Centaur, o “cérebro digital” que vai ser submetido às experiências mais eticamente questionáveis

By | 21/12/2025

Experiências “proibidas” vão gerar novas hipóteses sobre como pensamos. A ambição é chegar a “um modelo que capte a complexidade e a variedade da cognição humana”.

Um novo modelo computacional, Centaur, está a provocar polémica na comunidade científica por prometer reproduzir padrões de decisão humana e, assim, permitir simular experiências psicológicas que seriam demasiado caras, demoradas ou, sobretudo, eticamente questionáveis de realizar com participantes reais.

O trabalho, descrito num artigo recente na Nature, foi desenvolvido por uma equipa do Institute for Human-Centred AI, no Helmholtz Centre da Alemanha, em colaboração com cerca de 40 investigadores de vários países, incluindo Reino Unido, Estados Unidos e Suíça. O Centaur é apresentado pelos cientistas como uma espécie de “cérebro digital”: um modelo orientado por inteligência artificial (IA) que foi treinado com mais de 10 milhões de escolhas feitas por mais de 60 mil participantes, recolhidas a partir de 160 experiências de psicologia.

Os autores acreditam que, ao capturar regularidades do comportamento humano em tarefas experimentais, o sistema pode tornar-se uma ferramenta útil para prever como as pessoas decidem, resolvem problemas e recordam informação.

“O nosso objetivo final é compreender a cognição humana”, explicou à BBC Science Focus o autor principal, Marcel Binz, vice-diretor do instituto. Na sua perspetiva, um caminho possível para chegar lá passa por construir modelos computacionais capazes de reproduzir artificialmente o que acontece na mente humana.

Um sistema mais abrangente

Até hoje, muitos modelos computacionais em psicologia e neurociência tendiam a ser focados em processos específicos, por exemplo, como alguém responde a um tipo particular de estímulo ou problema, precisamente porque o cérebro humano é notoriamente complexo. Mas o Centaur procura contornar essa limitação ao tentar funcionar como um sistema único aplicável a diferentes tipos de tarefas.

A ambição, diz Binz, é chegar a “um modelo que capte a complexidade e a variedade da cognição humana” e que, com o tempo, possa ajudar a gerar novas hipóteses sobre como pensamos.

A construção do Centaur

A equipa partiu de um modelo de linguagem de grande escala usando como base o Llama. Depois, reuniu uma grande base de dados chamada Psych-101, composta por registos de experiências clássicas e modernas em áreas como memória, tomada de decisão e resolução de problemas.

O passo seguinte foi o chamado “fine-tuning”: em vez de pedir ao modelo apenas para produzir texto, os investigadores ajustaram-no para se comportar como um participante num estudo de psicologia, produzindo escolhas comparáveis às humanas.

O resultado foi o Centaur, que, segundo os autores, consegue replicar respostas humanas numa variedade de tarefas — sobretudo quando estas se assemelham às que constam do conjunto de dados usado no treino.

O próprio Binz reconhece que a capacidade do modelo não é ilimitada. À medida que se afasta das condições representadas no Psych-101, o desempenho pode degradar-se. Mais cedo ou mais tarde o modelo falha.

Para que pode servir

Uma das aplicações mais destacadas pelas autores é a possibilidade de usar o Centaur como máquina de previsão, capaz de antecipar como pessoas reais reagiriam em determinadas situações, incluindo cenários em que seria impraticável recrutar participantes ou em que os riscos éticos seriam elevados.

Em psicologia experimental, há estudos que não podem ser conduzidos por razões éticas: por exemplo, testes invasivos em crianças ou experiências que possam prejudicar a saúde mental dos voluntários.

Num modelo computacional é possível simular essas condições sem expor ninguém a danos, reduzindo igualmente o custo e o tempo associados a experiências tradicionais.

Imitar respostas é o mesmo que explicar a mente?

A promessa do Centaur vem acompanhada de uma controvérsia crucial: até que ponto um sistema que dá respostas “como um humano” está a reproduzir os mecanismos internos do pensamento humano?

Os autores do estudo sugerem que, à medida que o modelo foi ajustado para se comportar como um participante, as suas representações internas passaram a assemelhar-se mais a padrões de atividade cerebral humana.

Se isso se confirmar, abrir-se-ia uma porta para “olhar para dentro” do modelo e aprender algo sobre a cognição.

“Pode ser que o que acontece dentro do modelo esteja, em certa medida, a captar processos cognitivos reais”, disse Binz. Essa hipótese seria particularmente entusiasmante porque permitiria examinar internamente o sistema e usar essa informação para compreender melhor o funcionamento mental.

Centaur não convence toda a gente

Samuel Forbes, professor associado de ciência do desenvolvimento na Universidade de Durham, Reino Unido, que não participou no trabalho, contesta a equivalência entre desempenho e mecanismo: obter respostas parecidas com as humanas “não garante” que os processos subjacentes sejam semelhantes aos do cérebro.

O investigador usou uma analogia: seria como ensinar um robô a tocar violoncelo e depois tentar aprender sobre violoncelistas a partir do robô. Mesmo que a música soe convincente, isso não revelaria como um músico humano toca, nem os seus processos emocionais ou cognitivos.

Uma crítica semelhante foi avançada por Di Fu, docente de neurociência cognitiva na Universidade de Surrey, também não envolvida no estudo. Na sua leitura, o Centaur ajuda a prever “o que os humanos podem fazer”, mas não explica “como o cérebro o produz”.

Há ainda preocupações sobre a própria escala do Centaur. Alguns cientistas alertam que o modelo pode ser grande e complexo demais para ser analisado de forma útil. Binz aceita a crítica, mas considera-a um desafio em evolução. O investigador defende também que a complexidade é, paradoxalmente, parte do valor do sistema: o cérebro humano é igualmente complexo e, ainda assim, a neurociência desenvolveu métodos para o estudar. A diferença, acrescenta, é que num modelo computacional seria possível medir tudo o que acontece internamente, algo que não é possível fazer com o cérebro humano com o mesmo grau de detalhe.

Por agora, Binz sublinha que é necessário investigar mais para perceber até que ponto o Centaur e modelos semelhantes reproduzem padrões de pensamento e o que isso significa para a ciência da mente.

(ZAP)