Matilde é italiana e vive em Lisboa. O seu trabalho na administração pública como urbanista estagiária era combinado, até há alguns meses, com turnos pontuais num restaurante e garrafeira da cidade. “Fiz isso por falta de dinheiro. A bolsa de estágio era de 900 euros líquidos, com 400 euros de renda para o meu quarto era um bocado difícil, e também queria tentar poupar alguma coisa”, conta esta jovem à Shifter.
Numa situação semelhante encontra-se Cristián, chileno residente na capital portuguesa. Trabalha a meio tempo num atelier de arquitetura e o resto do tempo noutro emprego, mais mecânico e simples, com o qual completa o seu salário. “Como em muitas outras áreas, existe uma precarização que nos impõe um limite não só económico, mas também no que diz respeito a crescer dentro de um escritório de arquitetura. Não é comum que te aumentem o salário todos os anos por antiguidade. Foi por isso que surgiu em mim esta motivação para encontrar uma forma de fazer parte de uma equipa de arquitetos por menos horas por semana e, assim, poder complementar com outra coisa.”
Há muitos exemplos como os de Matilde ou Cristián: jovens (e não tão jovens) que precisam de mais de um trabalho para completar um salário e poder pagar as contas e a vida em cidades como Lisboa. É a cultura dos side jobs, esses empregos extra que se vão encadeando para chegar ao fim do mês e, com sorte, conseguir poupar algum dinheiro.
O termo em inglês pode dar a sensação de que se trata de um fenómeno recente ou inovador, e até lhe pode conferir um ar cool e moderno (como acontece com muitos conceitos anglo-saxónicos que maquilham a precariedade e a pobreza), mas sempre existiram trabalhadores que tiveram de fazer turnos extra noutros empregos para se sustentarem. Numa conversa telefónica, com a socióloga portuguesa Luísa Veloso, professora associada no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, explica-me que, na classe operária, é algo muito antigo. “Por exemplo, os operários fabris da indústria têxtil à noite iam para casa fazer trabalho para a mesma empresa, mas sem recibos. Portanto, não podemos falar como sendo uma coisa recente. A questão agora é que está a atravessar muitas classes sociais.”
Ou seja, existem algumas diferenças e novos traços no perfil de quem tem side jobs. Se antes podíamos imaginar este tipo de trabalhador como alguém ligado à limpeza, às fábricas ou à construção, hoje o panorama é mais heterogéneo. Jovens com formação universitária, artistas, trabalhadores da cultura, jornalistas… As motivações também se diversificam e, em alguns casos, estão relacionadas com a possibilidade de se dedicarem (mesmo que seja por pouco dinheiro e poucas horas por semana) àquilo para que estudaram ou que consideram vocacional.
André é português. Em 2024 terminou os seus estudos e atualmente dedica-se às filmagens de forma freelance. Paralelamente, trabalha numa loja de hi-fi (sistemas de som para casa e gira-discos). “O que eu queria fazer da vida era filmar e estar em filmagens o tempo inteiro, mas há certas alturas em que não acontece. Ou seja, as filmagens são uma coisa que vai aparecendo, dependendo dos meses: há meses mais fortes e meses mais fracos.” Explica-me que o trabalho na loja é flexível, gosta dele e que lhe proporciona uma estabilidade que não encontra nas rodagens. “Este trabalho extra vem compensar um bocadinho a instabilidade das filmagens, porque é um trabalho que eu consigo fazer muito bem. Depois, lá está, depende um bocadinho dos meses, dos anos: nem todos os anos são iguais, nem todos os meses são iguais. Eu escolhi fazê-lo mesmo por uma questão de estabilidade para mim. Saber que consigo estar ativo o tempo inteiro e consigo estar a trabalhar numa ou noutra área, seja a filmar ou a atender clientes, que são duas coisas de que eu gosto bastante”, relata.

