Em novembro de 2025, Rosalía apresentou ao mundo uma proposta musical que chegou como uma ode orquestral à fé. Lux foi recebido como uma proposta inovadora, uma luz no tempo das trevas. Numa passagem por Lisboa perto da época Pascal, Carolina Franco reflete sobre o lugar da fé no mundo contemporâneo e na indústria da música.
There’s a crack in everything
That’s how the light gets in
— “Anthem”, Leonard Cohen
Domingo de Páscoa. Abro a janela para deixar entrar a luz, ligo a televisão e está a dar a missa. Viajo no tempo para a altura em que, por esta hora, já fazia silêncio à espera de ouvir os sinos que davam conta de que estava a chegar o compasso. Em casa, uma mesa farta para receber o padre e os seus acompanhantes que provavelmente permaneceria intocada. Chegam, chove água benta. “Jesus Cristo ressuscitou”. Respondemos em coro: “Aleluia, aleluia”.
Houve uma altura em que a Páscoa era a minha altura favorita do ano: significava ter uma roupa nova, comer a minha comida favorita, fazer passadeiras de flores para receber o compasso, arranjar uma técnica nova para fingir que beijava a cruz que já tinha sido beijada por centenas de pessoas antes, escolher o raminho de palma entrançado mais bonito para dar à minha madrinha. Nos anos mais generosos, também significava ir a correr para a casa de outros membros da família, ou de amigos de família, para receber novamente o compasso. Mais chuva de água benta, a técnica para beijar a cruz aprimorada e risinhos cúmplices com as restantes crianças na sala. “ALELUIA, ALELUIA.”
Muitas famílias que eu conhecia tinham uma sala em casa que só abriam duas vezes por ano: para celebrar o nascimento de cristo e honrar a sua morte. Que é como quem diz na ceia de Natal e no almoço de Páscoa. Sempre me fez alguma confusão, esta ideia de ter uma sala fechada a sete chaves com as luzes apagadas e um cheiro a mofo incrustado nos móveis de madeira trabalhada. Era nessa sala que recebiam o compasso.
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Adormeço no sofá depois do almoço. Acordo com os olhos ainda pesados e ouço “Berghain”, de Rosalía, a sair da televisão. Será que estou a sonhar? Comecei este texto a pensar em Rosalía e na sua era católica e, de repente, sou acordada pelo single do seu mais recente disco Lux a ditar o compasso de uma atuação de ginástica. Rosalía está prestes a apresentar-se em dois concertos na Meo Arena e, mesmo sem ter ido a nenhuma das paragens da tour até agora, sinto que já conheço cada momento: sei qual é o alinhamento, o guarda-roupa, quais são as referências artísticas convocadas em cada parte, quais são os momentos de catarse e os de interação com o público. Todas me apareceram sem aviso no feed. Como uma espécie de aparição mariana no tempo das redes sociais.
Entre as diferentes referências na arte e na música clássica, há uma que atravessa todo o espetáculo — porque atravessa todo o disco. Deus. E na Semana Santa, dou por mim a pensar nos hábitos católicos que fui abandonando e nas novas linguagens que têm marcado o discurso católico.
Depois de muitas especulações sobre como seria o cenário de Lux — sobretudo depois da apresentação oficial do disco em Barcelona, onde Rosalía surgiu deitada num emaranhado de tecido branco —, as imagens que nos chegam sobre o seu concerto mostram-nos como é que Rosalía quer ser vista. O palco principal converte-se numa espécie de sala de museu e a artista surge como uma reencarnação da jovem bailarina esculpida por Edgar Degas, uma personagem de “El Aquarelle” de Goya, talvez “As Meninas” de Velásquez, a Vénus de Milo (com um piscar de olho a Isabelle de Dreamers), quiçá uma Vitória de Samotrácia, definitivamente uma Mona Lisa de Da Vinci. Do lado de cá, entre a plateia, uma orquestra organizada num palco secundário em forma de crucifixo acompanha todo o concerto. Pode parecer puro name dropping (ou, como diria alguém algures na internet: parem de falar do concerto da Rosalía como se fosse uma obra de Llorca), mas tem uma clara intenção.
