A “obsolescência programada” é um termo que se menciona frequentemente. Mas o que é isso de fazer eletrodoméstico pouco duráveis — e como se pode proteger?
A ideia de que os produtos são “projetados para durar menos” acompanha os consumidores há décadas. A obsolescência programada é a suspeita de que algumas marcas fabricam produtos para se estragarem mais rapidamente, seja pela escolha de materiais, pelo uso de componentes mais baratos ou até pela pressa em lançar novidades.
Mas será que a obsolescência programada existe mesmo? Segundo o engenheiro eletrotécnico e professor da PUCPR, Voldi Costa Zambenedetti, antes de falar em programação para falhas, é essencial perceber que qualquer equipamento tem uma vida útil natural.
Assim, cada componente possui um número esperado de ciclos de funcionamento. A soma desses ciclos define aquilo a que, tecnicamente, se chama MTBF (Mean Time Between Failure), ou tempo médio entre falhas.
Em outras palavras, “quanto maior a vida útil de cada componente, maior será a vida útil do equipamento final”, afirma Zambenedetti. No entanto, componentes mais duráveis também são mais caros, o que afeta diretamente o preço final do produto.
Desgaste natural vs. decisão de projeto
De acordo com o professor, não é possível afirmar categoricamente que os produtos são feitos para durar pouco, embora seja tecnicamente possível projetar um equipamento com mais ou menos tempo de vida útil. Isto não significa uma armadilha, mas sim uma escolha de qualidade que influencia tanto o custo como a durabilidade.
“Em produtos destinados a grandes compradores, como indústrias e montadoras, é comum exigir especificações de durabilidade. Já nos produtos de consumo, essa exigência não existe”, diz o professor. “Cada fabricante decide o padrão de qualidade que pretende atingir.”
Apesar disso, existem casos históricos de intenção deliberada, como o famoso cartel Phoebus, que reduziu de propósito a vida útil das lâmpadas no início do século XX. Esse episódio reforça a desconfiança do público ainda hoje.
Porque é que alguns eletrodomésticos se estragam mais depressa?
Segundo o professor, a perceção de que telemóveis e eletrónicos duram pouco é real. Esses aparelhos dependem de blocos eletrónicos complexos, difíceis de reparar individualmente. Além disso, sofrem com a obsolescência tecnológica, que torna modelos com um ou dois anos “antigos” rapidamente.
Já eletrodomésticos tradicionais, como frigoríficos, ventiladores e liquidificadores, tendem a durar mais. Têm menos eletrónica sensível, utilizam motores robustos e permitem uma manutenção mais simples.
Zambenedetti destaca ainda que muitos eletrónicos se tornaram commodities, produzidos em massa por diversas empresas. Isso reduz o preço do produto, mas também a qualidade dos componentes e, consequentemente, a vida útil.
Como saber se um produto foi feito para durar pouco?
Para o consumidor comum, é difícil identificar intenção. “A rigor, apenas um ensaio sistemático poderia fornecer este dado”, explica o professor. Na prática, há algumas pistas:
- Avaliações de consumidores
- Histórico da marca
- Tempo de garantia oferecido além do obrigatório por lei
- Políticas de reparabilidade
O engenheiro também destaca avanços como o Índice de Reparabilidade, já adotado na União Europeia, e leis que obrigam fabricantes a disponibilizar peças de substituição por um período mínimo.
Quando os produtos duram menos, o resultado é mais lixo e mais gastos. O professor alerta para o aumento do descarte de resíduos e a pressão sobre os sistemas de reciclagem. A solução passa pela logística reversa — em que os fabricantes recolhem e reaproveitam os seus produtos — e pela consciencialização dos consumidores sobre o descarte adequado.
Assim, a discussão vai além de simplesmente apontar fabricantes ou produtos “que se avariam depressa”. A obsolescência existe, mas nem sempre de forma intencional ou maliciosa. Todo o produto tem uma vida útil natural, e muitas vezes a escolha de materiais, componentes e processos de fabrico determina se vai durar mais ou menos.
Como explica o professor Voldi Costa Zambenedetti, “apenas um ensaio sistemático poderia comprovar se um produto foi projetado para durar menos”. Ainda assim, exemplos históricos mostram que, em alguns casos, essa prática já foi deliberada — ou seja, obsolescência programada.
(ZAP)