A nossa relação com o trabalho transformou-se. Para além do salário, procuramos que aquilo que fazemos nos agrade e nos permita reconhecer-nos. O sociólogo brasileiro Ricardo Antunes explica-me por telefone, do outro lado do Atlântico, que, com a perda de estabilidade laboral, se produz uma consequente perda de direitos, redução de salários e uma tendência crescente para uma maior precarização, o que leva trabalhadoras e trabalhadores a sentirem que vão perdendo sentido no seu trabalho. E isto conduz a uma segunda questão, relacionada com a dimensão emocional do emprego: “Se o trabalho que eu faço atualmente é desprovido de significado, eu vou procurar, num tempo extra, suprir essa dupla dimensão. Vou procurar um trabalho dotado de significado, o que me leva a pensar num trabalho com alguma autonomia. Ou seja, vou fazer aquilo de que gosto, aquilo que faz sentido para mim e que, ao mesmo tempo, complementa o salário, de modo a compensar a redução salarial que é crescente na maioria esmagadora das profissões”, continua o sociólogo.
No entanto, Antunes esclarece que, no sistema capitalista, esta ideia de autonomia é uma falsificação ideológica; uma aparência. “O exemplo é muito claro nos trabalhos das aplicações, dos estafetas, nos chamados micro-trabalhos, etc. Eu sou, entre aspas, ‘incorporado’ num trabalho como autónomo, assumo os custos dos instrumentos do meu trabalho, fico privado de direitos porque, afinal, me tornei, entre aspas, um ‘empreendedor’, um empresário de mim próprio, o que é uma falsificação ideológica. Esta ideia de que eu posso ser um indivíduo proprietário é o que faz com que tenha um certo impacto, mas que com o tempo se desmorona, porque a maioria dos trabalhadores e das trabalhadoras tende muito mais para a exaustão, o sofrimento, as doenças, os acidentes, os adoecimentos mentais, as depressões, os burnouts, os suicídios e as mortes no trabalho.”
Burgueses de si próprios, proletários de si mesmos
Ao procurar testemunhos de pessoas com side jobs, além de constatar que uma grande parte delas tem trabalhos extra, quem mais respondeu foram pessoas ligadas ao âmbito cultural e artístico, que tentam não renunciar àquilo que gostam de fazer.
É o caso, por exemplo, de Gabriela, migrante chilena que trabalha na área das artes performativas e complementa isso com a sua atividade como DJ. “Sempre fui uma pessoa que gosta de fazer coisas diferentes. Isso levou-me a aprender muitos ofícios e técnicas e deu-me a opção de poder agarrar pequenos trabalhos de vários lados.” A sua condição de migrante também influencia: “Eu aqui sou migrante, então há uma necessidade económica de procurar trabalho, qualquer trabalho, e ir aceitando. Trabalhei em cozinha e coisas assim; agora estou um pouco mais focada naquilo de que gosto, que é o trabalho cénico. Mesmo assim, sinto que deveria estar a trabalhar mais, que poderia trabalhar mais ou que deveria ser melhor paga para não estar a trabalhar tanto.”
Por WhatsApp conta-me que, para ela, o trabalho foi sempre uma parte central da sua identidade. “O trabalho deu-me uma certa segurança. Sou muito exigente e perfeccionista com aquilo que faço, e gosto que as pessoas me felicitem e me reconheçam através do meu trabalho, dá-me muita satisfação. Mas, ao mesmo tempo, tenho tentado deixar de romantizar o trabalho”, explica.

Publicar uma story para anunciar a próxima festa em que vais tocar, o artigo que acabou de ser publicado ou o anúncio na televisão para o qual fizeste o som: a autopromoção constante, a necessidade de nos vendermos a nós próprios, de nos identificarmos e sermos reconhecidos através do nosso trabalho (como referia Gabriela) é uma realidade contemporânea da qual é difícil escapar. A auto-exploração abrange desde gestos aparentemente banais (como publicarmos o nosso trabalho nas redes sociais) até dedicar grande parte do tempo livre e dos fins de semana a trabalharmos naquilo de que gostamos. “Esta ideia de auto-exploração dissemina-se porque eu vou buscar no side job um coágulo de autonomia que o meu trabalho real, no sistema de metabolismo social do capital, impossibilita. O sonho do neoliberalismo é converter todos os trabalhadores e todas as trabalhadoras em indivíduos proprietários, uma espécie de burgueses de si próprios, ainda que sejam, de facto, proletários de si mesmos”, explica Ricardo Antunes.