Desde que lançou Berghain, com um vídeo marcante que encaixou uma orquestra nos lugares mais inusitados, Rosalía assumiu-se como a artista pop com referências eruditas e uma experiência religiosa. Pop o suficiente para ser banda sonora de um esquema de ginástica, erudita e espiritual que baste para puxar dos galões conceptuais e das imagens sagradas. E a tour é o culminar dessa viragem.
Lux é, segundo a própria Rosalía, uma resposta à dificuldade de pôr em palavras o que sente em relação a Deus. Rosalía sempre fora vocal quanto às referências religiosas no seu entorno (da capa de El Mal Querer ao videoclipe de “Malamente”, até à mensagem de áudio da avó na faixa “G3 N15” do disco Motomami), mas não se tinha assumido publicamente como crente em Deus. Até chegar a Lux. O quarto disco da artista catalã reflete sobre as contradições que existem num caminho de fé e homenageia santas e monjas de vários países e religiões, cantando na língua de origem de muitas delas. Só neste disco canta em 13 línguas. Mas são os costumes católicos que assumem o protagonismo, tanto na imagética como nos temas que convoca, como o sacrifício, a clausura, a ideia de aparição e celibato, ao longo de toda a jornada musical.
Santa Teresa de Jesus, Santa Clara de Assis, Ryōnen Gensō ou a filósofa Simone Weil (mais uma referência assumida de Rosalía em Lux) viveram vidas despojadas renunciando a riqueza. E também Rosalía parece dar a entender que se quer distanciar dos excessos e aproximar da luz, como quando diz na faixa “Sauvignon Blanc”:
“Mi luz la prenderé / Con el Rolls-Royce que quemaré
Sé que mi paz yo me ganaré / Cuando no quede na’, nada que perder
Ya no quiero perlas ni caviar / Tu amor será mi capital”
Os sinais na sua aproximação ao catolicismo não se ficam por aí. Na capa do disco, vêmo-la com uma espécie de hábito de freira moderno, que se confunde com um colete de forças. Nas aparições públicas de promoção do disco surgiu sempre vestida em tons neutros, com uma auréola pintada no cabelo, por vezes com um lenço na cabeça também em tons neutros. No dia do lançamento do disco, apareceu de surpresa no meio de uma multidão de fãs em Madrid, que começaram a correr atrás de si como apóstolos que seguem a sua messias. Numa passagem pelo Brasil, fez a apresentação de Lux no Cristo Redentor perante um público composto por celebridades, 30 fãs escolhidos pela Sony Music e um padre para abençoar o momento — que contou também com a participação de Carminho, com quem partilha a música “Memória”. E começou a sua tour em Lyon, um dos centros do catolicismo na Europa.
Numa longa entrevista com Zane Lowe diz que sente que não conseguiria ter feito este disco antes e que agora também foi o momento certo para o lançar. Sabemos que se referia à sua busca interior pela fé, mas o que é certo é que o disco também surge num momento particular de crescimento de popularidade da igreja católica.
Rosalía não é A Messias, é mais uma RP de Deus
Subitamente, na velocidade e com a desfragmentação em que a internet nos convida a viver, pode parecer que há uma onda global de reconciliação com a fé movida pelo disco de Rosalía. Nas críticas feitas a concertos desta tour, houve quem dissesse que “Rosalía está a transformar a Pop numa experiência religiosa” e até quem escrevesse em antecipação da sua passagem por Portugal afirmando a grandiosidade da sua fé e o sucesso de um disco inspirado em santas. Mas será Rosalía a responsável por uma aproximação da fé, a verdadeira criadora de um movimento, ou apenas uma peça que chegou na altura certa para o puzzle estar completo? Um mito que ajuda a consolidar um momento.
Num artigo publicado no infobae, a jornalista espanhola Elena L. Villalvilla traz algumas explicações e dados concretos sobre aquilo a que chama de “auge da estética religiosa e do ‘catolicismo cool’ na internet”. Sergio Antoranz López, professor de Estética e Sociologia da Cultura na Universidade de Alcalá, diz-lhe que estamos a viver um auge da apologia da vida espiritual e da religião que tem sido como “contrapeso de outros fenómenos que evidenciaram a nossa vulnerabilidade” como a pandemia, o boom da Inteligência Artificial ou a precariedade laboral. E os exemplos desta proliferação são vários.
