“Mataste o Jeffrey Epstein, seu animal! Ele era um bom homem!”. Cena com dois dos atores mais famosos do mundo reabriu o debate sobre o futuro do cinema na era da IA.
O avanço da inteligência artificial (IA) em vídeo está mesmo a atingir patamares que eram simplesmente inimagináveis há meia dúzia de anos.
Em 2023, uma cena de Will Smith a tentar comer massa tornou-se viral pela sua estranheza: parecia saída de um pesadelo, facilmente identificada como falsa. Mas tudo mudou. Hoje, as imagens criadas por IA são suficientemente convincentes para confundir os espectadores, que podem pensar que são reais.
A mais recente novidade surgiu com o Seedance 2.0, o novo gerador de vídeo por IA da ByteDance, empresa chinesa proprietária do TikTok.
Em poucos dias, começaram a circular em massa nas redes sociais clipes hiperrealistas com finais alternativos de séries, que nunca existiram, cenas espetaculares de filmes nunca rodados e sequências que parecem retiradas de grandes produções de Hollywood (e com atores reais!).
O vídeo que abalou Hollywood
A nova preocupação da indústria cinematográfica é uma breve sequência em que versões digitais dos famosos Brad Pitt e Tom Cruise protagonizam uma intensa cena de ação no topo de um edifício em ruínas, com um acabamento visual que faz lembrar um filme de grande orçamento.
A obra IA foi criada pelo realizador irlandês Ruairi Robinson com a nova versão do Seedance, o que rapidamente despertou inquietação entre estúdios, sindicatos e criadores perante o avanço vertiginoso destas ferramentas.
E a parte mais assustadora? O clipe de alto nível que se segue, segundo Robinson, foi o resultado de uma instrução de duas linhas no Seedance 2.0: “talvez Hollywood esteja acabada”, desabafa o realizador.
Basta ver o clipe para perceber até que ponto a tecnologia mudou. A diferença em relação às primeiras gerações de vídeo criadas por IA é enorme. Para muitos utilizadores, o resultado é tão convincente que a única pista de uma origem artificial não está na falta de realismo técnico, mas no absurdo de algumas falas, como Robinson fez questão de apontar noutros vídeos que criou com a nova IA.
Num dos confrontos que nunca aconteceram, Pitt chega a gritar a Tom Cruise: “Mataste o Jeffrey Epstein, seu animal! Ele era um bom homem!”.
A reação da indústria foi imediata. O argumentista Rhett Reese, conhecido pelo Deadpool, confessou ao New York Times que o vídeo lhe provocou arrepios e alertou que ferramentas como esta poderão destruir empregos no setor, reacendendo os receios que já levaram à greve dos argumentistas de 2023, quando milhares de profissionais exigiram limites ao uso da IA em Hollywood.
Os utilizadores, como seria de esperar, começaram de imediato a experimentar o novo software. Numa questão de horas, já circulavam na Internet finais alternativos de Game of Thrones; lutas inéditas de Dragon Ball Z; novas cenas com Walter White, protagonista de Breaking Bad; até um novo Will Smith a enfrentar um feroz monstro de esparguete, como no primeiro vídeo deste artigo. Tudo gerado em poucos minutos.
Disney e a batalha pelos direitos de autor
O entusiasmo do público contrasta com a preocupação dos estúdios. A Motion Picture Association, que representa, entre outros, os interesses da Disney, Universal, Warner e Netflix, acusou a ByteDance de permitir o uso não autorizado de material protegido “em grande escala” num único dia, de acordo com declarações recolhidas pela AFP.
O presidente da entidade, Charles Rivkin, afirmou que o serviço funciona sem garantias suficientes contra a violação de direitos e exigiu que a empresa chinesa pusesse termo a essas práticas.
Em resposta, a ByteDance garantiu respeitar a propriedade intelectual e afirmou que vai reforçar os mecanismos de proteção para evitar o uso indevido de imagens e conteúdos protegidos.
Como primeira medida, a ByteDance disse ter limitado a possibilidade de gerar clipes com pessoas reais. Mas, como refere o Futurism, resta saber qual será o grau de eficácia dessas restrições — especialmente tendo em conta dificuldades semelhantes que a OpenAI enfrenta com o Sora para controlar usos indevidos nas suas próprias plataformas.
Lançar primeiro, regular depois
Alguns analistas do setor apontam que, na indústria tecnológica, é frequente repetir-se uma estratégia em que se lançam produtos com poucas restrições para gerar impacto mediático e atrair utilizadores. A tentativa de impor controlos só surge mais tarde, quando a ferramenta já ganhou popularidade e presença no mercado.
O episódio do Seedance 2.0 junta-se a uma série de avanços tecnológicos chineses que surpreenderam o mercado norte-americano, seguindo os passos do DeepSeek, cujo modelo de raciocínio compete com sistemas como o ChatGPT. Como resumiu o magnata Elon Musk no X, ao ver um dos vídeos gerados: “Isto está a acontecer demasiado depressa”.
Mas a polémica não fica por aí. Além do uso de rostos reais e de cenas verosímeis, o Seedance 2.0 permite controlar pormenores técnicos como iluminação, sombras e movimento de câmara.
De acordo com a consultora suíça CTOL Digital Solutions, o Seedance 2.0 é atualmente o modelo de geração de vídeo mais avançado do mercado, superando em diferentes testes o Sora, da OpenAI, e o Veo, da Google.
Ainda assim, nem toda a gente está convencida. Heather Anne Campbell, produtora executiva e argumentista do desenho animado Rick and Morty, afirmou nas redes sociais que, apesar do impacto visual, nada do que foi produzido até agora é verdadeiramente comovente ou criativo, descrevendo o fenómeno como um espetáculo passageiro.
No entanto, mesmo aqueles que duvidam do valor artístico reconhecem que será enorme a tentação de usar estas ferramentas para reduzir custos. Como Rhett Reese admitiu, escrever um argumento poderá acabar por sair mais caro do que pedir um guião a uma máquina. E esse é, no fundo, o receio que assola Hollywood: que o avanço destas tecnologias acabe por mudar profundamente a forma como os filmes são feitos, reduzindo o papel dos atores, das câmaras e até dos argumentistas em parte do processo criativo.
(ZAP // DW)
