Como o Google apoia Putin

By | 30/01/2024

E a Meta também. Para a imprensa independente bloqueada pelas autoridades russas e bielorrussas, está difícil chegar aos motores de busca. Gigantes mostram pouca disposição para dialogar ou alterar os seus algoritmos.

Jornalistas de meios independentes da Bielorrússia, forçados a refugiar-se devido à perseguição política, queixam-se à Comissão Europeia de que os algoritmos de busca da Google, Meta e outras grandes empresas de tecnologia da informação dificultam o acesso aos seus conteúdos no país.

Ao acatar as restrições impostas por Minsk à imprensa oposicionista, as gigantes de informática teriam-se transformado num “instrumento de pressão do regime totalitário e autoritário contra a sociedade civil”, consta de um artigo publicado pelo jornal Financial Times.

“É cada vez mais óbvio que empresas tecnológicas dispõem de enorme poder. Em alguns casos, talvez até mais do que os detentores do poder político”, comentou a líder oposicionista bielorrussa Svetlana Tsikhanouskaya à DW, durante o Fórum Económico Mundial de Davos. “É importante que essas empresas se posicionem do lado do bem e se empenhem pelo fomento aos valores democráticos.”

Meios russos têm o mesmo problema, relata Sarkis Darbinyan, cofundador da organização de direitos humanos Roskomsvoboda: “Para nós, está claro que a Google, uma das maiores máquinas de busca do mundo, inevitavelmente contribui para a propaganda estatal russa, pois nos resultados de buscas e recomendações aos utilizadores dominam os meios estatais e ligados ao governo.”

Motores de busca esvaziam esforços de crítica

Se um utilizador quiser aceder ao website de uma empresa bloqueada por Moscovo, a tentativa falha, e o algoritmo marca o link como inativo, explica o especialista em direitos digitais. Consequentemente, o endereço desaparece dos resultados de busca, dando lugar a meios não bloqueados, com manchetes semelhantes.

Lev Gershenzon, ex-diretor do serviço de notícias da Yandex — o maior e mais acessado motor de busca da Rússia — e fundador do portal de notícias The True Story, gerado automaticamente, aponta outro problema: “Os algoritmos da Google não levam em consideração que regimes autoritários investem enormes recursos para popularizar artificialmente os sites que lhes convêm.”

Assim, o facto de a Google dar tanto peso ao número de acessos impulsionaria páginas que contêm mentiras e teorias da conspiração, adverte Gershenzon. E Darbinyan esclarece: “Quando se desenvolveu o algoritmo, a ideia inicialmente era evitar a presença, entre os resultados, de sites com conteúdo ilegal.”

Matthias Kettemann, codiretor do departamento International Law and the Internet do Instituto Max-Planck de Direito Público Estrangeiro e Direito Internacional, acrescenta: “Queremos que, em princípio, as plataformas retirem da rede conteúdos ilegais — isso é importante.”

“Só que quando um Estado vai e abusa disso — por exemplo, declarando como ilegal toda e qualquer crítica ao governo —, então houve violação da lei. Aí é possível empregar o mesmo instrumento para fazer críticas legítimas desaparecerem da Internet.”

Pouco interesse em mudar algoritmos

Em meados de 2023, analistas da Roskomsvoboda e outros ativistas dos direitos humanos entregaram à multinacional Google um relatório sobre o tema, durante a conferência global anual RightsCon, na Costa Rica, mediada pela ONG americana Access Now.

O documento explicita os desafios que os media independentes enfrentam devido a restrições por parte das gigantes tecnológicas.

“Após a imposição de sanções contra a Rússia, diversas empresas de TI fecharam os seus escritórios, centros de distribuição, serviços e assistência na Federação Russa, além de limitar as suas ofertas para utilizadores russos.” Esse encerramento dificulta progressivamente o trabalho de operadores independentes e resulta em atirar cada vez mais a sociedade russa no isolamento informático face à propaganda estatal, registam os ativistas no seu relatório.

Há cerca de um ano, Lev Gershenzon ocupa-se desse problema. Segundo as suas observações “até ao momento ainda não há um diálogo público com as empresas Big tech“. Darbinyan acrescenta que a Google “não está especialmente interessada em mudar os seus algoritmos só por causa de uns grupos de direitos humanos”. Por sua vez, a Meta estaria mais aberta à sociedade civil.

Kettemann considera que a Google e outras multinacionais se encontram “entre a cruz e a espada” na Rússia, Bielorrússia e China, ao comprometerem-se a acatar as exigências das autoridades, a fim de não colocar os seus funcionários em perigo.

Caso a Comissão Europeia force a Google, sob pena de sanções, a suspender os bloqueios a sites de mídia independente, a plataforma poderá ficar totalmente proibida na Rússia. “E isso, por sua vez, resultaria em sérias perdas; por um lado de dinheiro que se poderia ganhar, mas também para o ecossistema das comunicações.”

Combate a falsidades

Para Darbinyan, a Google já abandonou de facto o mercado russo: “Produtos pagos já não funcionam mais na Rússia, por causa dos problemas com o Visa e o Mastercard. A Google nem sequer tentou restabelecer as modalidades de pagamento para os serviços aos utilizadores ou a monetização de canais russos, a fim de apoiar meios e bloggers independentes que vivem da publicidade.”

Para se colocar do lado da imprensa independente na Rússia e na Bielorrússia, o motor de busca teria que modificar o seu algoritmo a nível mundial. Isso não só é muito caro, como “poderia prejudicar seriamente a sua SEO [search engine optimisation], com que milhares, senão milhões de empresas operam na Internet”, explica o cofundador da Roskomsvoboda.

O Financial Times refere-se a funcionários da União Europeia em Bruxelas que admitem não terem base legal para impor multas ou medidas jurídicas contra empresas de TI que não ajudam jornalistas e escritores críticos ao regime, na Bielorrússia ou noutros países.

Matthias Kettemann avalia a situação: “Formalmente, a Comissão Europeia tem poucas possibilidades em relação à conduta de uma empresa americana num país terceiro. Mas, no âmbito da implementação do Digital Services Act, naturalmente pode controlar plataformas também atuantes na Europa, pelo menos quanto às suas atividades na região. Nesse contexto, também pode fazer observações sobre como as plataformas devem comportar-se em países não europeus.”

Lev Gershenzon está convencido de que a imposição por políticos e representantes da sociedade é “um mau caminho”, pois estes não entendem as especificidades do trabalho da Big Tech. O ideal seria os próprios conglomerados tecnológicos reconhecerem o problema, tomarem consciência da própria responsabilidade e posicionarem-se ativamente: “Mas ainda não se vê isso, e a luta contra falsidades e propaganda só acontece verbalmente.”

 (DW)