gabriel Ribeiro (J.G.R.) — Tens sido uma das vozes judaicas mais destacadas a criticar Israel. Houve algum momento em que sentiste que tinhas de assumir esta abordagem face ao que está a acontecer?
Antony Loewenstein (A.L.) — Não diria que tenha havido um momento específico ou um incidente particular. Menciono isso brevemente no meu livro The Palestine Laboratory. O livro, como sabes, não é sobre mim. Apareço lá, mas de forma relativamente menor, e isso foi uma decisão deliberada. Mas quando penso nisso, acho que foi quando estava a crescer. Eu cresci em Melbourne, uma das maiores cidades da Austrália, e havia uma ideia muito clara de que se crescesses judeu apoiavas Israel, eras acrítico em relação a Israel. Isso está a mudar, mas ainda é bastante comum em muitas famílias judaicas.
No meu caso, não tenho memória de qualquer interação com palestinianos. Zero. Tenho 51 anos, por isso é possível que me tenha esquecido, mas tenho quase a certeza de que não houve nenhuma — e de que isso era deliberado. Os meus pais nasceram na Austrália, os meus avós tiveram de fugir da Alemanha Nazi. Eram da Áustria e da Alemanha, chegaram à Austrália em 1939, mesmo quando a guerra estava a começar, e recordo-me claramente de muitos membros da minha família dizerem repetidamente que os palestinianos eram basicamente os novos Nazis, que eram uma ameaça para nós enquanto judeus; que Yasser Arafat, que era então o líder dos palestinianos, era essencialmente como Adolf Hitler. Quando digo isto agora parece ridículo, mas quando cresces numa bolha, muita gente acredita nisso. E isso acontece ainda hoje, infelizmente.
Portanto, não houve um momento único, um incidente, uma interação ou discussão específica. Até porque eu não tinha visitado Israel-Palestina até 2005, ao contrário de muitos jovens judeus. Existe um programa que incentiva jovens judeus a ir a Israel — e penso que é igual em Portugal —, que é uma visita de propaganda. Normalmente a visita é gratuita e jovens de 18, 19 anos vão, divertem-se, bebem, encontram pessoas. Obviamente a viagem é muito política, não é apenas sobre sexo e álcool. Mas menciono isso porque é assim que é vendido — como uma espécie de viagem divertida onde, por acaso te dizem: “Ah, e a propósito, Israel é o teu melhor amigo e deves amá-lo. Os palestinianos não existem. E são todos uma ameaça para nós.” Nessa fase esperam que, enquanto jovem judeu, só queiras namorar, casar ou ter filhos com outros judeus. Disseram-me isso constantemente quando estava a crescer. Portanto, não houve um momento único.
Já agora, eu não fui a essas viagens, diga-se de passagem. Estive perto de ir, mas por várias razões não aconteceu. E pergunto-me sempre o que teria acontecido se tivesse ido. Ainda que conheça pessoas que foram e ainda assim se tornaram muito críticas de Israel.
Contudo, e concluíndo, o que aconteceu é que à medida que fui crescendo, fui ficando cada vez mais irritado, diria, com o racismo que via na comunidade judaica, incluindo na minha família, em relação a palestinianos, árabes e muçulmanos. Não eram só os palestinianos.
“Israel tornou-se quase um canário na mina de carvão”
J.G.R.— Antes de entrar no The Palestine Laboratory, quero tocar brevemente no teu documentário para a Al Jazeera, A German New Obsession, sobre esta obsessão que acaba por alimentar a extrema-direita, e que é essencialmente contra o povo judeu. Gostava que explorasses um pouco este paradoxo.
A.L. — A razão pela qual fiz o filme é porque sou australiano, mas também sou cidadão alemão. Tenho dois passaportes. Obtive o passaporte apenas há cerca de 15 anos porque a minha família, embora de uma cidade alemã, não era reconhecida pelo governo da época como tal. Diziam que eram não-cidadãos. Era assim que os Nazis viam as coisas. Entretanto, a guerra acabou e, nos anos 1950, a Alemanha ofereceu aos judeus ou aos seus descendentes a possibilidade de voltarem a ser cidadãos, de restabelecer a cidadania. Durante praticamente meio século, a maioria dos judeus, incluindo a minha família, disse essencialmente que não à Alemanha. Não o disseram abertamente, mas estavam questionavam-se: por que razão quereria ser alemão depois do que nos fizeram? Mas, com o tempo, especialmente neste século, isso mudou e muitos judeus têm agora cidadania alemã. Há mesmo bastantes israelitas que vivem em Berlim, particularmente, nos últimos 15 anos. Na sua maioria são mais liberais, progressistas.