A animadora e ilustradora Rocío Quillahuaman ironizava num vídeo sobre essa armadilha que é trabalhar naquilo de que se gosta. “Trabalha no que gostas e odiarás o que gostas”, escrevia numa publicação de Instagram. A ansiedade por fazer bem, as horas extra dedicadas e a autoexigência constituem a face B dos famosos lemas “love what you do, do what you love” ou “Choose a job you love, and you will never have to work a day in your life”.
O fator emocional desempenha um papel central na narrativa empresarial. Como me explica Luísa Veloso, não é por acaso que as empresas constroem todos aqueles discursos sobre trabalhar para a empresa e ser colaborador (não trabalhador) e de todos serem como uma família. A questão da linguagem, para a socióloga, é um elemento determinante na construção deste relato que tanto se enraizou. “Antes existia, de facto, uma máquina ideológica, só que era com pessoas analfabetas. Agora tem de mudar e usar outros mecanismos”, analisa.
Quando pergunto a Matilde sobre a sua relação com o trabalho, diz-me que lhe atribui bastante importância. “Feliz ou infelizmente, identifico-me com aquilo que faço. Gosto de trabalhar, também de trabalho que implique movimento físico, pois o movimento ajuda os meus pensamentos a fluir melhor e torna-me mais focada e eficiente. Cuidar de mim com o dinheiro que eu própria ganho é uma ideia de que gosto. Mesmo assim, acho problemáticas algumas condições de trabalho e os salários em Portugal. Poderia estar aqui a falar das falhas do sistema capitalista, mas não vou entrar nesse assunto. Limito-me a dizer que, por mais que goste de trabalhar e da ideia de ganhar o meu próprio dinheiro para construir a vida que quero, tenho uma visão bastante crítica deste sistema. Posso ter toda a vontade de trabalhar e construir uma vida bonita, mas com 6 euros por hora é difícil. O meu foco agora é tentar encontrar um trabalho ou vários trabalhos, ou um trabalho e um projeto pessoal para monetizar, que deem o justo valor ao meu capital intelectual e às minhas skills”, reflete.
A fadiga como forma de vida
Uma consequência inevitável de ter mais de um emprego é o cansaço, a fadiga e a redução do tempo livre. A isso soma-se o stress. “Provoca-me ansiedade quando sei que vou ter algumas semanas de trabalho intenso, e depois também me dá muita ansiedade parar e esperar que venha outro projeto. É difícil trabalhar oito horas por dia e depois ter de travar. Tens de reorganizar constantemente o teu calendário para saber se o dinheiro está a funcionar, se chega, e perceber que talvez não tanto, e que tens de entrar em modo de poupança. É uma dinâmica difícil: entrar num ritmo e depois sair dele é algo que me custa muito”, conta Gabriela.
André também se move nestes ritmos instáveis próprios das filmagens, que compensa com o seu emprego na loja. “Raramente tenho dias em que não tenho nada para fazer. O que é bom, porque tenho a cabeça ocupada, mas às vezes também é uma gestão. Pode ser um bocadinho frustrante, em certas alturas do ano, ter projetos marcados e espalhados pelo mês e depois gerir a loja, gerir o tempo livre e gerir tudo ao mesmo tempo. Pode tornar-se um bocadinho complicado, mas acho que faz parte daquilo que escolhi fazer. Consigo filmar e consigo ter outro trabalho que me compensa bem e que, no final do mês, me deixa contente. Tudo tem duas faces da moeda. Não vejo isto como um ponto positivo, mas faz parte e estou habituado”, responde-me.