Debruçando-se especificamente sobre o contexto local, Elena L. Villalvilla destaca a popularidade do grupo católico Hakuna, criado numa Jornada Mundial da Juventude e hoje capaz de juntar 30.000 pessoas em salas de espetáculos, a popularidade do cantor galego Íñigo Quintero que fez uma canção sobre Deus que se tornou um sucesso (inclusive por cá), o retiro católico Effeta e fenómenos como a ascensão dos padres TikTokers e influencers católicos, como elementos de uma constelação onde Rosalía pode ser a estrela mais brilhante, mas não vive isolada.
Embora no seu artigo aponte para um decréscimo global no número de fiéis no contexto espanhol, noutro artigo do jornal El Español os números são diferentes — pela primeira vez desde 1994 registou-se um aumento de jovens católicos entre os 18 e os 24 anos, passando de 33,9% em 2021 para 38,5% em 2025. O artigo falava especificamente sobre jovens que cresceram com pais ateus e encontraram um caminho de fé já em adultos. Uma realidade também ilustrada no filme basco Los Domingos, recentemente estreado em Portugal, que acompanha a história de Ainara, uma adolescente que descobre que quer ser freira depois de ter feito um retiro católico.
Em França, um dos cenários principais de Lux de Rosalía, o fenómeno parece repetir-se. O número de católicos adolescentes e jovens adultos não pára de aumentar, com missas cheias de gente e o números de batismos a registar a mesma tendência. Só nesta Páscoa, mais um recorde foi atingido: mais de 20.000 adultos e adolescentes foram batizados.
Por cá, dados mais recentes da Conferência Episcopal Portuguesa, que datam de 2023, apontam na mesma direção, e dão conta de um aumento do número de batismos, mais mil do que há 10 anos. Entre as razões para o aumento, a Conferência Episcopal Portuguesa indica os pedidos de jovens adultos, de imigrantes e o pontificado do Papa Francisco. E esta última não é um pormenor.
Há um antes e depois de Francisco na Igreja. Francisco fez da sua principal missão abrir a Igreja e aproximá-la dos jovens. O documentário Amen. Francisco Responde traduz bem a sua proposta para a instituição que liderou: nele um grupo de dez jovens de diversas partes do mundo viaja até Roma para lhe fazer perguntas. “O papa recebe salário?”, “Sabe o que é uma pessoa não-binária?”, “Se eu não fosse feminista seria melhor cristã?”, “Pode falar sobre o tema da pedofilia na Igreja?”. E Francisco responde-lhes a todos, dedicando a mesma atenção às suas preocupações e desconfortos com a própria igreja.
Para algumas pessoas que se distanciaram da Igreja pelos escândalos e a prevalência dos valores conservadores, o pontificado deste homem e as suas sucessivas intervenções — como o célebre “Todos, Todos, Todos” — voltaram a questionar o lugar da fé nas suas vidas.
Parte desta abertura da Igreja e aproximação aos jovens, como Elena L. Villalvilla menciona, coincide com a ida da Igreja para onde eles passam mais tempo: as redes sociais. Se o Pontífice já era um sucesso no Twitter, em vários países, como em Espanha ou até cá por Portugal, tem sido crescente o número de padres influencers que, em vídeos curtos, desconstroem com algum humor (e numa linguagem próxima da Gen Z) os códigos e rituais da Igreja. O primeiro encontro de influencers católicos aconteceu na Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, o último grande evento do Papa Francisco, que também contou com um gig do Padre Guilherme, DJ e também ele um fenómeno das redes sociais. Curiosamente, também Carminho, uma das convidadas de Rosalía neste disco, teve um papel de destaque ao cantar na vigília com os jovens da JMJ.
No mesmo universo, foi o Papa Francisco que impulsionou a beatificação de Carlo Acutis, o primeiro santo millenial que usou a internet para propagar a fé e foi consagrado como o Santo Influencer. A imagem de Acutis, jovem anglo-italiano que faleceu precocemente com um cancro, contrasta com o hábito das figuras religiosas. É um jovem como os outros: de calças de ganga ou fato de treino da Adidas, mochila às costas e sapatilhas da Nike. E os seus restos mortais encontram-se expostos em Assis, terra de São Francisco e Santa Clara. Uma das maiores inspirações para Lux, e mais um sinal de que está tudo ligado.