O que quis explorar nesse filme foi a situação na Alemanha, que acompanho há muito tempo, muito antes do 7 de Outubro, e os relatos de uma visão muito draconiana e racista que ouvia mais recentemente. É claro que estas visões já existiam há muito tempo, mas tudo acelerou após o 11 de setembro, há 25 anos, e não é apenas sobre Israel-Palestina. É mais esta ideia de que a identidade alemã — que, claro, depende se estamos no Leste ou no Oeste após a guerra — sempre assentou no princípio de que era preciso encaixar numa mundivisão onde Israel está no centro. Por outras palavras, por causa do que os alemães fizeram aos judeus (claro, isso aconteceu antes de Israel existir), nós, enquanto alemães, temos aparentemente uma responsabilidade histórica de expiação da nossa culpa. É assim que eu vejo: não é o que eles dizem, mas é o que eu digo. Nós, os alemães, temos de expiar a nossa culpa pelo que fizemos aos judeus. E a forma como demonstramos isso no século XXI é uma dedicação total a Israel, independentemente do que este faz.
Desde 7 de Outubro, a Alemanha tornou-se o segundo maior fornecedor de armas a Israel e têm sido incrivelmente apoiantes das ações israelitas na Cisjordânia e em Gaza. Sim, ocasionalmente fazem comentários críticos e dizem: “Ah, por favor não construam colonatos na Cisjordânia.” Mas é uma retórica vazia. Não tem significado.
E penso que, em última análise, o impacto disso, como mostro no filme, só tem piorado. Não é que eu esperasse que algo mudasse, mas tem mesmo vindo a piorar. A opinião pública está a mudar: há uma opinião pública crescente, incluindo de algumas pessoas da direita, que se opõe ao que Israel está a fazer. Mas se as razões para o fazerem é solidariedade com os palestinianos ou racismo em relação aos judeus, é difícil de saber. Provavelmente é um pouco de ambos. Mas pensando no impacto na política alemã — no apoio acrítico a Israel, a demonização total dos protestos pró-Palestina, a criminalização de muito discurso, a tentativa de dizer que qualquer alemão que tente fazer uma comparação entre o Holocausto nazi e o Genocídio de Israel em Gaza está a difamar o Holocausto alemão e, portanto deve ser processado, as pessoas processadas por dizerem slogans como ‘from the river to the sea, Palestine will be free’ — , em muitos aspetos, a extrema-direita (AfD) foi beneficiada.
É importante dizer que a AfD não está a crescer apenas por causa de Israel-Palestina, mas é um factor. Como a extrema-direita em muitos países, eles estão a crescer por causa da insegurança económica, por causa de diversos problemas… A Palestina não é o único problema, claro, mas está a permitir à AfD branquear a sua própria história e o seu próprio registo. Não acho que todos os membros da AfD sejam Nazis — isso seria obviamente ridículo. Mas certamente muitos líderes da AfD, políticos e apoiantes, são incrivelmente racistas, odeiam muçulmanos, odeiam o islão, odeiam a imigração de países muçulmanos. Não lhes importa que um australiano vá para lá, mas não queriam um refugiado sírio, por exemplo. E o caso Israel-Palestina permite-lhes lavar a sua imagem, dizer simplesmente: ‘Espera, amamos Israel, portanto amamos os judeus. Não nos podem acusar de antissemitismo.’ E, infelizmente, o que o governo atualmente no poder, que tem elementos da direita, mas não de extrema-direita, está a fazer é abrir a porta à possibilidade real de que um governo do AfD, ou certamente uma coligação do AfD, se torne muito mais provável. E o resultado disso não seria muito diferente do que aconteceria se a Frente Nacional tomasse o poder em França nas próximas eleições, uma realidade profundamente parecida com a de Trump.
