“O nosso produto é usado, por vezes, para matar pessoas”. O que é a Palantir

By | 30/03/2026

A tecnologia da “empresa de IA mais assustadora do mundo” foi usada em guerras e hospitais, os seus serviços contribuíram tanto para assassínios como para tratamentos que salvaram vidas, e os seus líderes são, consoante a quem se pergunte, responsáveis por destruir ou salvar a democracia ocidental.

Sejam bem-vindos ao mundo paradoxal da Palantir Technologies, empresa norte-americana de análise de dados cujos clientes incluem algumas das organizações mais secretas do planeta, bem como algumas das mais estimadas.

Fundada em 2003 por Peter Thiel, o não menos controverso bilionário cofundador do PayPal, a Palantir tornou-se discretamente uma das empresas tecnológicas mais poderosas e polarizadoras do planeta.

Sediada em Denver, a empresa tem entre os seus clientes algumas das agências de informações mais secretas do mundo, alguns dos maiores exércitos do mundo e, talvez surpreendentemente, o Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS).

Nasceu da convicção de que melhor análise e partilha de dados entre agências de informações poderia ter evitado os atentados de 11 de Setembro, e à medida que a sua influência cresce, cresce também o debate sobre se as suas ferramentas estão a proteger a democracia ocidental, ou a miná-la.

A empresa chegou a receber financiamento inicial da In-Q-Tel, o braço de capital de risco da CIA, em 2005. A sua missão fundadora, nas palavras da sua liderança, era “defender o Ocidente“.

Essa missão evoluiu para criar uma empresa de grandes proporções, que se especializou em soluções capazes de vasculhar enormes quantidades de dados, independentemente do formato, e detetar padrões ou ligações que poderiam levar semanas ou meses a analistas humanos para descobrir.

A sua plataforma principal, Foundry, serve tanto clientes comerciais como governamentais, enquanto a Gotham, um conjunto de aplicações concebidas para serviços de informações e policiamento, funciona sobre esta base.

A lista de clientes da empresa parece um quem é quem do poder global. Os seis ramos das Forças Armadas dos Estados Unidos, o Ministério da Defesa britânico, o Exército ucraniano, as Forças de Defesa de Israel, a CIA, o FBI, a Europol e o Departamento de Polícia de Los Angeles (LAPD) utilizaram todos os seus serviços.

No lado comercial, o portfolio não é menos impressionante, destacando-se nomes como a British Petroleum, a Airbus e a Coca-Cola, nota a BBC Science Focus.

As suas aplicações são tão variadas quanto os clientes. As ferramentas da Palantir ajudaram o exército ucraniano a localizar e visar artilharia russa, recorrendo a imagens de satélite e dados de redes sociais.

Mas também ajudaram o Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas a identificar estrangulamentos nas cadeias de abastecimento. E durante a pandemia de COVID-19, o NHS utilizou a plataforma da Palantir para fazer previsões sobre quais hospitais corriam o risco de ficar sem equipamento de proteção individual, permitindo uma ação preventiva.

“Em termos de qualquer função individual, a Palantir não está mais avançada do que qualquer outra empresa”, afirma um antigo engenheiro da Palantir que pediu para permanecer anónimo. “Mas onde investiu realmente muito tempo foi em reunir todas estas coisas numa única plataforma.”

Mas são as aplicações letais da plataforma que atraem as críticas mais ferozes. “O nosso produto é usado, por vezes, para matar pessoas“, reconheceu o diretor-executivo Alex Karp numa entrevista de 2020 à Axios.

Karp, a verdadeira força motriz por detrás da empresa apesar do perfil público mais elevado de Thiel, tem-se mostrado cada vez mais “frontal”. Classifica a Palantir como “a empresa de software mais importante da América e, portanto, do mundo”.

A sua franqueza sobre o papel da empresa a ajudar a Ucrânia a visar forças russas terá levado o Pentágono a pedir-lhe que “moderasse o discurso“. As controvérsias, porém, multiplicaram-se.

Nos Estados Unidos, a Palantir assinou um contrato de 30 milhões de dólares com o Serviço de Imigração e Alfândegas, em abril de 2025, para fornecer uma plataforma chamada ImmigrationOS, concebida para agilizar a identificação e deportação de imigrantes sob a administração do Presidente Trump.

A Amnistia Internacional afirmou que o sistema facilita “decisões automatizadas rápidas que conduziram a deportações em massa“. A Palantir insiste que a plataforma se limita a integrar fontes de dados a que o ICE já tem acesso legal.

Em maio de 2025, 13 antigos funcionários assinaram uma carta acusando a empresa de “normalizar o autoritarismo” ao apoiar a administração Trump. A empresa já tinha sido anteriormente associada ao escândalo Cambridge Analytica, embora a Palantir tenha afirmado que o funcionário envolvido agiu de forma independente e foi despedido.

No Reino Unido, um contrato de 330 milhões de libras da empresa com o NHS para unificar os dados dos hospitais numa só plataforma alarmou defensores da privacidade e profissionais de saúde. A Associação Médica Britânica (BMA) votou contra, alertando que o acordo “ameaça minar a confiança pública nos sistemas de dados do NHS”.

O vice-presidente executivo da Palantir, Louis Mosley, rejeitou as críticas, afirmando perante uma comissão parlamentar que “a BMA escolheu a ideologia em detrimento do interesse dos doentes”.

O trabalho da Palantir com as Forças de Defesa de Israel após o ataque de 7 de outubro revelou-se igualmente divisivo. Karp enviou equipas adicionais para apoiar as FDI e condenou publicamente os manifestantes contra a guerra em Gaza.

Na altura, o fundo de investimentos nórdico Storebrand Asset Management vendeu as suas ações devido a preocupações de que o trabalho da empresa para Israel poderia violar direitos humanos.

A Palantir nega também qualquer envolvimento em policiamento preditivo, “à moda de Minority Report“, classificando a alegação como “categoricamente falsa”.

Karp tem insistido que a Palantir integra mecanismos de proteção no seu software para salvaguardar as liberdades civis, com controlos de acesso e registos de auditoria para cada pesquisa. Mas antigos funcionários alertam que estas proteções são opcionais.

A ênfase está no “pode”; não faz estas coisas automaticamente“, explica o antigo engenheiro. “É o cliente que tem de decidir quem deve ter acesso a quê.”

Apesar do escrutínio, a trajetória da Palantir não dá sinais de abrandar. Em julho de 2025, a empresa garantiu um contrato de dez anos com um valor até 10 mil milhões de dólares com o Exército dos Estados Unidos.

Em 2023, lançou uma Plataforma de Inteligência Artificial que integra modelos de linguagem de grande escala. 150 empresas norte-americanas aderiram no primeiro ano. A capitalização bolsista da empresa situa-se atualmente em cerca de 433 mil milhões de dólares — um aumento de 25 vezes desde 2020.

A tecnologia da Palantir é única em comparação com tudo o que existe no mercado”, afirma Dan Ives, analista sénior de ações da Wedbush Securities. “Estão a jogar noutro campeonato relativamente a todos os outros.”

Quanto a Karp, mantém-se, como é seu timbre, ambicioso. “A minha convicção firme é que a Palantir será dez vezes maior no futuro“, disse em 2025. Se nesse seu  percurso irá servir ou corroer a democracia, o futuro dirá.

(Armando Batista, ZAP)