Há mais de 28 mil milhões de dólares suspeitos a circular na criptoeconomia

By | 22/11/2025

As moedas digitais são um bom “refúgio” para operações que não deixam rasto. Os criminosos continuam a saber disso e a tirar partido, como mostra uma nova investigação.

Uma investigação do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação apurou que há, pelo menos, 28 mil milhões de dólares em fundos de origem ilícita a circular na indústria de criptomoedas. “O dinheiro vem de hackers, ladrões e extorsionários. Foi rastreado até cibercriminosos na Coreia do Norte e golpistas cujos esquemas se estendiam de Minnesota a Mianmar”, escreve o The New York Times, um dos 37 meios ligados ao consórcio.

A investigação identificou nove carteiras digitais como principais destinatários dos fundos rastreados. Uma das plataformas mais usadas para receber estes fundos tem sido a Binance.

A maior bolsa de criptomoedas do mundo foi também uma das grandes financiadoras da campanha de Donald Trump e ainda em maio participou num negócio de 2 mil milhões de dólares com a empresa de criptomoedas do presidente. A OKX, uma plataforma global com presença crescente nos Estados Unidos, também se destacou.

A investigação conseguiu, por exemplo, apurar que mais de 500 milhões de dólares destes fundos fluíram para a Binance, OKX e Bybit no ano passado, a partir de balcões de troca de dinheiro por criptomoedas.

A OKX terá recebido mais de 220 milhões de dólares em depósitos da Huione, nos meses seguintes à assinatura de um acordo com o Governo dos Estados Unidos por violar legislação relacionada com transferências. Pagou 504 milhões de dólares para resolver o caso.

Bolsas de criptomoedas em todo o mundo terão recebido pelo menos 4 mil milhões de dólares ligados a fraudes durante o ano passado, apontam ainda os números.

Antes de começarem a atrair bancos, fundos de investimentos e outros investidores legais e respeitados, a criptoeconomia atraiu pessoas e entidades que queriam escapar ao controlo dos bancos. O anonimato das transações foi e continua a ser apelativo para quem movimenta dinheiro de fraudes, ou para lavar dinheiro.

O que a investigação do consórcio pretende mostrar é que essas atividades continuam a acontecer em larga escala. Num mercado cada vez menos escrutinado e com pouca autorregulação. As empresas do sector afirmam o contrário, mas as evidências apontam noutro sentido.

A Binance, em 2023, aceitou pagar uma multa de 4,3 mil milhões de dólares nos Estados Unidos, que pôs fim a um caso onde a empresa era acusada de infrações relacionadas com lavagem de dinheiro, depois de se provar que aceitou processar transações de grupos terroristas como o Hamas e a Al Qaeda.

Já depois deste caso, terá recebido 400 milhões em depósitos do Huione Group, uma operação cambojana que o Departamento do Tesouro sinalizou por atividade criminosa recentemente e que já foi considerada uma espécie de “Amazon para criminosos”. Geriu durante anos uma marketplace onde se vendia quase tudo o que não é legal. Terá sido o destino de outros 900 milhões, transacionados a partir de uma plataforma usada para lavagem de dinheiro roubado, por um grupo de hackers norte-coreanos.

Enquanto isso, os Estados Unidos prosseguem com uma estratégia de abertura do mercado de criptoativos. O próprio Trump e a família têm investido massivamente no sector. Meses antes das eleições, a família do presidente criou a World Liberty Financial, uma startup de criptomoedas por onde passa a gestão da moeda dgital que promove o próprio Trump.

Depois de chegar à Casa Branca, o presidente inverteu o rumo da estratégia de regulação para sector. Novas regras têm estado em aprovação, para criar um ambiente regulatório muito mais leve que o preconizado pela administração Biden e com menos responsabilidades de fiscalização do sector, tanto para os próprios como para entidades externas.

Como relatou o NYT, em abril, o Departamento de Justiça desmantelou uma equipa de fiscalização de criptomoedas, e justificou que os promotores devem apontar mais aos terroristas e traficantes de drogas que usam criptomoedas e menos às plataformas usadas.

A análise publicada pelo NYT e pelo consórcio de jornalistas teve por base dados agregados reunidos pela Chainalysis que não identificavam bolsas específicas, registos públicos e feedback de especialistas forenses que ajudaram a ligar transações a contas e a identificar os detentores das respetivas carteiras.

Admite-se que estes dados possam ser apenas a ponta do iceberg, embora também se sublinhe que muitas vezes os fundos fraudulentos só vão parar a estas plataformas depois de vários movimentos. A questão está em perceber se devem ou não os exchanges de ativos digitais deixar circular todo o tipo de fundos, sem fazer perguntas. Esperar que as autoridades policiais assumam essa missão parece pouco.

As autoridades policiais não conseguem lidar com a quantidade avassaladora de atividades ilícitas neste espaço”, destacou Julia Hardy, cofundadora da zeroShadow, uma empresa de investigações de criptomoedas, à reportagem do NYT.

(Teksapo)