Israel tornou-se quase um canário na mina de carvão. No processo de fazer o filme não fiquei propriamente chocado, porque o fizemos com a expectativa de que íamos encontrar esse tipo de loucura lá, mas mesmo assim foi muito perturbador. E penso que, em muitos aspetos, isso está a levar a muito mais antissemitismo. É uma espécie de filo-semitismo — este amor completamente doentio, estranho e obsessivo. Estou a usar as aspas neste amor pelos judeus. Porque, primeiro, na realidade não há assim tantos judeus na Alemanha de qualquer maneira, porque os mataram a todos. E em segundo lugar, parte de uma estranha idealização do que são os judeus. Muitos judeus não apoiam Israel, são críticos de Israel, apoiam os palestinianos. E isso só aumentou no último ano. Portanto, sim, a Alemanha tem uma crise de identidade real. E infelizmente não vejo muitas evidências de que vá melhorar em breve.
“Preocupa-me que o desejo obsessivo de supremacia judaica extrema esteja a pôr-nos a todos em perigo, em nome de uma crença ilusória de que isso nos vai proteger dos antissemitas e dos nazis“
A.L. — Estás em Portugal, por isso conheces essa situação melhor do que eu, mas isso está a acontecer globalmente. E preocupa-me profundamente. Como sabes, houve um ataque terrorista terrível aqui em Sydney, em Bondi Beach, em Dezembro. Houve ataques contra judeus em Londres nos últimos meses, apunhalamentos, bombas incendiárias…
É impossível generalizar porque, por exemplo no caso daquele apunhalamento da semana passada em Londres, parece que a pessoa tinha problemas graves de saúde mental e também esfaqueou um muçulmano. É um quadro complexo, mas não tenho dúvidas de que o facto de os apoiantes cegos de Israel — sejam judeus ou não-judeus — dizerem que não há diferença entre judaísmo e sionismo, que é antissemita ser demasiado crítico ou mesmo dizer qualquer coisa crítica em relação a Israel, e as tentativas crescentes de silenciar, censurar e intimidar os críticos, contrasta com o que as pessoas, particularmente os jovens, estão a ver no telemóvel todos os dias no TikTok, no Instagram, seja qual for a plataforma. Com o que estão a ver que Israel está a fazer em Gaza e na Cisjordânia — demolições, tortura, assassinatos, massacres, violações.
Claro que nada disso justifica o antissemitismo. Claro que não. Mas acho que tudo tem a ver com a forma como o conceito de Sionismo sempre partiu da crença de que os judeus nunca estariam seguros em lado nenhum no mundo exceto no nosso próprio Estado. Não há dúvidas de que, quando o Sionismo foi fundado, o antissemitismo na Europa estava generalizado; não se pode negar isso, o antissemitismo existia antes do Holocausto. O problema, na minha perspectiva, é que a solução que foi dada foi a criação de um Estado de supremacia judaica que discrimina fortemente contra qualquer pessoa que não seja judia. E, nesse sentido, não nos podemos surpreender demasiado que o antissemitismo a sério esteja novamente a crescer. O problema é — e não posso falar por Portugal, mas certamente em muitos outros países, e calculo que seja igual aí — que a chamada liderança judaica, o establishment judaico, o lobby pró-Israel, chamem-lhe o que quiserem, está mal equipado para lidar com esta questão. Porque a sua posição é basicamente acreditar e afirmar que todos os judeus apoiam Israel, apoiam Netanyahu, apoiam a guerra em Gaza e na Cisjordânia e no Líbano e na Síria e sabe-se lá onde mais… Vivem com esta crença ilusória de que, de alguma forma, isso os está a tornar a eles e aos israelitas mais seguros. Mas, na verdade, está a ter o efeito oposto.
