Dueto entre telescópios Hubble e James Webb desvenda segredos de Saturno (por camadas)

By | 31/03/2026

Dois olhares, um visível e outro invisível, voltam-se para Saturno e o que revelam não é apenas um retrato, mas várias camadas de um planeta em movimento, onde tempestades antigas e padrões misteriosos continuam a surpreender.

Durante décadas, o telescópio espacial Hubble tem observado Saturno com um olhar atento e paciente. Mais recentemente,ganhou um aliado com capacidades diferentes: James Webb. Juntos, voltaram a focar-se no gigante gasoso e o resultado é uma visão mais completa, quase tridimensional, de um dos planetas mais fascinantes do sistema solar.

À primeira vista, as imagens captadas por ambos podem parecer apenas variações do mesmo retrato. Mas há uma diferença essencial: cada telescópio “vê” Saturno de forma distinta. Sensível à luz visível, o Hubble revela as cores subtis das nuvens e as faixas que envolvem o planeta. Já James Webb, que observa no infravermelho, consegue “espreitar” diferentes profundidades da atmosfera, detetando nuvens e compostos químicos desde as camadas mais densas até às mais elevadas.

Na prática, esta colaboração permite aos cientistas analisar Saturno como se estivessem a descascar uma cebola, camada a camada. O resultado é uma compreensão mais rica de como funcionam os ventos, as tempestades e os processos atmosféricos num sistema complexo e interligado.

As imagens agora divulgadas mostram um planeta longe de ser estático. No registo do James Webb, destaca-se uma corrente atmosférica persistente, conhecida como “ribbon wave”, que serpenteia nas latitudes médias do hemisfério norte. Mais abaixo, é possível identificar vestígios de uma enorme tempestade ocorrida entre 2011 e 2012. Outras tempestades dispersam-se pelo hemisfério sul, revelando uma atmosfera em constante agitação.

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Também o misterioso hexágono no polo norte de Saturno, uma estrutura descoberta pela missão Voyager, continua visível, embora de forma ténue. Trata-se de um dos padrões meteorológicos mais intrigantes do Sistema Solar, cuja estabilidade ao longo de décadas continua a desafiar os cientistas. Estas poderão ser, aliás, das últimas imagens detalhadas desta formação até aos anos 2040, já que o polo norte entrará em inverno prolongado e ficará mergulhado na escuridão durante cerca de 15 anos.

James Webb acrescenta ainda pistas sobre fenómenos difíceis de detetar. Nos polos, por exemplo, surgem tonalidades invulgares que podem estar associadas a aerossóis em altitude ou até a auroras, um campo onde ambos os telescópios têm vindo a colaborar. Juntos, já estudaram auroras em Saturno e em Júpiter, confirmaram sinais em Urano e permitiram a James Webb detetar auroras em Neptuno pela primeira vez.

O vídeo mostra como os dois telescópios contribuíram para estas imagens

Os anéis de Saturno também revelam diferenças marcantes entre as observações. No infravermelho do James Webb brilham intensamente devido ao gelo que os compõe, enquanto no Hubble surgem mais suaves, com sombras projetadas sobre o planeta. Estruturas subtis, como “raios” e variações na densidade dos anéis, tornam-se mais evidentes quando se cruzam os dois olhares.

Estas imagens foram captadas em 2024, com cerca de 14 semanas de intervalo, num momento em que Saturno transitava do verão no hemisfério norte para o equinócio de 2025. Ao longo dos próximos anos, à medida que as estações mudarem, os telescópios terão uma perspetiva cada vez melhor do hemisfério sul.

(Teksapo)