A grande revolução dos pequenos gestos

By | 01/05/2024

Este ano celebram-se os 50 anos do 25 de Abril — qualquer cidadão atento consegue percebê-lo através das notícias e de eventos comemorativos que têm vindo a decorrer ao longo do último ano. No Shifter não preparámos nenhuma publicação especial, nem tão pouco agendámos escrever este texto que hoje publicamos. Reconhecendo a importância da data, pareceu-nos que tudo o que pudéssemos fazer com os nossos escassos recursos ficaria aquém da expectativa que em nós próprios cria um data tão importante.

Não é política editorial do projecto assinalar efemérides de forma meramente simbólica, sem contributos substanciais que vão para além da declaração de intenções. Pareceu-nos inicialmente redundante repetir que somos pela liberdade e pela democracia – afinal de contas, somos um meio de comunicação social independente. Mas, por outro lado, percebemos que talvez tenhamos um contributo a dar.

Noutros anos criámos conteúdos sobre o 25 de Abril, sugerimos o que ler, ver e fazer, e foi fruto de um amadurecimento do Shifter que o lugar dessas expressões deixou de fazer tanto sentido. Não porque nos afastássemos dos ideais de Abril, isso nunca foi sequer uma questão, mas porque cada vez mais os fomos internalizando. Cada vez mais nos fomos apercebendo do tanto que ainda há por cumprir. E a ideia deste texto surgiu de um desses momentos em que percebemos a urgência de sublinhar esta constatação. 

Na última edição do programa Filhos da Madrugada, Anabela Mota Ribeiro questiona os Fado Bicha sobre o que deviam ao 25 de Abril. Lila Fadista foi peremptória a recordar que a descriminalização da homossexualidade em Portugal só se deu 8 anos depois do 25 de Abril; sem mácula para o simbolismo da data, Lila lembrou com um exemplo prático que a liberdade chegou, mas não foi para todos. Minutos depois, também Lila recorda um momento da sua vida em que com cerca de 11 anos viu pelas imagens da televisão a marcha na Avenida da Liberdade e sentiu que “nunca tinha vivido aquela liberdade”. Pode um acontecimento nacional ter chegado de formas diferentes aos cidadãos? Pode. E chegou. O exemplo que Lila dá é paradigmático.

Desde esse dia em que assisti ao episódio que pensar no 25 de Abril e na celebração dos seus 50 anos tem sido sobretudo pensar sobre o que falta e fazer; naquelas pessoas a quem a liberdade que se celebra neste dia ainda não chegou, e nas forças que de forma discreta a ameaçam. É certo que a deposição do regime fascista nunca será um acontecimento menor na história de um país, que a viragem foi estrutural para aquilo que somos, e que a liberdade de escrever estas palavras daí advém. Mas se por um lado tudo isto merece celebração, a dureza dos dias para tantos que habitam neste retângulo, não nos pode sossegar. Não só porque a liberdade não é algo instituído e irrevogável, como porque uma das melhores formas de a honrar é querendo sempre mais. E neste momento, em que as forças nos procuram fazer recuar, tão importante como fincar pé é forçar a passagem e derrubar os obstáculos: físicos, mentais, intelectuais. É preciso pensar a liberdade… para além da Avenida.

Se a concentração popular anima o espírito e nos lembra de que somos muitos os que acreditam na democracia e na liberdade, os gestos de cada dia são fundamentais para manter vivas estas ideias e ganhar a luta de fundo. É fundamental lembrar que, na história, são tão importantes os que são citados quanto os que permanecem omissos. Como nos lembra, por exemplo, a ausência da representação dos Movimentos de Libertação nos países colonizados, nas narrativas correntes sobre o 25 de Abril. As grandes revoluções também se fazem de pequenos gestos. E nem todos terão um lugar na História proporcional à sua real importância. Nem todos serão dignos de notícia ou atenção. Likes ou visualizações. E muitos menos serão tornados símbolos, onde voltamos uma e outra vez. Mas isso não nos deve demover.