E se Netanyahu perder as eleições este ano, o que é uma possibilidade, o sucessor provavelmente não vai ser muito diferente. Isto não é um problema do Netanyahu. O Netanyahu é terrível, não o estou a defender, mas os problemas vão muito, muito mais fundo. Estão no seio da sociedade israelita, a sociedade judaica israelita, que eu acho que se pode dizer que é genocida. As sondagens mostram que uma vasta maioria dos judeus israelitas apoia a limpeza étnica dos palestinianos na Cisjordânia e em Gaza. Não é só o Ben Gvir. Não é um punhado de lunáticos. Há dissidentes e críticos judeus, e sou amigo de alguns deles, e estão a fazer um trabalho extraordinário, mas são uma minoria minúscula.
Então tudo isto alimenta os comportamentos que estamos a ver — particularmente de pessoas mais novas — porque, de certa forma, as pessoas são incapazes de separar esta ideia de Judaísmo e Sionismo, porque mesmo Israel diz que não há diferença. Os líderes judaicos locais dizem que não há diferença. Agora, o antissemitismo existiria se Israel não existisse? Sim, existiria. Existia muito antes de Israel existir. Portanto, não estou a sugerir que, se Israel deixar de existir amanhã, desaparece de alguma forma o antissemitismo. O ódio aos judeus, como sabem, remonta a milénios e por uma série de razões. E, infelizmente, vai continuar. Mas preocupa-me que o desejo obsessivo de supremacia judaica extrema esteja a pôr-nos a todos em perigo, em nome de uma crença ilusória de que isso nos vai proteger dos antissemitas e dos nazis. Simplesmente não vejo qualquer evidência disso. Pelo contrário, vejo o oposto.
“Vejo a crescente agenda tecno-fascista — em particular a da Palantir e de outros — não como sendo simplesmente financeira, mas muito ideológica”
J.G.R.— Passando ao teu livro, The Palestine Laboratory: tendemos a ver os espaços onde ocorrem genocídios e guerras como descontinuidades no espaço da ordem global. Não falamos do Sudão, por exemplo, como um laboratório de tecnologia. Mas este caso de Israel é completamente diferente, porque não é uma descontinuidade no espaço; é como uma aceleração desse espaço. Achas que isto é uma prova de que o establishment tecnológico da Big Tech é como uma aliada do governo israelita? É cúmplice deste genocídio? A Intel está a construir chips perto de Gaza…
A.L. — Acho que, de certa forma sim, e toquei nesse assunto no livro. Obviamente o livro foi escrito antes de 7 de Outubro, mas a tese só ficou mais sólida desde então. Na realidade, parece que se provou o ponto, infelizmente.
Como dizes, a Intel está a produzir chips em Israel a 20 quilómetros de Gaza. Portanto, de certa forma, vejo que as Big Tech — Palantir, Amazon, Google, Microsoft — estão a usar Israel como laboratório, ou, devo dizer, Gaza ou a Cisjordânia como laboratório. Têm fornecido enormes quantidades de serviços de dados ou de cloud a Israel. Isto começou antes de 7 de Outubro, mas acelerou desde então. E, de certa forma, não o fazem apenas pelo dinheiro. Até porque Israel é um país pequeno, com apenas 10 milhões de pessoas. Os contratos são de centenas de milhões de dólares, mas são relativamente pequenos para uma empresa como o Google, que vale sabe Deus o quê.
Claro que o dinheiro é um fator, não estou a dizer que o fazem pelo amor a Israel. Mas penso que há uma mudança significativa em partes do Silicon Valley para algo diferente. Isto já estava a acontecer antes de Trump regressar como presidente, mas foi acelerado, e está bem claro nos devaneios que temos visto de pessoas como o Alex Karp ou Peter Thiel [fundadores da Palantir]. A forma como veem o mundo e a América, o militarismo, as armas e Israel, é singular — acreditam no chauvinismo ocidental, na supremacia ocidental, na ideia de que há uma hierarquia de boas pessoas. Que os ocidentais, as pessoas brancas, estão no topo, e os palestinianos, libaneses, sírios e afegãos estão no fundo. E que, portanto, nós no Ocidente temos aparentemente o direito de matar muitos deles para manter a nossa própria supremacia. Israel encaixa muito bem nessa visão do mundo. E há muitos em Silicon Valley que a partilham. Não estou a dizer todos, mas muitos.