As notificações do Gmail, os WhatsApps laborais fora do horário de trabalho, encadear várias jornadas sem descanso: tudo isso é um sinal do nosso tempo e uma realidade a que nos resignamos. Esta forma de vida tem como consequência o cansaço crónico e o burnout, entendido não apenas como esgotamento físico, mas como uma sensação persistente de saturação mental e emocional. A escritora e jornalista norte-americana Anne Helen Petersen analisou este fenómeno no seu livro Não aguento mais, onde descreve como o esgotamento se tornou uma condição geracional ligada à precariedade laboral, à cultura da produtividade permanente e à dificuldade de separar trabalho e vida pessoal. Para Petersen, não se trata de um problema individual, mas do sintoma de um sistema que exige disponibilidade contínua e transforma o descanso num luxo.
Para a socióloga Luísa Veloso, além do aumento das horas, outro traço muito visível é a intensificação do trabalho: a exigência de fazer mais no mesmo tempo. “Não trabalhas necessariamente mais horas, mas trabalhas mais nas horas em que trabalhas. Pessoas que têm 20 reuniões por dia, quando na realidade deveriam ter 4 ou 5. Isso não permite pensar. Portanto, acho que há vários paradoxos. E acho que o discurso atual da sociedade do trabalho, de trabalhar menos, da semana dos quatro dias, é um discurso ideológico. Porque depois não se verifica nada disso”, questiona.
A partir de uma perspetiva de classe, este discurso levanta alguns problemas, como aponta a socióloga. A semana laboral de quatro dias apresenta-se como uma solução universal, mas, na prática, está pensada para setores com maior capital económico e simbólico, especialmente empregos de escritório e trabalhos qualificados. Dificilmente se aplica a pessoas em situações mais precárias ou a empregos manuais, de serviços ou com horários fragmentados. Para quem precisa de ter dois ou três empregos para conseguir viver, a redução do horário é uma promessa vazia: não se traduz em mais tempo livre, mas numa reorganização que mantém (ou até intensifica) a exploração do tempo.
Imaginar outros ritmos
Há alternativa? Podemos olhar para o futuro do trabalho com esperança? Quando coloco estas perguntas a Ricardo Antunes, responde que, embora existam razões suficientes para o pessimismo, também há margens para pensar noutros cenários. “Não há nenhum país do mundo, e digo isto com convicção, onde a classe trabalhadora não esteja a ser precarizada, em maior ou menor grau. O nível de precarização na Suécia ou na Finlândia é diferente da precarização em Portugal ou em Espanha, e também é diferente da precarização no México, no Brasil ou na África do Sul. Mas todos estão a sofrer este processo. É preciso, então, reinventar um novo modo de vida”, afirma. E para os que dizem que não é possível mudar as coisas tem uma mensagem: “A única coisa imprevisível é a humanidade.”
Luísa Veloso concorda que o cenário não é muito animador, mas aponta para uma margem de ação possível. “Acho que vivemos uma situação muito crítica, a precariedade é cada vez maior. Mas costumo dizer que cada um de nós, a nível micro, pode fazer coisas. Por exemplo, eu sou professora e, nas aulas, tento incentivar o espírito crítico dos estudantes. É aquilo que faço porque não tenho perfil para atuar a nível macro. Mas, a nível micro, faço isso com os estudantes, com pessoas amigas, ou tento intensificar as relações de vizinhança, que considero muito importantes. As pessoas ajudarem-se umas às outras: é nisso que acredito, o que não quer dizer que não haja outras pessoas que, a nível macro, possam ter outro tipo de intervenções e devam tê-las”, conclui.
Neste contexto de precarização generalizada e cansaço estrutural, as alternativas não aparecem como soluções imediatas, mas como processos lentos e fragmentados. Tanto Ricardo Antunes como Luísa Veloso concordam que o cenário atual não é encorajador, mas sublinham a importância de gerar espaços de reflexão e ação, tanto coletivos como quotidianos. Desde o fortalecimento das redes de apoio até à promoção do pensamento crítico, estas práticas não invertem por si só as dinâmicas do mercado de trabalho, mas permitem questioná-las e abrir um debate sobre o lugar que o trabalho ocupa na vida das pessoas. Num sistema que normaliza a sobrecarga e a disponibilidade permanente, imaginar outros ritmos e outras formas de organizar o trabalho torna-se, pelo menos, um ponto de partida.
(SHifter)