Se a data muitas vezes se resume de forma simbólica, quase rotineira, repetindo as imagens ano após ano, sem dar espaço a novas representações de todos os pequenos acontecimentos que a desencadearam, são os próprios valores da revolução que nos convidam a pensar para além do que se impõem pelo hábito e a institucionalização. Se em 1974, a deposição do Estado Novo significou a luta pela democracia e a liberdade, a libertação colonial, a redefinição da condição da dignidade humana e a conquista da possibilidade de expressão. E abriu portas para que anos mais tarde, por exemplo, fosse possível a descriminalização da homossexualidade, como lembrava Lila. Hoje não podemos desprezar a forma como outras forças – não tão definidas como um regime ditatorial – ameaçam cada uma destas conquistas, e tantas outras que poderíamos elencar. E não podemos esquecer tantas outras coisas com que as ideias de Abril nos inspiram a sonhar.

Devemos manter Abril vivo, no dia-a-dia, entre pares, longe dos holofotes e das comemorações, como a mais bela das conspirações. Uma conspiração contra as forças que agrilhoam o espírito da revolução. Tão inventiva e criativa quanto as que se cultivam no terreno do ódio. Que nos faça acreditar na realidade do que hoje parece impossível. E na sua concretização de formas que desafiam a nossa imaginação. Porque se somos todos livres, ainda há uns que são mais livres que outros. Mais livres para viver a sua vida, para conhecer a sua história, para sonhar o seu futuro. E a verdade é que ainda há quem olhe para o desfile e pense que aquela liberdade não é a sua. Seja por não poder assumir a sua identidade, não poder autonomamente ocupar todos os espaços, por não ver reconhecida a sua identidade na história, ou porque muitas das conquistas consagradas no processo político que se seguiu ao 25 de abril ainda permanecem por realizar.

50 anos depois do 25 de abril, não deixemos os gestos aos automatismos, não nos acomodemos à liberdade. E muito menos acreditemos na sua universalidade instituída. Num país de onde tantos jovens saem para procurar o futuro, e outros não o fazem porque não podem. Onde os salários mal chegam para nos manter acima do limiar da pobreza. Onde as periferias mais próximas distam quilómetros e quilómetros dos centros de decisão – e nem falemos do interior. Onde o fosso da desigualdade social continua por tapar mas se vai disfarçando com jogadas retóricas. Onde o espaço público continua restrito.  Onde a comunicação social está condenada ora ao domínio de grupos empresariais, ora a um subfinanciamento – para voltar ao exemplo inicial. Num mundo onde o consumo energético e a crise climática ameaçam a nossa existência enquanto espécie, onde a hipervigilância se tornou norma, onde a liberdade de expressão é limitada por algoritmos pensados noutra parte do mundo, onde até leis se decidem longe do nosso poder democrático; é importante lembrarmo-nos que nem todas as ameaças surgem em horário nobre, de fato e gravata na televisão ou em tendências do Twitter. E nem todas as lutas são o evento principal. E é ainda mais importante não esquecermos que a resistência se faz de símbolos, claro, mas também se faz gestos espontâneos, granulares, de pequenas pedras que insistem e resistem entre os dentes das engrenagens.

Este texto é por e para essas pessoas. Para quem, por vontade ou necessidade, faz da vida um combate. Para quem espera que o desfile da liberdade chegue à sua rua. Para que saibam que a grande revolução se multiplica em cada um desses pequenos gestos. E que o verdadeiro 25 de Abril não é só o que acontece neste dia, mas em todos os outros; cada vez que escolhemos fazer algo que nos aproxime dos seus ideais. Por um pensamento decolonial, por uma vida digna para todos, por verdadeira liberdade de expressão – a grande celebração deste dia deve ser a renovação do compromisso com a luta em todos os outros.

(SHifter)