Por isso, vejo a crescente agenda tecno-fascista — em particular a da Palantir e de outros — não como sendo simplesmente financeira, mas muito ideológica. Estão alinhados com Israel, na convicção de que estão a testar os seus próprios serviços de cloud ou de dados em Israel, serviços esses que outros países inevitavelmente irão comprar. Ainda não sabem quem. Mas obviamente, outros países usam serviços de cloud e tecnologias do género para fins militares. Os EUA, como certamente saberás, na sua recente guerra contra o Irão, usou ferramentas da Anthropic e da Palantir no targeting do Irão. Se isso esteve envolvido em alguns dos crimes de guerra que os EUA e Israel cometeram ao matarem civis, é difícil saber nesta fase. Mas pode ter estado.
Já em Gaza, não há dúvida. Temos fortes evidências de que o uso de armas assistidas por IA foi um acelerador-chave de crimes de guerra; ou seja, que Israel não teria cometido esses crimes de guerra sem ferramentas de IA. Acho que não há qualquer dúvida sobre isto. Podiam simplesmente ter bombardeado o sítio todo em saturação, certo? Não precisam de IA para isso. Mas, de certa forma, acho que a IA foi vendida como uma espécie de guerra limpa: “Vamos só atrás dos maus.” “A tecnologia é tão boa que vamos atingir o quarto deles.” E isso criou a ilusão de que a guerra é, de alguma forma, mais aceitável — e não é. Até porque, a meu ver, o objetivo depois de 7 de Outubro era a destruição em massa dos palestinianos. Não era só ir atrás do Hamas.
O único aspeto positivo que vejo no meio de tudo isto é que há uma resistência crescente a esta agenda tecno-fascista. Vejo isso. Vejo-o online. Vejo um número crescente de funcionários a resistir. O problema é que é demasiado pequeno e chega demasiado tarde. E, em última análise, isso preocupa-me.
Esta fusão — de hardware militar israelita, software, drones e guerra assistida por IA — tenta afirmar-se como a máquina de matar suprema. Só que, na realidade, a razão pela qual aconteceu o 7 de Outubro — para além, obviamente, do engenho do Hamas em conseguir romper a linha militar israelita — foi precisamente esta dependência excessiva e ilusória da tecnologia. Foi uma espécie de cegueira que, de algum modo, acreditava que o Hamas e os palestinianos se contentariam em viver como prisioneiros para sempre, sob o jugo da tecnologia. Podem ter toda a tecnologia do mundo — e Israel tinha imensa tecnologia à volta de Gaza, eu próprio a vi — mas foi desativada pelo Hamas numa questão de minutos.
“Preocupa-me que aquilo que Israel esteja a vender — para além da impunidade, do armamento e da vigilância — seja esta ideia de etnonacionalismo“
J.G.R.— Uma questão que quero destacar nesta ideia de laboratório é que não é apenas tecnologia que pode ser exportada — alguns processos, alguns comportamentos também podem ser exportados. Achas que este tipo de impunidade de Israel face a organizações globais, como as Nações Unidas, por exemplo, também pode ser exportada? Porque demonstra que este establishment tecno-fascista tem mais poder do que as instituições globais?
A.L.— Acho que não há dúvida sobre isso. E uma das coisas que tentei mostrar no livro — e no filme, já agora — foi esta ideia de como é sedutor, para muitos outros países, verem aquilo de que Israel se safa. Estou a falar, mais uma vez, de muito antes do 7 de Outubro: da ocupação interminável — a mais longa dos tempos modernos —, da Cisjordânia e de Gaza. Não há nenhuma responsabilização real, nem sequer se coloca a questão. Neste momento parece que de facto não existe nenhum mecanismo para responsabilizar Israel por isso.
Acho que muita da tecnologia de armamento e de vigilância que Israel testou nos palestinianos, e que depois exporta, é comprada por outros países que, em alguns casos, querem apenas a tecnologia e mais nada. Querem comprar o Pegasus, querem comprar um drone, claro. Mas outros países estão a comprar algo mais do que isso: estão a comprar quase lições de impunidade — aconselhamento sobre como fazê-lo. Mas Israel é um caso único, por tantas razões. E muitos outros países nunca terão esse tipo de impunidade.