Seria ingénuo pensar que Francisco revolucionou a Igreja e a tornou efetivamente num lugar para “todos, todos, todos”. Embora tenha dado largos passos na reconfiguração de uma Igreja mais progressista, os pilares patriarcais não se moveram — porque são, eles próprios, a Igreja. Apesar de um movimento crescente de teologias queer e feministas, e até de missas e grupos católicos inclusivos, não se pode falar de uma mudança de paradigma, partindo apenas de declarações de intenções de uma das suas figuras ignorando a inércia estrutural.
De certa forma, Francisco e Rosalía desempenham papeis análogos. Uma das maiores figuras da igreja e uma das maiores figuras atuais da música pop. E se Francisco foi encontrando muitos obstáculos dentro da própria Igreja — como quando o criticam pelas suas posições pró-comunistas —, adaptando o seu discurso a ações contidas, é importante não esquecer como as regras e idiossincrasias da indústria pop também moldam a mensagem (e a experiência) de Rosalía.
Neste sentido, não é possível falar da ascensão do catolicismo sem falar do crescimento da extrema-direita e de movimentos conservadores, que usam e abusam das evocações religiosas. Se “Deus, Pátria e Família” era o lema de Salazar, em 2021 foi apropriado por André Ventura e funcionou como um prenúncio do que tem vindo a acontecer em vários países do mundo. Uma relação de mutualismo, que também tem funcionado a encaminhar mais jovens para a direita conservadora.
É neste terreno que chega Lux, o álbum de Rosalía, com um catolicismo em renovação, mas marcado por constantes tensões. Enquanto membros de partidos de extrema-direita se auto-proclamam os representantes da religião católica, há católicos a distanciar-se dos valores que estes defendem e representam — e o próprio Papa Leão XIV disse, em fevereiro deste ano, que a sua principal preocupação, quando pensa em Espanha, é o crescimento da extrema-direita e a sua instrumentalização do catolicismo.
Em Portugal, exemplo deste antagonismo são as posições conservadoras de membros do Chega que contrastam, por exemplo, com a postura de Francisco Rodrigues dos Santos, antigo membro do partido cristão CDS, que tem sido cada vez mais inclusão de ideias progressistas como parte da sua doutrina religiosa.
Rosalía pode não ter uma intenção política ao evocar a religião— pelo menos é o que tem dito publicamente nos últimos tempos. Mas a espetacularização das suas referências e reflexões têm um significado que, em certa medida, foge do seu controlo e se torna inevitavelmente político.
Entre a espetacularização e a subversão
“No soy una santa, pero estoy blessed”
— “Relíquia”, Rosalía
Luz e sombra. Terra e céu. O bem e o mal. O paraíso e o inferno. É sempre entre extremos que a Igreja posiciona o seu discurso. E é com essa premissa, entre binómios, que Rosalía abre Lux, em “Sexo, Violência e Llantas”, quando nos diz que gostaria de viver entre o céu e a terra, algures entre um mundo de sexo, violência e jantes e um mundo de clarões, pombas e santas. A tour de Lux tem sido uma espécie de materialização dessa premissa inicial do disco, um encontro dos dois mundos.
Em palco, há dois momentos cruciais que o expandem. Um deles, e talvez o mais importante, é quando surge um confessionário para abrir o momento de maior interação entre Rosalía e os seus fãs (que tem gerado muitas apostas na internet sobre os eleitos em cada data dos concertos). Ao contrário dos confessionários originais, onde qualquer fiel partilha a sós com o Padre os seus maiores pecados, neste celebridades locais vão partilhar o seu tea perante uma audiência de milhares de pessoas de smartphones em punho prontos a registar tudo.
Se as redes sociais se tornaram uma espécie de confessionário dos tempos modernos, mais na procura por vingança ou exposição (dar expose) do que pela procura de salvação, — como a popularidade de contas como @deuxmoi e @mamacita_mag demonstram, e até os consultórios sentimentais de pessoas como a psicóloga Tânia Graça ou o influencer Dr Love — o confessionário de Rosalía não é uma interrupção deste contínuo, mas a sua consagração.
O segundo momento desta homília surge quando um incensário gigante sobrevoa as cabeças do público como gesto de purificação, enquanto se ouve “CUUUUuuuuuute”, música de Motomami que nos diz que “o melhor artista é Deus”, e o campo visual é atravessado por luzes estroboscópicas. É a Igreja a encontrar o club — mais uma entre tantas referências que a equipa criativa de Rosalía encapsulou num só concerto dividido em quatro atos.
“Keep it cute, porque el mejor artista es Dios” torna-se um slogan acidental de uma proposta artística que podia ser subversiva, mas fica perdida entre estímulos. Se nas apresentações do disco a premissa parecia ser a simplicidade, para abrir espaço a um maior encontro purificador com a fé, nos concertos a proposta inverte-se. Nos momentos em que surgem referências católicas, não existe propriamente uma subversão, ou uma ressignificação, mas uma yassificação. Não é uma nova Igreja, é a mesma Igreja com um novo filtro.
O catolicismo como assunto na pop não é novidade. Madonna desafiou a sacralidade do corpo feminino, Lady Gaga disse estar apaixonada por Judas. Ambas foram repreendidas pelo Vaticano, acusadas de blasfémia. Em 1992, Sinead O’Conner rasgou uma fotografia do Papa João Paulo II numa performance no Saturday Night Live, num gesto de revolta pelos casos de abuso a menores encobertos pela Igreja. Depois disso, a sua carreira nunca foi a mesma. O disco de Rosalía, no entanto, tem tido uma recepção bem diferente, até no Vaticano. Será que isto significa que a Igreja está mais aberta a interpretações ou que o disco de Rosalía é apologético o suficiente para não causar desconforto?
Lux não só levou a fé para o espetáculo como a tornou parte do seu espetáculo. Não é que Rosalía tivesse de ser criticada pelo Vaticano para que a sua mensagem fosse considerada progressista. Mas a tal despolitização de Rosalía deixa a sua mensagem demasiado em aberto. Na necessidade de maximizar os lucros, não alienar os fãs de diferentes quadrantes e fazer um disco que correspondesse às expectativas do mercado, Rosalía acabou por entrar numa série de contradições. E a sua relação com a religião expressa-se mais no domínio do simbólico — da evocação das imagens, dos nomes, das histórias — do que na prática espiritual — da re-interpretação dos rituais ou questionamento das práticas.
Se em Fátima existe um sem-fim de memorabília para comprar (dos terços às camisolas, das estatuetas de Nossa Senhora às câmaras de plástico com imagens de monumentos), no concerto de Rosalía as opções não ficam atrás. Ao merchandising habitual, com t-shirts e CDs, também se juntam novos elementos, como um terço e uma sweat cujo carapuço é um hábito de freira. E o Santuário de Rosalía também não é bem para “todos, todos, todos”.
A partir do momento em que ascendeu à dimensão de estrela pop, ninguém esperava que Rosalía desse um concerto gratuito na pala do Parque Tejo — embora esse talvez fosse o verdadeiro exercício de despojamento. Mas, como mostra o exemplo recente de Olivia Dean, que se opôs publicamente às práticas da Ticketmaster e conseguiu que os seus fãs fossem reembolsados, há pequenos gestos que podem fazer uma enorme diferença. E não parece haver grande investimento em criar pequenas fissuras no sistema para deixar a luz passar.
Além de perpetuar um sistema de bilheteira que não é para todos, este ano conta com uma sala VIP com bilhetes a quase 500€ que dá acesso a um lounge com aperitivos e mocktails “curados pela Rosalía”, um photobooth, acesso a uma “playlist exclusiva” e a um conjunto de merchandising VIP também “exclusivo” (com, entre outras coisas, uma câmara fotográfica descartável, uma vela e uma zine da digressão). Um exercício de maximalismo material e de discriminação financeira que diverge da própria ideia de exaltação do despojamento de Lux.
A equipa que trabalha com Rosalía sabe para quem está a falar: uma geração de fãs que privilegia experiências analógicas mas não dispensa registá-las no seu telemóvel, que valoriza a ideia de intelectualidade e estética, que gosta da exclusividade. Uma geração que também não valoriza a mediação e não precisa de meios de comunicação para ter acesso a registos dessa experiência — está tudo na internet. É, por isso, sem grande surpresa que na primeira audição do disco para a imprensa, os jornalistas foram proibidos de levar qualquer objeto que lhes permitisse gravar e tiveram que escrever com base na experiência de escuta única, e que agora os fotojornalistas estejam impedidos de fazer a cobertura do concerto.
Rosalía e a sua equipa parecem obcecados com uma ideia de controlo sobre a imagem e o discurso, para que a estratégia de marketing seja imaculada e garanta neutralidade política em tudo o que aborda. Mas poderá uma abordagem à fé ser desprovida de uma leitura política? Se ecologia sem consciência de classe é jardinagem, como diz o meme da internet, o que é a religião sem consciência política, num tempo como o que vivemos?
Há três momentos no passado recente de Rosalía que exemplificam estas tensões: quando o designer Miguel Adrovar recusou trabalhar com ela por ter mantido o silêncio sobre Gaza durante dois anos de genocídio; quando disse numa entrevista na RTVE não ser a favor de “ismos” e por isso não se apresentar como feminista; e quando disse à escritora argentina Mariana Enriquez não se importar com o histórico abusivo de Picasso, porque separa a obra do artista e quando alguém não lhe faz algo diretamente, não gosta de julgar. O primeiro resultou num posicionamento da cantora tão efémero quanto uma story; os dois seguintes num vídeo de TikTok em que se justificou durante uns minutos.
Não é esperado que Rosalía se pronuncie sobre todos os assuntos e mais alguns. Pelo menos não é o que eu espero. O que espero é que não dê a entender tudo e o seu contrário, com mensagens nas entrelinhas que podem ser interpretadas da forma que for mais conveniente a qualquer pessoa. Mas é essa a expectativa que a indústria da música, sobretudo na escala em que Rosalía opera, tem. Como se a inaação não fosse, também ela, um posicionamento político.
A Páscoa, de novo
Regresso ao meu domingo de Páscoa. Penso nas mesas com doces e vinho intocadas pelo Padre e os seus acompanhantes no momento do compasso. Lembro-me das senhoras à minha frente na fila para a confissão que dizem mal da vizinha, uma delas solta um “ainda bem que nos vamos confessar”, riem-se as duas. Penso na mulher divorciada a quem a comunhão é recusada perante um grupo de fiéis da pequena cidade para a qual se mudou recentemente. Penso na cestinha de vime que circula na missa, onde cai uma nota de 50€ — foi a pessoa da paróquia que passa por mais dificuldades financeiras que a deitou. Penso na visita de estudo ao Convento de Avessadas para ver as relíquias da Santa Teresinha que me pareceu uma espécie de chamamento (eu tinha menos de 10 anos).
Penso no que me fez afastar da religião. Numa espécie de neutralidade manufaturada que paira sobre toda a Igreja. No ouro que ofusca a pobreza, na culpa que restringe a liberdade, nos rituais que educam os gestos. E penso em todas as escalas em que isto se multiplica — das fofocas da paróquia aos segredos mais obscuros do Vaticano. Penso também no que me foi fazendo ir e voltar. Nas pequenas aberturas no statu quo que iam para lá do espetáculo, da ostentação, da conformidade. A tal luz que aparecia pelas brechas, como nos versos de Leonard Cohen que deram origem ao nome do disco de Rosalía.
Há uma linha muito ténue entre a evocação da fé e a doutrinação. É quando a passamos sem nos aperceber, ou nos arrastam para ela, que vamos ficando conformados com as dinâmicas mais contraditórias da Igreja. É assim porque sempre foi. As coisas são como são. Se o Padre disse, é porque está certo. “Cada um sabe de si e Deus sabe de todos”. Fazer parte de um grupo religioso não é muito diferente da experiência de fazer parte de um fandom. A forma como essa energia se converte para as ações e a vida de cada membro é que é a grande questão. Quando a indústria endeusa um artista, e quando o espetáculo se sobrepõe à experiência, recebemos acriticamente tudo o que nos apresentam e deixamos de fazer as perguntas necessárias. Não damos espaço a emoções aparentemente contraditórias. E essa superficialização da experiência também é política.
Clico no play e ouço “Mio Cristo Piange Diamante”. Dou por mim a chorar e percebo que a liberdade está aqui.
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Carolina Franco tem escrito sobre cultura, juventude e direitos humanos. Cada vez acredita mais que está tudo ligado. É jornalista colaboradora no projeto de literacia mediática PÚBLICO na Escola, e co-editora do Shifter. Estudou Ciências da Comunicação no Porto, de onde é natural, tem pós-graduação em Curadoria de Arte e está a completar mestrado em Antropologia – Culturas Visuais com uma tese sobre a importância da representatividade trans* no audiovisual.
(Shifter)

